Irina Arkadina é uma atriz consagrada, vaidosa e egocêntrica, que tem dificuldade em aceitar o seu envelhecimento e é incapaz de amar e apreciar o talento artístico do filho, Constantino Treplev, que anseia por validação materna. Irina e Constantino são duas das personagens da peça A Gaivota, um clássico do dramaturgo russo Anton Tchékhov que Diogo Infante encena e que estreará esta quinta-feira, 29 de janeiro, no Teatro da Trindade, em Lisboa. Alexandra Lencastre interpreta o papel de Arkadina e um dos principais desafios deste seu regresso ao teatro, diz ao DN, foi ultrapassar a ideia de que Irina Arkadina era ela. “O grande exercício que eu tenho de fazer é não pensar, – o Diogo disse-me isto muitas vezes – que esta Arkadina sou eu, e não ter medo de pensar que o público pense que sou eu esta atriz. Havia esse receio de que vão pensar que estou a fazer de mim própria”, disse Alexandra Lencastre ao DN. “E não estou, de facto. Há duas semanas o Diogo disse-me, Alexandra, ela não é como tu, ela não dá beijinhos às filhas, ela não é carinhosa, ela não quer jantar em família, ela está-se a borrifar para o Natal, ela não quer passar o Natal a fazer uma turnê, esta mulher é egoísta, é má, ela representa tudo aquilo que tu não és, ela é o teu oposto”. Desde 2017 que Alexandra Lencastre não fazia teatro, e das últimas vezes que pisou o palco foi também pela mão de Diogo Infante. “Além de termos uma grande amizade, eu tenho uma grande admiração por ele como ator, como pessoa, como amigo, e como encenador também. Dá-me uma confiança tão grande, é uma âncora”, afirma. “Como tem muita confiança comigo, tem também mais facilidade em ralhar comigo do que com as outras pessoas”, acrescenta, entre risos. . A peça que vai estar em cena no Teatro da Trindade até 5 de abril é uma versão contemporânea do texto de Anton Tchékhov , adaptada pelo próprio Diogo Infante, que tinha o sonho antigo de encenar este clássico, de leitura obrigatória para quem passa pela Escola Superior de Teatro e Cinema, o antigo Conservatório Nacional, e que agora, 35 anos depois de ter concluído a sua formação naquela escola, concretiza. A peça é de 1895, e o desafio desta encenação, diz Diogo Infante ao DN, começou logo na adaptação. “Atualizar, modernizar o texto sem o desvirtuar. E isso foi algo que eu demorei algum tempo a decidir se iria fazer, porque entendi que apesar dos 130 anos que o texto já leva, havia tanta coisa que fazia sentido hoje em dia, e também é uma forma de aproximar o texto do público e talvez até das novas gerações, sem que ele perca a sua essência. Esse foi o grande desafio e estou muito satisfeito, até porque fizemos uma primeira leitura com o elenco para avaliar essas adaptações e a reação foi muito boa logo de imediato e pensei, isto funciona”. Da peça foram retiradas todas as referências que datam o texto do dramaturgo cuja ação se desenrola numa propriedade rural no interior da Rússia, junto a um lago, no final do século XIX. Nesta versão de Diogo Infante fala-se, por exemplo, em Ubers, redes sociais e jovens que se vestem de preto e não sabem o que fazer da vida. .A peça passa-se no campo, onde Irina Arkadina, Constantino Treplev, o escritor Alexandre Trigorin, e a jovem Nina Zarechnaya, aspirante a atriz e por quem Treplev está apaixonado, vivem uma história de amores cruzados, ilusões e desilusões numa peça que, além das questões existenciais de vida e morte, reflete sobre a própria arte e a condição do artista. Mas há mais personagens e o elenco foi outro dos grandes desafios apontados por Diogo Infante nesta encenação d’A Gaivota.“O segundo desafio foi gerir este talento todo, foi gerir dez atores, todos eles com enorme peso, porque cada um deles tem necessidades ritmos e backgrounds distintos. No fundo, tratou-se de encontrar uma linguagem comum, códigos comuns, ser firme quanto às minhas configurações e ao caminho que eu queria para o espetáculo, porque o que acontece é que a maior parte dos atores também são encenadores nas suas cabeças, todos eles fazem o seu filme e acham que o seu caminho é mais interessante. Portanto, eu tive que ser muito determinado quanto ao caminho que queria seguir e a partir do momento em que todos entraram no comboio, a coisa fluiu e acabou por se desenrolar de uma forma natural e saudável.”Além de Alexandra Lencastre, o elenco inclui André Leitão (Constantino Treplev), Ivo Canelas (Alexandre Trigorin), Rita Rocha Silva (Nina Zarechnaya), António Melo (Leo Shamraev), Rita Salema (Paulina Shamraev ), Margarida Bakker (Márcia Shamraev), Guilherme Filipe (Pedro Sorin), Pedro Laginha (Hugo Dorn) e Flávio Gil (Simão Medvedenko). . Ivo Canelas já tinha trabalhado com Diogo Infante anteriormente, mas nunca o tinha feito com ele no papel de encenador. “É muito claro no que pede, é muito delicado e generoso da forma como o pede. E isso faz com que, como equipa, não tenhamos que proteger as nossas sensibilidades, que todos temos. Estamos todos muito disponíveis e abertos para tentar contar a história segundo a visão do encenador que é o Diogo”.Quando o ator soube que se tratava de uma versão atual do texto de Tchékhov, ficou de pé atrás, mas rendeu-se a esta adaptação de Diogo Infante. “Há 20 anos talvez ficasse mais entusiasmado com uma versão contemporânea, mas depois ao ler a versão original e esta, a minha emoção é igual. Lembro-me sempre da Sagrada Família, com as gruas em cima, já depois do Gaudí ter morrido. Nós continuamos a construir em cima e aquilo aguenta. Este texto aguenta as visões todas e as contemporaneidades todas. Adoro esta versão”, diz o ator. . Ivo Canelas sublinha como Tchékhov, no final do século XIX, “trouxe um material muito diferente daquilo que era representado até à data”. “Eu não me canso de ler o texto e de ficar surpreendido com as aparentes pontas soltas que ele deixa. Há um monte de coisas que não são explicadas, que não são esclarecidas, o que permite aos atores completarem mais com o seu ponto de vista. Muitas vezes, há textos onde as coisas são muito evidentes e não há muita coisa a acrescentar. Os silêncios, as hesitações, aquilo que os personagens não dizem ou a forma como dizem algumas coisas dá imenso espaço a um ator, uma liberdade interior para quem gosta de criar. Os micro espaços ao longo do texto são enormes, podemos criar pequeníssimos universos e isso para um ator é muito desafiante”, observa. No entanto, acrescenta o ator que veste a pele do escritor Alexandre Trigorin, “o Diogo tem a sua visão sobre a história e nós tentamos contar essa história”. Na peça contracenam atores de gerações e experiência diferentes, desde os mais velhos Guilherme Filipe, António Melo, Alexandra Lencastre ou Rita Salema, a jovens como Rita Rocha Silva e André Leitão, dois dos protagonistas. .A escolha da atriz para o papel de Nina resultou de um casting e Diogo Infante confidenciou anteriormente ao DN como ficou emocionado ao ver a jovem atriz em palco no papel de Nina, personagem que Alexandra Lencastre desempenhou há 36 anos numa apresentação desta obra de Tchékhov pelo Teatro da Graça.“Para mim foi uma surpresa muito grande, até porque não há muitos castings nem audições, nem costumam ser abertos a todos os atores. Foi um privilégio enorme ter a possibilidade de fazer o casting para esta personagem que é um clássico do teatro. Nós damo-lo na escola, fazemos muitas vezes peças do Tchékhov. E foi muito bom, porque é uma personagem muito complexa, muito densa, muito desafiante.”A atriz recebeu o Globo de Ouro de melhor Atriz em 2022 pelo trabalho na peça Lua Amarela de David Craig, encenada por Pedro Carraca para os Artistas Unidos, e já trabalhou com outros encenadores, como Mário Coelho, Maria João Luís, Tónan Quito ou Ricardo Neves-Neves. .A personagem de Nina, explica, “tem um arco emocional muito grande e vai a sítios muito densos e complexos e com muitas camadas, a maior dificuldade é esta. A Nina é apresentada e depois acontecem várias coisas ao longo da vida, os sonhos são destruídos e ela volta, passado dois anos, com a vida toda virada ao contrário. Tudo aquilo que ela sonhava era uma ilusão e é quase um embate com uma realidade muito dura o que lhe acontece”.André Leitão é Treplev e assume que se trata de “uma personagem difícil, complexa, com várias camadas e com muitos dilemas para gerir, com uma vida que não tem sido fácil para ele, do ponto de vista amoroso e como homem constantemente à procura daquilo que é romper com as ideias clássicas e convencionais do teatro, aquilo que a nossa geração também às vezes tenta fazer, numa perspetiva de inovar e de estar sempre a pôr o teatro nesta constante metamorfose”. .Há ainda uma outra jovem atriz no elenco, Margarida Bakker, que faz o papel de Márcia Shamraev, numa composição muito atual sobre as novas gerações que se veem sem futuro, sem sonhos. É filha de Alexandra Lencastre, mas em palco é como se não fosse. “Nós somos muito profissionais e funcionou muito bem, e eu às vezes nem a vejo, porque ela entra em muitas cenas em que eu não entro. Temos cenas de conjunto, mas de contracena direta apenas uma. Ela tem feito um tipo de teatro completamente diferente, muito alternativo, mais experimental, com versões fantásticas também, mas aqui não deixa de ser um clássico, e eu estou encantada, porque acho que o Diogo conseguiu dirigi-la muito bem”.Quanto à sua participação n’A Gaivota, Alexandra Lencastre diz que não se arrepende de ter aceitado o novo desafio do amigo nove anos depois de ter contracenado com Diogo Infante em Quem tem Medo de Virginia Woolf, peça também encenada pelo ator no Teatro da Trindade. "Não, mesmo que digam mal, não.”.‘Sr. Engenheiro’ estreia em Lisboa no dia das mentiras e sem medos .Bailado contemporâneo numa sala “fora da caixa”: 'CASA' estreia no Capitólio