A história do colonialismo europeu está longe de ser um assunto consensual e canónico. É mesmo uma história que, regularmente, renasce em novas formas narrativas geradas por memórias plurais, por vezes contraditórias. Daí o valor político e simbólico do filme Dahomey, da francesa Mati Diop, distinguido com o Urso de Ouro da 74ª edição do Festival de Berlim (realizada em fevereiro), hoje estreado no circuito comercial português.Classificado como um documentário, Dahomey está longe de satisfazer as regras convencionais que associamos ao género. Porque usa matérias típicas de uma ficção? Sim, sem dúvida. Ainda assim, seria redutor considerar que se trata apenas de acumular elementos díspares para evocar a vida de algumas obras de arte do antigo Reino do Daomé, ora “documentando”, ora “ficcionando” as respetivas memórias. Se há lição pedagógica, eminentemente cinéfila, a extrair do trabalho de Mati Diop, ela envolve uma dinâmica muito particular: a ficção é também (ou pode ser) um instrumento certeiro para construir uma relação documental com o passado..Que passado é esse? As suas raízes estão no lendário Reino do Daomé, na África Ocidental, transformado em protetorado francês em 1894, atualmente a República do Benim. O filme conta as histórias de 26 obras de arte do Daomé, apropriadas pelos franceses no final do século XIX e, finalmente, devolvidas ao Benim em 2021 - seja como for, calcula-se que o número total de peças “desviadas” para os museus franceses ronde os 7000.Mati Diop começa por descrever o labor daqueles que têm por missão preparar as referidas peças, expostas no Museu do Quai Branly - Jacques Chirac, em Paris. É uma tarefa delicada e rigorosa, primeiro retirando-as dos respetivos expositores, depois embalando-as em enormes caixotes que devem possuir todos os requisitos necessários para evitar danos durante a viagem até ao Benim..Algo muda quando a voz off que começamos a ouvir não é a lengalenga “descritiva” de uma vulgar abordagem televisiva, mas sim o testemunho de… uma das estátuas: num curioso golpe formal, genuinamente cinematográfico, Mati Diop elege como narrador do seu filme o Rei Ghézo (ou Guézo) que dirigiu os destinos do Daomé entre 1818 e 1859. A sua voz densa e distante, dir-se-ia vinda realmente de “outro mundo”, vai-nos expondo a angústia de quem passou a ser identificado apenas como o “nº 26” da lista de obras a devolver ao Benim - di-lo, aliás, utilizando a língua Fon que continua a ter uma presença essencial na sociedade do Benim (ainda que o francês seja a língua oficial do país)..História & arte.Tudo isto desemboca num capítulo que podemos classificar de reportagem, registado na Universidade de Abomey-Calavi. De forma simples e eficaz, Mati Diop dá a ver momentos de debates entre estudantes, discutindo as repercussões culturais e políticas da devolução das peças de arte do Daomé ao Benim.Ainda que de modo breve (Dahomey é, aliás, um filme de 68 minutos), tal complemento informativo é tanto mais significativo quanto nos distancia da facilidade televisiva que consiste em reduzir a história coletiva a um confronto obrigatório entre um passado “demoníaco” e um futuro “redentor” - observe-se, entre nós, como muitas formas de celebração mediática das conquistas democráticas tendem a passar aos mais jovens a ideia (?) segundo a qual antes de 1974 apenas existiu um buraco negro habitado por gente sem vida. Com Dahomey, a meu ver de modo mais interessante do que acontecia na sua ficção consagrada em Cannes (Atlantique, 2019), Mati Diop consegue construir um testemunho que nos ajuda a lidar com a complexidade da história, o povo e as suas representações artísticas.