Documentário para descobrir a Avenidade Almirante Reis

Através das imagens de Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos redescobrimos um espaço emblemático da cidade de Lisboa, desde as manifestações do 1º de Maio de 1974 até às atuais comunidades asiáticas.

Como é que o documentarismo contemporâneo reage à "velocidade" tantas vezes imposta pelas narrativas televisivas? Ou ainda: como contrapor à "aceleração" do presente a densidade do tempo (leia-se: da duração) das histórias coletivas?

Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos, de Renata Sancho, é um filme que arrisca lidar com essas questões através de uma sugestiva proposta: trata-se de organizar um breve retrato (em pouco mais de uma hora) de um lugar emblemático da cidade de Lisboa, inventariando, precisamente, as marcas do tempo que podemos encontrar nos respetivos cenários.

Em vez de se apresentar como um documentário "descritivo" da Avenida Almirante Reis, o filme vai evoluindo como um "puzzle" de situações que, por assim dizer, desafia qualquer linearidade. No ziguezague dos seus andamentos, tanto pode caber uma deambulação pelo quotidiano das comunidades asiáticas do presente como as imagens de arquivo das manifestações do 1º de Maio de 1974.

Não creio que o filme tenha uma estratégia totalmente delineada para lidar com tal pluralidade (incluindo algumas emblemáticas fotografias a preto e branco). Ou, então, o seu assumido risco consiste em preservar uma certa "austeridade" narrativa. Por exemplo: as maravilhosas imagens do 1º de Maio - incluindo a fachada do Cinema Império, com o cartaz de O Couraçado Potemkine, ou os manifestantes reunidos sob o cartaz da Associação Portuguesa de Escritores (Eduardo Prado Coelho, Mário Dionísio, Glauber Rocha, etc., etc.) - envolvem uma memória que o filme não se preocupa em enquadrar ou explicitar. E fica uma dúvida pedagógica: não será que muitos espectadores se limitarão a ver tais imagens como um mero sinal de "pitoresco" político, mais ou menos televisivo?

É também motivo de alguma perplexidade a opção de usar em off alguns textos (p. ex.: o relato de um comício republicano publicado no jornal O Século, em 1908) que, mesmo sendo historicamente motivados, favorecem um "simbolismo" algo opaco... Ou talvez não. Afinal, o objetivo do filme pode ser esse: contrariar qualquer abordagem objetiva e repor a história como um infinito cruzamento de subjetividades.

Enfim, seja qual for a nossa resistência às propostas formais de Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos, é bom sentir que a linguagem documental do cinema não cede às rotinas da informação audiovisual. E não será demais sublinhar a importância de filmes como este chegarem às salas escuras (mesmo se, tristemente, já não há cinemas na Av. Almirante Reis...).

* * Com interesse

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