Apresentado na edição de 2025 do IndieLisboa, De que Casa És? surge agora nas salas. É mais um exemplo de um modelo de abordagem documental que procura encontrar um lugar estável nas dinâmicas do mercado das salas. Como é óbvio, reconhecer a dificuldade prática dessa procura não envolve qualquer menorização (antes pelo contrário) dos objectos em causa — importa apenas relembrar que, apesar da crescente presença do documentarismo no panorama global da exibição, este é, e será sempre, um processo indissociável de estratégias e políticas de diversificação da oferta e, nessa medida, de diversificação dos próprios públicos (no plural, entenda-se).Distinguida em 2015 com o Prémio Autores, da Sociedade Portuguesa de Autores, a artista visual, performer e realizadora Ana Pérez-Quiroga propõe, aqui, uma memória eminentemente pessoal que, em qualquer caso, ecoa várias convulsões históricas do século XX. No centro do filme está a sua mãe, Angelita Perez, que viveu em internatos russos dos quatro aos 24 anos, até concluir os estudos de medicina em Moscovo — ela foi uma das crianças espanholas exiladas na União Soviética durante a Guerra Civil (1936-1939).Estamos perante uma verdadeira saga existencial, com o seu quê de aventura fantasiosa (mas totalmente realista), que apela a uma multifacetada contextualização histórica. A Guerra Civil remete-nos, por exemplo, para a Guernica, de Picasso, ao mesmo tempo que a juventude vivida na URSS não pode deixar de evocar modos particulares de integração social e vivência artística (da música à ginástica), tudo cruzado com elementos particulares da geopolítica.Tudo isso está no filme, o que não significa que Ana Pérez-Quiroga tenha querido fazer um “resumo” histórico. Se o seu filme resiste às regras correntes de tal tipo de abordagem, isso resulta da colocação física e dramática (apetece dizer: melodramática) da mãe no centro de um filme feito com ela e, no plano afetivo, para ela — incluindo no seu título original, De qué Casa Eres?Assim, o testemunho de Angelita Perez cruza-se com elementos muitos diversos que vão desde as fotografias de juventude até registos filmados de ataques aéreos durante a guerra, sem esquecer as tarefas do presente, incluindo as vindimas e as medidas do teor alcoólico do novo vinho. O ziguezague de tudo isso recorda-nos uma questão básica, mas essencial, nem sempre acautelada pelas rotinas televisivas: documentar não é uma mera prática de “transcrição”, mas sim a construção de um arranjo particular de factos, objetos e memórias..'La Grazia'. A política é uma arte da solidão.'Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo'. Os dias e as noites de Abdellatif Kechiche