“Como é possível que há 2000 anos já se falasse dos problemas que temos hoje?”
FOTO: Paulo Spranger

“Como é possível que há 2000 anos já se falasse dos problemas que temos hoje?”

Diretor do Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida, Jesús Cimarro esteve em Lisboa, no Teatro Romano, para apresentar programa da 72.ª edição, que vai de 3 de julho a 30 de agosto.
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O primeiro espetáculo este ano, já esta sexta-feira, é uma dança intitulada Espártaco. É a demonstração da originalidade e da constante renovação do Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida?

Sim, tentamos oferecer propostas diferentes a cada ano, propostas que unem todas as artes performativas. Não é só teatro, pois este ano há dança, bailado clássico neste caso, flamenco com Eletra, um toque profundo e comovente, ou seja, tragédia e flamenco, e dança contemporânea com teatro, que poderia ser descrita assim a peça Bacanal. E também há um musical. As Nove Musas são um musical. Todos de temática greco-romana. E depois, claro, há as comédias e as tragédias. Teremos Fedra, Antígona, Medeia - todas tragédias de sempre. Tentamos oferecer uma variedade de produções a cada ano para atrair não só o público fiel, mas também um público mais vasto. Tanto no Teatro Romano como nos outros espaços, como o Teatro María Luisa.

Quando se fala de peças greco-romanas, além das de autores da própria época, como Sófocles ou Eurípides, pode pensar-se na inspiradas nessa temática, como Timão de Atenas, de William Shakespeare, mas também pode ser, por exemplo, Bacanal, de um autor espanhol contemporâneo, Juan Carlos Rubio. Por outras palavras, pode-se assistir a interpretações de peças com dois mil anos ou mais, com quatro séculos, como as de Shakespeare, mas também contemporâneas, até criadas para este Festival?

É claro que, acima de tudo, tentamos que os autores contemporâneos escrevam sobre temas de há dois mil anos, porque isso dá-nos uma perspetiva atual sobre estas histórias, que são histórias e temas incrivelmente relevantes também hoje. Guerra, paz, ciúme, dinheiro - todos estes são temas que existem há séculos e séculos. E, neste caso, o que fazemos é abordá-los de forma trágica através de tragédias e de forma cómica através de comédias.

A população de Mérida há muito que se converteu ao Festival, e também há pessoas que vêm de outras partes de Espanha todos os anos para o desfrutar, e mesmo um público internacional fiel. Será que o público português ainda não se rendeu, apesar da proximidade da antiga capital da Lusitânia Romana?

Sim, queremos mais público português e é por isso que viemos a Lisboa, uma vez mais, para apresentar o programa desta 72.ª edição. E fazemos também questão de levar um espetáculo português a Mérida, A Paz, no âmbito da programação do festival, ao Teatro María Luisa, porque temos a plena consciência de que quanto mais alargado for o público, melhor. É por isso que existem espetáculos para um público muito diversificado, incluindo um público internacional, para que todos possam assistir a estas peças, para que não se limite apenas ao teatro tradicional, mas que existam opções muito mais vastas.

É diretor do Festival há 15 anos. Como mudou a sua visão sobre a Grécia Antiga e o Império Romano? A diversidade de temas é lição permanente de História?

Bem, dirigir o Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida durante estes 15 anos deu-me uma perspetiva diferente, mas já antes trabalhava em Mérida, trazendo espetáculos como produtor desde o final da década de 1980. Mas, claro, dirigir e propor produções teatrais a outros encenadores, dramaturgos ou atores é uma visão diferente de as produzir, o que também faço, mas o que faço é dar a muitas companhias uma ampla oportunidade de apresentarem o seu trabalho. Procuro garantir que cada edição apresenta propostas inovadoras e diferentes, com novos elencos, atores e atrizes que nunca antes se apresentaram em Mérida. Todos os anos, empenho-me em oferecer a possibilidade de elencos diversificados.

Uma última pergunta, que tem que ver com o verão extremenho. A Extremadura é muito quente em julho e agosto. Os espetáculos iniciam-se às 22h45, quando a temperatura baixa e o ambiente fica mais agradável, mas as representações serem à noite também faz parte da magia do Festival, potenciando a monumentalidade do belíssimo teatro romano construído na época do imperador Augusto, há 2000 anos?

É claro que entrar no Teatro Romano de Mérida à noite, especialmente em dias de lua cheia, é simplesmente maravilhoso. Contemplar aquele monumento, aquele cenário incomparável que é o Teatro Romano, e desfrutar de um espetáculo numa noite de verão, sozinho ou acompanhado, e ouvir as histórias que nos contam - histórias que surgiram há 2000 anos e parecem tão próximas de nós naqueles momentos - faz-nos pensar: como é possível que há 2000 anos já se falasse dos mesmos problemas que enfrentamos hoje?

“Como é possível que há 2000 anos já se falasse dos problemas que temos hoje?”
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