O até aqui diretor do Teatro Municipal São Luiz, Miguel Loureiro, vai acumular funções como diretor do Teatro do Bairro Alto, enquanto o Museu do Aljube vai ser dirigido por Anabela Valente, anunciou esta sexta-feira, 13 de março, a empresa municipal de Cultura de Lisboa.Em comunicado, a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC) revelou que “os restantes dirigentes dos equipamentos culturais serão reconduzidos nos respetivos nos cargos”.No mesmo documento, a EGEAC refere que Anabela Valente, que substitui Rita Rato na direção do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, estava destacada na EGEAC, depois de ter sido vogal do conselho de administração do Museu Nacional Ferroviário e anterior coordenadora do Gabinete de Estudos Olissiponenses.Na direção do São Luiz desde 2023, Miguel Loureiro passa, assim, a dirigir também o Teatro do Bairro Alto, na sequência da não recondução de Francisco Frazão, anunciada pelo próprio esta semana e que tem levado a múltiplas reações de lamento e condenação junto do setor.Ainda hoje, num artigo de opinião no jornal Público intitulado “Esta cidade ainda tem este teatro?”, o antigo diretor do Teatro Nacional D. Maria II Tiago Rodrigues escrevia que “a falta de respostas e explicações” sobre a saída de Frazão abria a porta “a uma interpretação gravíssima deste afastamento de Francisco Frazão: a de um saneamento político do diretor e de todo o projeto por pressão interna da extrema-direita no município”.“A não recondução de Francisco Frazão como diretor artístico do TBA é uma notícia triste e particularmente grave neste tempo em que vivemos (recordemos que recentemente assistimos a um ataque desinformado de uma deputada durante uma assembleia municipal)”, dizia, por sua vez, um comunicado do Teatro Praga, referindo-se a declarações de uma deputada do Chega, que, em janeiro, na Assembleia Municipal de Lisboa, pediu “uma cultura de direita” e criticou a programação do TBA, apelidando-a de “cultura panfletária”.Também a Plataforma 285 manifesta “profunda preocupação” com a não recondução de Francisco Frazão como diretor artístico do TBA, salientando que, desde 2018, aquele teatro se “tem afirmado como um espaço singular no panorama cultural de uma cidade que se vai descaracterizando e perdendo”.Contactado pela agência Lusa, na quarta-feira, o programador cultural Francisco Frazão disse sentir-se “triste e desiludido”, mas “não surpreendido” com a saída daquele teatroQuanto ao Museu do Aljube foi a própria Rita Rato quem revelou, na quinta-feira, que não foi reconduzida no cargo de diretora.A ex-deputada da PCP, natural de Estremoz, que liderava a direção do museu desde 2020, indicou que a EGEAC lhe comunicou que a comissão de serviço “não seria renovada, com efeitos a partir de 01 de abril”.“Durante os últimos cinco anos, as atividades do Museu do Aljube envolveram uma média de 45 mil visitantes por ano, totalizando um número superior a 270 mil visitantes”, contabilizou a responsável numa declaração enviada à Lusa.Num balanço do trabalho no Museu do Aljube, Rita Rato diz à Lusa sentir-se “muito satisfeita com o trabalho desenvolvido” ao longo dos seis anos de direção, num edifício que funcionou como prisão política durante 37 anos - de 1928 a 1965 - com celas coletivas e de isolamento, que ainda hoje se podem ver, no interior, como memória da repressão.O museu foi instalado em 2015 naquela antiga prisão para presos políticos, para promover a memória do combate à ditadura e à resistência em prol da liberdade e da democracia, e recordar toda a história desse período sombrio vivido por Portugal numa exposição de longa duração que descreve o fascismo, a resistência, a vida na cadeia, a luta anticolonial e a Revolução do 25 de Abril, ao longo de três pisos do edifício.Na declaração enviada à agência Lusa, Rita Rato faz um balanço alargado da atividade do espaço cultural desenvolvido: 21 exposições temporárias realizadas, visitado por mais de 45 mil estudantes e 940 escolas, formação de professores, presencial e 'online', envolvendo 2534 educadores, cerca de 9.000 pessoas em visitas orientadas promovidas por associações e outras entidades, indica.Acrescenta ainda o lançamento do projeto exposições itinerantes, “que levou cinco grandes áreas temáticas dos direitos humanos a mais de 170 espaços culturais e educativos no país e estrangeiro, envolvendo milhares de participantes”, além de acolhimentos de 153 iniciativas promovidas por outras entidades, com oito livros editados.A diretora lembra igualmente a criação do Arquivo Digital, “com disponibilização de mais de 14 mil documentos 'online', recolha de cerca de 45 testemunhos de resistentes antifascistas, e a criação do projeto Museu Acessível que disponibilizou, pela primeira vez, a possibilidade de visitas com intérprete de língua gestual e audiodescrição, bem como recursos dirigidos a pessoas com outras necessidades específicas”.“Foram quase seis anos de árduo trabalho de que me orgulho, fazendo deste museu um espaço de educação para os direitos humanos, democracia e liberdade”, conclui Rita Rato, que tinha concorrido ao lugar e foi selecionada para iniciar funções em agosto de 2020, num mandato de dois anos, que foi depois prolongado até ao final de 2022, e novamente até janeiro deste ano.