Em 2026, o mapa dos grandes festivais de música em Portugal volta a confirmar a diversidade de propostas, públicos e modelos de programação, mostrando que a mistura destes elementos é hoje um dos principais trunfos do setor. Entre grandes eventos urbanos de escala internacional, que até incluem curadoria autoral - especificamente a cargo dos Xutos & Pontapés, no caso do Rock in Rio - e uma preocupação com a inclusão comunitária, como acontece no MEO Kalorama, o país prepara-se para um ano particularmente intenso. Além destes dois festivais, há ainda um NOS Alive, que - nas palavras do promotor Álvaro Covões, com quem o DN conversou - volta a apostar no “melhor cartaz, sempre”. Há também um Bons Sons, sem nomes anunciados, apesar de já ter os bilhetes à venda, que garante ir ao encontro da “confiança” depositada pelo público. Com cartazes distintos no horizonte, estes festivais representam quatro visões diferentes sobre o que pode ser um evento musical no século XXI, e ainda há margem para outros acontecimentos, mais pequenos, mas com público fiel.Nos dias 20, 21, 27 e 28 de junho de 2026 o Rock in Rio Lisboa volta ao Parque Tejo assumindo, sem reservas, o seu posicionamento enquanto megaevento de entretenimento, que vai além da música. Em conversa com o DN, Luís Soares, diretor de Marketing do festival, explicou que a música continua a ser o eixo central, mas está longe de ser o único, preferindo ver o Rock in Rio “enquanto agregador social. As experiências que reúnem tantos conteúdos além da música são cada vez mais escassas no mundo”, justifica.O cartaz volta a apresentar nomes de diferentes gerações e géneros – de Linkin Park a Katy Perry, de Rod Stewart a Cyndi Lauper –, mas a organização insiste que a verdadeira diferenciação está no conceito. “O Rock in Rio foi concebido para ser uma grande festa, um mobilizador em torno do entretenimento e da música”, explica Soares, sublinhando que cada dia oferece “cerca de 12 horas de entretenimento”, com experiências gastronómicas, atrações familiares, espetáculos visuais que ultrapassam o formato clássico de festival.A edição de 2026 reforça também a ligação à memória coletiva. O Legends Day, programado para dia 27 de junho, liderado por Rod Stewart e Cyndi Lauper, integra uma curadoria nacional inédita, confiada aos Xutos & Pontapés. “Fizemos a provocação: por que não assumirem a curadoria de um palco?”, conta Luís Soares. O resultado é o conceito Classe de 79, que reúne nomes fundadores do rock português como GNR, Táxi e UHF, celebrando uma geração que moldou o panorama musical nacional e que acabou por marcar gerações.Assumidamente urbano, o Rock in Rio vê essa característica como uma vantagem estratégica. “Hoje o público busca conforto, não aceita qualquer condição”, afirma Soares, apontando o investimento em infraestruturas, hospitalidade e acessos como um dos fatores de sucesso.A atenção ao detalhe, neste sentido, vai até à loiça das casas de banho, explica o responsável de Marketing do Rock in Rio, acrescentando que a dimensão espetacular é levada ao limite com propostas como aviões acrobáticos, fogo de artifício diário, que se tornou uma imagem de marca do festival, e vídeo mapping. “Não é o produto core do festival, mas é isso que nos diferencia”, resume.NOS Alive e o peso do “melhor cartaz”No Passeio Marítimo de Algés, o NOS Alive prepara uma edição de 2026, nos dias 9, 10 e 11 de julho, que reforça uma reputação ligada a cartazes com grandes nomes internacionais. Álvaro Covões, promotor musical e fundador da Everything Is New, não hesita em considerar que este festival tem “uma assinatura arriscada, mas corajosa”, tendo em conta que promete o “melhor cartaz, sempre”. A ambição deste lema do NOS Alive implica a presença de nomes como Foo Fighters - banda liderada pelo antigo baterista dos Nirvana, Dave Grohl -, Nick Cave, Florence + The Machine, Lorde, Pixies ou Matt Berninger, que é o vocalista dos The National.Mas, escondida na programação sonante, há uma banda que se estreia em Portugal – a Dogstar – e traz consigo um segredo: o baixista é o ator Keanu Reeves..O cartaz é tão extenso, com “mais de 100 artistas em três dias”, lembra o promotor musical, observando que “às vezes é até injusto esquecer de alguns”.O regresso dos Buraka Som Sistema, dez anos depois de se terem afastado dos palcos, assume um peso simbólico especial. “É a única oportunidade” que o público tem para ver a icónica banda, sublinha.A paleta de estilos continua a ser uma marca do Alive, que cruza rock, pop, eletrónica e projetos híbridos, sem esquecer a música portuguesa, como Noiserv, o one man show de David Santos, que traz consigo um disco novo. Além dos grandes palcos, o festival também volta a apostar num espaço para revelações musicais.Meo Kalorama e a “inclusão” como orientaçãoNo Parque da Bela Vista, nos dias 28, 29 e 30 de agosto, o MEO Kalorama continua a afirmar-se como “o grande festival anual” da cidade de Lisboa, com uma identidade própria claramente assumida, de acordo com o que partilhou com o DN o diretor do evento, Diogo Marques.É assim que a edição de 2026 espelha os valores fundadores do festival, explica Diogo Marques, falando em “bandeiras” como “a inclusão e a diversidade, não só social, mas também musical”.A convivência, no mesmo dia, de Robbie Williams com Deftones é apresentada como exemplo dessa filosofia. “Pretendemos que os diferentes públicos se sintam bem no recinto”, explica Diogo Marques, defendendo uma programação que cruza nomes mainstream com artistas de culto e bandas em ascensão. A par dos cabeças de cartaz, como Deftones, Turnstile, Interpol ou Violent Femmes, o festival mantém a aposta em artistas emergentes, muitos deles em estreia nacional..Essa dimensão pedagógica, na perspetiva do público, é assumida sem reservas pelo diretor do festival, que assume que há o “cuidado de trazer artistas que consideramos que vão chegar às primeiras linhas nos próximos anos”, diz o responsável, recordando casos como Peggy Gou, Raye ou Olivia Dean, que passaram pelo Kalorama antes de atingirem maior projeção mediática. “Há pessoas que nos dizem que a playlist delas foi ampliada depois do festival”, acrescenta.É assim que o MEO Kalorama surge como um festival “verdadeiramente virado para a música”, com menor peso de “ativações” comerciais, diz Diogo Marques. Arte, sustentabilidade, acessibilidade e envolvimento da comunidade local fazem parte de um modelo que procura impacto cultural e social para lá dos dias de concertos.Bons Sons e a confiança como cartazEm Cem Soldos, Tomar, o Bons Sons prepara mais uma edição fiel a um modelo singular no panorama nacional, que decorre de 6 a 9 de agosto de 2026. Os bilhetes já se encontram à venda, apesar de o cartaz ainda não ter sido anunciado, uma decisão que, longe de causar estranheza, confirma a relação de confiança entre o festival e o seu público. “A organização anuncia o cartaz só em março ou abril, mas as duas primeiras fases de venda de bilhetes esgotam porque as pessoas confiam bastante”, explica uma fonte próxima da organização. O festival aposta deliberadamente na experiência comunitária da aldeia, na proximidade entre artistas e público e numa programação fiel à música portuguesa..Para já, sabe-se apenas que Líquen, vencedora do Festival Termómetro, integra o cartaz, mantendo a tradição de dar palco a novos talentos nacionais. “As pessoas já sabem ao que vão”, resume a organização, num festival onde a dimensão cultural e social se sobrepõe a tudo o resto.Longe dos grandes cartazesO Festival Músicas do Mundo, que vai acontecer em Sines entre 17 e 25 de julho de 2026, tem sido um dos eventos musicais mais diversificados, com bandas que vêm do Japão ao Senegal, sem esquecer a música portuguesa. Ainda não tem cartaz, mas o caráter eclético está anunciado.Fora de qualquer programa, por agora, está o Sudoeste, que não aconteceu em 2025 e não há previsão de que decorra em 2026. O DN contactou a organização do festival, a Música no Coração, que não respondeu ao pedido de esclarecimento.