Se mais não tivesse sido, e foi, Diogo Ramada Curto ficaria para a História como o diretor da Biblioteca Nacional de Portugal que, no exercício do cargo, continuava a frequentar diariamente a sala de leitura geral, ao lado de estudantes e investigadores. Com esse espírito de utente que nunca o terá abandonado, andou, em certo dia especialmente frio deste inverno, a distribuir lápis pelos leitores, em jeito de pedido de desculpas pela ocasional, mas muito desconfortável, ineficácia do sistema de aquecimento da sala de leitura concebida pelo Arquiteto Porfírio Pardal Monteiro, em meados do século XX.Não se pense, no entanto, que Diogo Ramada Curto aspirava a alguma forma de popularidade, quer na gestão da maior e mais importante biblioteca do país, quer na sua longa vida académica. Como o seu mestre, o historiador Vitorino Magalhães Godinho, nunca se esquivou a uma polémica, nomeadamente na abordagem da História da expansão ultramarina, a propósito da qual jamais usou um tom nacionalista ou jubilatório.Nascido em Lisboa a 22 de abril de 1959, Diogo era neto de um nome grande da cultura e da política nacional, Amílcar Ramada Curto (1886-1961). Jurista, político republicano e socialista na época da 1ª República e depois opositor do Estado Novo, ficaria conhecido do grande público pelas dezenas de peças que escreveu. O neto, que acumulava a direção da Biblioteca Nacional com as funções de professor catedrático no Departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e investigador no Instituto Português de Relações Internacionais, herdou-lhe o espírito irrequieto.Licenciado em História e doutorado em Sociologia Histórica, foi também professor visitante em várias universidades estrangeiras, como a École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, as universidades de Yale (Estados Unidos), São Paulo (Brasil) ou a Universitat Autònoma de Barcelona. Entre 2000 e 2008 foi professor da cátedra Vasco da Gama em História da Expansão Europeia no Instituto Universitário Europeu de Florença. Foi autor de mais de uma dezena de livros e coordenador de várias obras coletivas, tendo também desempenhado um papel relevante na edição de coleções universitárias em Portugal.Da sua vasta bibliografia constam obras como O Discurso Político em Portugal: 1600-1650 (1985), A Cultura Política em Portugal: 1578-1642 (1994), As Múltiplas Faces da História (2008), Cultura Imperial e Projectos Coloniais: Séculos XV a XVIII (2009),; Políticas Coloniais em Tempos de Revolta (2016); História Arte e Literatura (2019); O Colonialismo Português em África: de Livinsgstone a Luandino (2020) e Um País em Bicos de Pés: Escritores, Artistas e Movimentos Culturais(2023). Em 2013, recebeu o Prémio PEN Clube de Ensaio pelo livro Para que serve a história? e foi distinguido em 2015 com o Prémio Jabuti por uma obra coletiva sobre o Brasil colonial. Colaborador regular da imprensa escrita, recentemente podia ser lido com frequência nas páginas do Expresso.Na hora da inesperada partida, vários amigos prestaram nas redes sociais a homenagem ao legado pessoal e profissional de Diogo Ramada Curto. É o caso do também historiador Francisco Bethencourt, que, no passado domingo, recordava o caminho que ambos partilharam: “Diogo foi um dos meus melhores amigos desde que o conheci por volta de 1980, antes de começarmos a ensinar na Nova. Trabalhámos os dois com Vitorino Magalhães Godinho e partilhámos o ensino de disciplinas no departamento de sociologia da Nova. Trocávamos ideias com a maior frontalidade e percorremos percursos intelectuais diferentes com terreno comum. Em 1986 organizámos o primeiro colóquio sobre a Memória da Nação e lançámos os primeiros seminários de sociologia histórica. Criámos a coleção memória e sociedade na Difel no final dos anos de 1980, que introduziu autores das ciências sociais e humanas na língua portuguesa (v.g. Hans Blumenberg, Pierre Bourdieu, Peter Burke, Carlo Ginzburg) e difundiu autores das novas geraçoes em Portugal ( Jorge Pedreira, Jorge Crespo, Pina Cabral, José Luís Cardoso). Partilhei o ensino na Brown com ele durante vários anos. “As homenagens institucionais realçam igualmente o trabalho deste cientista social que desarrumava as habituais gavetas estanques entre disciplinas. Na sua nota de pesar, a direção da FCSH da Universidade Nova de Lisboa realçou “a sua marca como investigador num campo largo de cruzamentos disciplinares, que organizava em torno de problemas de investigação. Entendia a prática da história como um modo de nos libertar do passado, desígnio que igualmente o dispôs a manter uma atenção crítica a diferentes formas historiográficas e memorialísticas de identificação ideológica com esse passado.” Também a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, lembrou “o legado incontornável para a nossa memória coletiva” e o comissário geral da Estrutura de Missão para para as Comemorações do V centenário de Camões, José Augusto Bernardes, destacou o papel desempenhado por Diogo Ramada Curto como comissário-geral adjunto para as Comemorações, em representação do Ministério da Cultura: “A dedicação competente e ilimitada com que exerceu este cargo tornam ainda mais dolorosa a perda imprevista com que fomos confrontados.”Nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Portugal em abril de 2024, pela então ministra Dalila Rodrigues, foi inicialmente contestado pela Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação. Dois anos depois, em jeito de balanço, dir-se-ia que a forma constante, enérgica e, por vezes, truculenta com que exerceu funções não deixaria ninguém indiferente..Morreu Diogo Ramada Curto, historiador que desafiou as narrativas oficiais