“Como é possível que há 2000 anos já se falasse dos problemas que temos hoje?”
O primeiro espetáculo este ano, já esta sexta-feira, é uma dança intitulada Espártaco. É a demonstração da originalidade e da constante renovação do Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida?
Sim, tentamos oferecer propostas diferentes a cada ano, propostas que unem todas as artes performativas. Não é só teatro, pois este ano há dança, bailado clássico neste caso, flamenco com Eletra, um toque profundo e comovente, ou seja, tragédia e flamenco, e dança contemporânea com teatro, que poderia ser descrita assim a peça Bacanal. E também há um musical. As Nove Musas são um musical. Todos de temática greco-romana. E depois, claro, há as comédias e as tragédias. Teremos Fedra, Antígona, Medeia - todas tragédias de sempre. Tentamos oferecer uma variedade de produções a cada ano para atrair não só o público fiel, mas também um público mais vasto. Tanto no Teatro Romano como nos outros espaços, como o Teatro María Luisa.
Quando se fala de peças greco-romanas, além das de autores da própria época, como Sófocles ou Eurípides, pode pensar-se na inspiradas nessa temática, como Timão de Atenas, de William Shakespeare, mas também pode ser, por exemplo, Bacanal, de um autor espanhol contemporâneo, Juan Carlos Rubio. Por outras palavras, pode-se assistir a interpretações de peças com dois mil anos ou mais, com quatro séculos, como as de Shakespeare, mas também contemporâneas, até criadas para este Festival?
É claro que, acima de tudo, tentamos que os autores contemporâneos escrevam sobre temas de há dois mil anos, porque isso dá-nos uma perspetiva atual sobre estas histórias, que são histórias e temas incrivelmente relevantes também hoje. Guerra, paz, ciúme, dinheiro - todos estes são temas que existem há séculos e séculos. E, neste caso, o que fazemos é abordá-los de forma trágica através de tragédias e de forma cómica através de comédias.
A população de Mérida há muito que se converteu ao Festival, e também há pessoas que vêm de outras partes de Espanha todos os anos para o desfrutar, e mesmo um público internacional fiel. Será que o público português ainda não se rendeu, apesar da proximidade da antiga capital da Lusitânia Romana?
Sim, queremos mais público português e é por isso que viemos a Lisboa, uma vez mais, para apresentar o programa desta 72.ª edição. E fazemos também questão de levar um espetáculo português a Mérida, A Paz, no âmbito da programação do festival, ao Teatro María Luisa, porque temos a plena consciência de que quanto mais alargado for o público, melhor. É por isso que existem espetáculos para um público muito diversificado, incluindo um público internacional, para que todos possam assistir a estas peças, para que não se limite apenas ao teatro tradicional, mas que existam opções muito mais vastas.
É diretor do Festival há 15 anos. Como mudou a sua visão sobre a Grécia Antiga e o Império Romano? A diversidade de temas é lição permanente de História?
Bem, dirigir o Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida durante estes 15 anos deu-me uma perspetiva diferente, mas já antes trabalhava em Mérida, trazendo espetáculos como produtor desde o final da década de 1980. Mas, claro, dirigir e propor produções teatrais a outros encenadores, dramaturgos ou atores é uma visão diferente de as produzir, o que também faço, mas o que faço é dar a muitas companhias uma ampla oportunidade de apresentarem o seu trabalho. Procuro garantir que cada edição apresenta propostas inovadoras e diferentes, com novos elencos, atores e atrizes que nunca antes se apresentaram em Mérida. Todos os anos, empenho-me em oferecer a possibilidade de elencos diversificados.
Uma última pergunta, que tem que ver com o verão extremenho. A Extremadura é muito quente em julho e agosto. Os espetáculos iniciam-se às 22h45, quando a temperatura baixa e o ambiente fica mais agradável, mas as representações serem à noite também faz parte da magia do Festival, potenciando a monumentalidade do belíssimo teatro romano construído na época do imperador Augusto, há 2000 anos?
É claro que entrar no Teatro Romano de Mérida à noite, especialmente em dias de lua cheia, é simplesmente maravilhoso. Contemplar aquele monumento, aquele cenário incomparável que é o Teatro Romano, e desfrutar de um espetáculo numa noite de verão, sozinho ou acompanhado, e ouvir as histórias que nos contam - histórias que surgiram há 2000 anos e parecem tão próximas de nós naqueles momentos - faz-nos pensar: como é possível que há 2000 anos já se falasse dos mesmos problemas que enfrentamos hoje?
