A presença do moderno cinema do Irão nos circuitos internacionais terá tido um momento decisivo há quase trinta anos, quando O Sabor da Cereja, de Abbas Kiarostami, arrebatou a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1997 (ex-aequo com A Enguia, do japonês Shohei Imamura). Simplificando, pode dizer-se que a subtil observação social de Kiarostami, quase sempre tocada pela sugestão de uma dimensão documental, serviu de símbolo de uma produção que nunca desistiu de olhar a vida interior do seu país, expondo também, de forma literal ou simbólica, as dificuldades com que se confrontam os próprios profissionais de cinema — bastará recordar o caso exemplar de Jafar Panahi, vencedor de Cannes/2025 com Foi Só um Acidente. Agora, podemos prolongar essa visão do cinema iraniano através de Divina Comédia, de Ali Asgari (nascido em Teerão, em 1982). O título não pode deixar de sugerir algum paralelismo com o Inferno, o Purgatório e o Paraíso da Divina Comédia, de Dante Alighieri. Seja como for, convém não esquecer que estamos mesmo perante uma comédia cinematográfica que já suscitou alguns paralelismos com Nanni Moretti (há mesmo uma Vespa que faz lembrar a que Moretti usa no seu Caro Diário) ou Woody Allen (por causa do humor, desconcertante e sarcástico, que contamina os diálogos). Na senda de Kiarostami e Panahi, Asgari também elege como personagem central um autor cinematográfico, Bahram, aliás interpretado por Bahram Ark, um verdadeiro cineasta. Ele tem um novo filme e quer começar a divulgá-lo, organizando algumas projeções. No essencial, Divina Comédia é o inventário cómico, por vezes próximo da tragicomédia, do confronto de Bahram com o sistema de censura do seu país. Evitando a facilidade de um tom banalmente “panfletário”, Asgari não procura reduzir o seu herói relutante a um símbolo mais ou menos abstrato. Isto porque, no essencial, com o seu estilo de ambígua reportagem (incluindo as cenas de transição com a Vespa em que Bahram se desloca com a sua atriz, Sadaf, interpretada por Sadaf Asgari, sobrinha de Ali Asgari), ele valoriza, antes de tudo o mais, os elaborados diálogos entre as personagens. A primeira sequência em que Bahram tem um encontro com um elemento da censura poderá ser um esclarecedor exemplo, já que os temas vão desde o “problema” de o filme ser falado em turco-azeri (língua materna da personagem do cineasta) até à impossibilidade de mostrar um cão, animal “impuro”, a viver num apartamento... Decididamente, Bahram estacionou no Purgatório e não será fácil avançar para o Paraíso. .'O Diabo Veste de Prada 2'. Meryl Streep entre o céu e o inferno .Jessica Chastain desafia os valores românticos.'As Correntes'. A água é feita de imagens e sons