Despedida do "Rei" em Alcochete

Pedro Balé faz a crónica da corrida de toiros de Alcochete, que teve casa cheia neste fim de semana, para a despedida despedida do histórico primeiro ajuda João Rei, dos forcados amadores de Alcochete.

Numa tarde soalheira de verão, a Praça de Toiros de Alcochete encheu-se praticamente e em ambiente de festa para o tradicional Concurso de Ganadarias, em que o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete pegava em solitário, que teve o seu momento culminante na despedida do histórico primeiro ajuda João Rei dos amadores de Alcochete.

Nas lides a cavalo, destacou-se a segunda atuação de João Ribeiro Telles, com um toiro de António Silva, bem apresentado, bravo e com boa qualidade e prontidão na investida: depois de dois compridos aliviados, com uma passagem em falso no primeiro e, um segundo, sem grande expressão na sua concretização, cresceu nos curtos, com o Gaiato, russo de ferro Coimbra, com um primeiro de grande classe ao pitón contrário, um segundo, saindo dos curros e cravando nos médios e o terceiro, conseguido, em tábuas, e já ao som da música da famosa e muito brindada Banda local (aliás, diga-se, a única música que, em função das atuações, se mostrou justificada e merecida durante toda a corrida). Foi buscar o Ilusionista, negro, de Ortigão Costa, que, com dois ferros curtos magistrais, saindo da porta de "entrada dos cavaleiros", e atacando o toiro próximo de tábuas, trouxe máxima emoção nas bancadas, sendo o último, de superior expressão artística e com o toiro a investir com maior codícia e perigo, cravado ao estribo e com uma resposta unânime do público, aplaudindo de pé. No seu primeiro, de Alves Inácio, nobre e até prenunciando qualidade, mas manifestamente parco de forças e que cedo se rachou, não pôde triunfar.

Francisco Palha, recém-regressado de um triunfo redondo em Madrid, com uma orelha e volta em Las Ventas - com uma atuação que teria merecido as duas orelhas, negadas pela "distração" do seu Presidente ao pedido unânime do público para que lhe fossem concedidas -, entrou em Alcochete em dia não. Com um toiro encastado de Fernandes Castro que, depois, de um início forte, se foi reservando para o final, Francisco parecia que iria triunfar, à saída dos compridos, com o Lotus da Hermida, emotivos e o segundo de bom recorte, esperando em tábuas a investida do toiro e cravado ao pitón contrário; mudando de cavalo, para o Gingão, com o ferro da sua Casa, não logrou entender-se com o astado, com uma faena e ferragem incerta. No seu segundo, de Passanha, que, sem ser bravo, era nobre e dava condições de lide, recebeu-o, a meia praça e com um emotivo comprido, com o russo Jaquetón, de ferro João Moura Júnior; nos curtos saiu com o também russo Estrondo, de ferro Pablo Hermoso, estreante, que, não obstante mostrar qualidade a bregar, não a completou com acerto na hora de reunir e cravar, tendo a faena decaído e perdido consistência e unidade. Terminou sem brilho - a que a ausência da estrela Roncalito pode não ter sido alheia - e tendo, com pundonor, recusado a volta que lhe havia sido concedida pela Diretora.

João Salgueiro da Costa, por fim, com duas atuações incertas, com altos e baixos, aqui e ali com uma ou outra pincelada de emoção e qualidade, mas não rematando faena em nenhuma delas. No seu primeiro, com um Vinhas, de investida cómoda e bondosa, saiu com o L'Amorino, castanho com o ferro da casa, cravando o primeiro à tira e o segundo sem história. Ouviu música depois do primeiro curto, já com o Chinoca, sem que nada o justificasse ou alguém a reclamasse; o segundo e o terceiro curtos, atacando o toiro em terrenos mais comprometidos, já assumiram melhor nota e o apreço do público; o mesmo não acontecendo, porém, com os últimos dois, os quais, não obstante a entrega do ginete, não emocionaram. No seu último, um toiro manso e de investida incerta, saiu com a Princesa, de ferro Salgueiro, com um primeiro comprido aliviado e um segundo sem cite definido e inexpressivo; para os três primeiros compridos trouxe o Alba, com ferro Pablo Hermoso de Mendoza, com que se não entendeu, recebendo dois toques no primeiro e terceiro; regressou de novo com o Chinoca, resultando um bom quinto ferro, em tábuas, em espaço de difícil numa sorte árdua e conseguida.

Forcados

Em solitário, o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete, apresentou-se muito renovado, com muita juventude, com o aliciante de se despedir João Rei, após uma brilhante carreira de quase trinta anos de um dos grandes primeiros ajudas da história recente da tauromaquia portuguesa. Numa atuação segura e que se revelou, a final, dura, no último toiro.

1.º João Dinis, de caras, que dedicou a sua sorte ao Presidente da edilidade Alcochetana, Fernando Pinto, à terceira tentativa: depois de uma primeira tentativa, com o toiro colocado em frente aos curros e em tábuas, que, não reagindo ao carregar de largo, o obrigou a entrar nos seus terrenos, com investida reservada e pouco franca, com uma mangada na viagem e, porque o forcado recuou de forma desequilibrada, terminou reunindo deficientemente; na segunda tentativa, com a mesma colocação, mas já nos tércios, com o toiro com uma investida ainda mais reservada e metendo o pitón esquerdo no momento da reunião, não possibilitou que o forcado se fechasse. Na terceira tentativa, tendo o forcado, carregado e consentido mais a investida do toiro, logrou fechar-se à barbela, com uma ajuda carregada e eficaz de João Rei. (volta)

2.º Vitor Marques, de caras, dedicada ao público, à primeira tentativa, que, chamando de largo frente aos curros e tendo o toiro arrancado com uma investida franca, recuou algo desequilibrado no termo da viagem, mas resolvendo de modo eficaz, fechando-se rapidamente à córnea e mais sobre o braço direito, com o toiro a afocinhar, tendo sido bem ajudado e a pega resultado emocionante. (volta)

3.º Henrique Teixeira Duarte, de caras, dedicada aos Bombeiros locais, à primeira tentativa, colocando o toiro nos tércios, chamando e provocando a investida em curto e com aviso de capote nas tábuas, recuou bem e fechou-se rapidamente à barbela, sem que o toiro desse luta na viagem, com o grupo a ajudar eficientemente nas segundas e terceiras. Rabejado com graça e eficácia por João Ferreira, em tarde muito positiva, a entrar e a rematar as sortes. (volta)

4.º Nuno Santana (Cabo), de caras, à primeira tentativa, que chamou de largo e lentamente, fixando-o dos tércios e enchendo-lhe a cara, recuando bem e fechando-se bem na córnea, com uma ajuda muito técnica e eficiente do primeiro ajuda, João Rei, a quem dedicara a sorte. (2 voltas e terceira apoteótica, despindo a jaqueta e despedindo-se aquele último en olor de multitud)

5.º Manuel Pinto, de caras, à primeira tentativa, que chamou de largo, sereno e com classe, carregando no tempo certo, mandando, e recuando, templando, fechando-se seguramente à barbela e sendo ajudado com eficácia pelo grupo. (volta)

6.º Diogo Timóteo, de caras, à segunda tentativa, em curto e a sesgo, em reunião muito dura, depois de uma anterior tentativa sua, em que o toiro reuniu muito alto e com mangada agressiva; anteriormente, tinha tentado por três vezes pegá-lo João Maria Pinto, com uma primeira tentativa em que a reunião resultou desequilibrada, uma segunda em que o toiro o surpreendeu pela forma como arrancou inesperadamente, não permitindo controlar a investida e uma terceira em que o toiro, defendendo-se, reuniu com uma mangada muito forte e alta (este último resultou colhido, com fratura de clavícula, bem como o primeiro ajuda Joaquim Matos, na 5.ª tentativa, que saiu inanimado e se mantém internado no Hospital Garcia de Orta, em recuperação).

Síntese da Corrida
Praça de Toiros de Alcochete
1.ª Corrida da Feira, XV Concurso de Ganadarias (António Manuel Cardoso «Néné»), integrada nas Festas do Barrete Verde e das Salinas de Alcochete. Três quartos muito fortes de casa.

Ganadarias: 1.º Alves Inácio (535 Kg), negro, mas com manifesta falta de força, inválido; 2.º Fernandes Castro (555 Kg), negro; 3.º Vinhas (555 Kg), negro, cornicorto e bragado corrido; 4.º António Silva (585 Kg), negro, cornilargo; 5.º Passanha (560 Kg), negro; 6.º Branco Núncio (550 Kg), negro. Destacaram-se o 2.°, de Fernandes Castro, com nobreza e prontidão nas investidas, que foi perdendo no fim da lide, o 4.°, de António Silva, muito bem apresentado, nobre, com classe e prontidão nas investidas, francas e com um comportamento uniforme e com codícia até ao termo da lide (que ganhou merecidamente os prémios que se disputavam de apresentação e bravura) e 5.º, de Passanha, nobre e com prontidão e cadência até ao primeiro comprido, tornando-se mais reservado para o final. Nobre e voluntarioso, mas inválido o 1.º, de Alves Inácio. Nobre e manejável o 3.º, de Vinhas. Manso e reservado o 6.º, de Branco Núncio.

Cavaleiros: João Ribeiro Telles, vestido de casaca verde e ouro, (volta e duas voltas), Francisco Palha, de negro e prata (silêncio e ovação) e João Salgueiro da Costa, de castanho e ouro (volta e volta).

Forcados: Amadores de Alcochete: João Dinis, à terceira (volta); Vítor Marques, à primeira (volta); Henrique Teixeira Duarte, à primeira (volta); Nuno Santana, à primeira (3 voltas com o primeiro ajuda, João Rei, que se despediu das arenas); Manuel Pinto (volta); Diogo Timóteo, à segunda (a dobrar João Maria Pinto, que fez três tentativas).

*As voltas à arena no final das lides são concedidas pelo diretor de corrida como prémio à qualidade da performance artística dos intervenientes ou pela bravura dos toiros.

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