Ao nascer do dia, no Pico Dourado, a Estátua de Samantabhadra das Dez Direções ergue-se acima das nuvens.
Ao nascer do dia, no Pico Dourado, a Estátua de Samantabhadra das Dez Direções ergue-se acima das nuvens.D.R. / Macao Daily News

Da beleza da natureza ao espírito do budismo: uma viagem pelo Monte Emei

O Monte Emei, situado no sudoeste da Bacia de Sichuan, na China, é Património Mundial Cultural e Natural. O mar de nuvens, a tradição budista e as lendárias artes marciais de Emei fazem desta montanha um destino único, onde natureza e espiritualidade se conjugam.
Publicado a

Para quem deseja descobrir a China para além das grandes metrópoles, o Monte Emei é, sem dúvida, um destino imperdível. Localizada na extremidade sudoeste da Bacia de Sichuan, esta majestosa montanha conquista os visitantes não só pelas paisagens naturais de cortar a respiração, mas também pela profunda tradição budista que aqui floresceu ao longo de mais de mil anos.

Em 1996, a UNESCO inscreveu oficialmente o conjunto “Monte Emei - Grande Buda de Leshan” na Lista do Património Mundial, classificando-o como Património Mundial Cultural e Natural. Este reconhecimento sublinha o seu valor excecional enquanto lugar onde a riqueza dos ecossistemas naturais se entrelaça harmoniosamente com a história e a civilização humanas.

Paisagens de tirar o fôlego

Situado na planície de Sichuan, a cordilheira do Monte Emei estende-se por cerca de 23km de norte a sul. Wanfoding, o seu ponto mais alto, atinge 3099 metros de altitude, e aos 3077 metros situa-se Jinding (o Pico Dourado), destino popular entre os visitantes.

Graças à grande variação de altitude, forma-se aqui um sistema climático vertical muitas vezes descrito como “uma montanha com quatro estações” ou “a cada dez quilómetros, um céu diferente”, fenómeno que favorece uma biodiversidade extraordinária, desde florestas subtropicais de folha larga até prados alpinos de grande altitude.

A davídia, uma das espécies emblemáticas da biodiversidade  do Monte Emei, é uma planta rara, protegida a nível nacional.  As suas brácteas brancas lembram pombas em voo, razão pela qual  é conhecida como árvore-dos-pombos.
A davídia, uma das espécies emblemáticas da biodiversidade do Monte Emei, é uma planta rara, protegida a nível nacional. As suas brácteas brancas lembram pombas em voo, razão pela qual é conhecida como árvore-dos-pombos.D.R. / Macao Daily News

A floresta cobre mais de 87% da montanha e alberga mais de 3700 espécies de plantas, entre as quais “fósseis vivos” como a árvore-dos-pombos e fetos arbóreos. Espécies endémicas, como o abeto do Monte Emei, são verdadeiros testemunhos vivos da evolução biológica.

A fauna é igualmente diversificada, com mais de 2300 espécies animais registadas, incluindo espécies raras como o panda-vermelho e o macaco tibetano.

Santuário budista

Se a paisagem natural é o corpo do Monte Emei, a sua profunda tradição budista é, sem dúvida, a sua alma. Desde a construção do primeiro templo budista, no século I d.C., o Monte Emei foi-se afirmando como um centro religioso de referência, sendo hoje reconhecido como uma das Quatro Montanhas Sagradas do Budismo na China.

A presença do budismo sente-se em toda a montanha, envolvendo os visitantes numa atmosfera de arte religiosa, serenidade e contemplação. Atualmente, existem cerca de 20 templos principais, entre os quais se destacam o Templo Baoguo, o Templo Wannian, o Pavilhão Qingyin e o Templo Huazang.

No topo do Pico Dourado ergue-se um dos símbolos mais icónicos do Monte Emei: a Estátua de Samantabhadra das Dez Direções, uma impressionante escultura em bronze dourado.

Nestes templos conservam-se numerosos tesouros históricos e artísticos, como a estátua em bronze do bodisatva Samantabhadra montado num elefante, datada da Dinastia Song do Norte, e antigos manuscritos budistas em folhas de palmeira - autênticas relíquias da arte e da espiritualidade budistas.

No topo do Pico Dourado ergue-se um dos símbolos mais icónicos do Monte Emei: a Estátua de Samantabhadra das Dez Direções. Concluída em 2006, esta impressionante escultura em bronze dourado, com os grandes votos do bodisatva gravados na base, tem 48m de altura e pesa cerca de 660 toneladas. Envolta por um mar de nuvens e pela luz suave do amanhecer, a estátua oferece um cenário de rara solenidade e grande impacto visual.

Berço das artes marciais de Emei

O Monte Emei é considerado o berço das artes marciais de Emei, sistema ancestral que integra elementos do budismo, taoismo e confucionismo, valorizando o equilíbrio entre movimento e quietude, bem como suavidade e força.

Segundo a tradição, já durante o período das Primaveras e Outonos e dos Reinos Combatentes (770 a.C. - 476 a.C.), havia guerreiros que viviam em retiro nestas montanhas. Conta-se que um praticante chamado Situ Xuankong, após anos a observar a agilidade e os movimentos dos macacos da região, desenvolveu técnicas de combate que combinavam ataque e defesa.

Jovem artista marcial do grupo feminino da escola Emei demonstrando técnicas de kung-fu.
Jovem artista marcial do grupo feminino da escola Emei demonstrando técnicas de kung-fu.D.R. / Macao Daily News

Com o passar do tempo, as artes marciais foram-se associando à prática meditativa, dando origem ao conceito de “união entre Zen e artes marciais”. Durante as dinastias Ming e Qing (1368-1912), o estilo Emei ganhou grande prestígio e afirmou-se como uma das principais tradições marciais, a par das escolas Shaolin e Wudang.

Em 2008, as artes marciais de Emei foram inscritas na Lista do Património Cultural Imaterial da China. Hoje, os visitantes podem observar e aprender movimentos básicos em escolas de artes marciais próximas do Templo Baoguo ou em centros culturais especializados e, assim, descobrir a filosofia e os princípios de bem-estar que estas práticas encerram.

Uma viagem repleta de experiências únicas

Seja a percorrer trilhos entre florestas e cascatas, a visitar templos ancestrais, a contemplar o nascer do sol sobre o mar de nuvens no Pico Dourado, ou a experimentar artes marciais e práticas de meditação, o Monte Emei oferece uma experiência profundamente imersiva.

Aqui, os visitantes encontram inspiração na grandiosidade da natureza, serenidade na cultura milenar e uma rara oportunidade de diálogo interior, numa viagem que une natureza, história e o próprio espírito humano.

INICIATIVA DO MACAO DAILY NEWS

Diário de Notícias
www.dn.pt