O São Jorge vai ter uma mostra de cinema arqueológico entre os dias 18 e 21. Esta MoCA é uma iniciativa do Museu de Lisboa - Teatro Romano, equipamento que pertence à Egeac Lisboa Cultura. Essencialmente documentários?Há de tudo um pouco. Esta é a primeira mostra de cinema arqueológico que se realiza em Portugal. E, portanto, sentimos necessidade de mostrar, sobretudo ao grande público, o muito que se faz em Portugal sobre esta temática e o muito que se faz muito bem. E para esta primeira mostra resolvemos não ter apenas filmes, curtas, médias, longas, mas também mais coisas além disso. Por exemplo, vamos ter oficinas que vão decorrer da parte da manhã nos quatro dias, para escolas, e para público em geral. Oficinas de arqueologia com pequenas curtas que ilustram exatamente alguns aspetos arqueológicos muito acessíveis ao público mais jovem. Mas vamos ter igualmente mesas redondas que se focarão sobre vários aspetos, que são muitos, da componente arqueológica. A arqueologia está presente cada vez mais. Deveria estar ainda mais presente porque é muito, muito necessária. Porque é a nossa própria identidade. Apenas podemos escrever sobre o nosso passado, ou através da cultura material, que sobrevive por baixo dos nossos pés, ou através de documentos históricos.Quer destacar algum dos documentários?Há um filme que só não tem agora a sua estreia porque foi já apresentado em Idanha-a-Velha. É um dos mais importantes que temos, porque ainda não foi visto por muita gente, e é sobre essa pequena aldeia da Beira Baixa, uma pérola escondida. É um filme feito pelo Rui Pedro Lamy. E chama-se, exatamente, Idanha - Aldeia histórica, Cidade antiga. É uma aldeia hoje, mas foi uma cidade romana importante. Há também filmes do Raul Losada, que tem feito imensos documentários e filmes dedicados à arqueologia em Lisboa, por exemplo, ou à Villa dos Centauros, em Alcácer do Sal. Portanto, há, de norte a sul do país, documentários sobre arqueologia e uma forma apelativa de falar sobre esta ciência.Fala com paixão da arqueologia. Quando descobriu a sua vocação?Eu quis ser arqueóloga desde os 13 anos, e para mim não houve grande dúvida, porque foi numas aulas sobre história em que se falava dos nossos antepassados, australopithecus e pithecanthropus. Lembro-me perfeitamente. Quer dizer, as aulas nem sequer eram muito interessantes, mas aquilo ficou, e a partir daí não tive mais dúvida.Os romanos, e estamos no Teatro Romano de Lisboa, chegaram no século III a. C. à Península Ibérica. E sabemos que Mérida, em Espanha, tem um conjunto patrimonial extraordinário, com um teatro romano com 2000 anos. Era a capital da Lusitânia romana. Em Portugal, pensamos sempre em Conímbriga, e no templo de Évora. Mas todo o país tem vestígios romanos, sendo que muitos estão ainda por estudar?Todo Portugal tem vestígios romanos. Mas podem não estar à vista, e não ser bem conhecidos. E é exatamente neste aspeto que se pretende que esta MoCA, esta Mostra de Cinema Arqueológico, dê contributos. É tornar visíveis vestígios importantíssimos que não são compreendidos pelo comum das pessoas. Porque não são tão espetaculares e não são percebidos. Espanha tem vestígios mais bem conservados porque a Espanha é muito maior. Tem cinco vezes o tamanho de Portugal, portanto tem mais probabilidades de ter bem conservados esses vestígios e também porque muitas dessas estruturas que permaneceram estão em locais que não tiveram praticamente ocupação posterior. Por exemplo, nós não podemos comparar o Teatro Romano de Lisboa com o Teatro Romano de Mérida porque Mérida começou a ser escavada em 1930. Era um pequeno povoado. Claro que o Teatro Romano de Lisboa está muito destruído em comparação porque sempre teve a capital do país no próprio local onde existiu a cidade romana. Teve vários terremotos e vai-se reaproveitando os materiais. Portanto, nem são tanto os terramotos, mas sobretudo a reconstrução que se faz a seguir que destrói tudo aquilo que existia. Portanto, a terraplanagem, a abertura de novas ruas, como foi o caso aqui da Rua de São Mamede. E não foi só o de 1755. É sobretudo a reconstrução das cidades após estes grandes cataclismos que leva tudo à frente. Fazem tábua rasa daquilo que existia. E, portanto, nós temos que agarrar nestes vestígios que se conservam e lê-los de forma a dar-lhes o seu verdadeiro significado e a sua real importância.Vamos falar de Felicitas Olisipo, que é o nome romano de Lisboa. O monumento romano que está mais bem conservado e estudado é, de facto, o Teatro Romano. Que outros há?O Teatro Romano está cerca de um terço escavado, um pouco mais, mas pelas muitas sondagens que nós temos feito aqui à volta, percebemos que as estruturas permanecem, mais ou menos destruídas, mas permanecem por baixo dos vários edifícios. Depois, as Termas dos Cássios, que estão um pouco mais abaixo, também se encontram relativamente bem conservadas. Com muros romanos conservados com cerca de oito metros de altura, podemos dizer que são estruturas que estão bem conservadas. É claro que isto são estruturas do local que foi escavado, mas estas continuam por baixo da rua atual, por baixo de outro palácio que continua em funcionamento, que é a atual sede da CPLP. Portanto, não sabemos o estado em que essas estruturas se encontram. O Criptopórtico Romano da Rua da Prata, que continua ainda hoje a servir de alicerce a quase um quarteirão ou mais de edifícios pombalinos, está muitíssimo bem conservado, com uma estrutura labiríntica de várias galerias, a várias alturas, que estão impecavelmente conservadas. O Circo Romano foi identificado a 7 metros no Rossio, e é um edifício romano enormíssimo, que deveria ter, e deve ter, porque ele continua lá em baixo, cerca de 380 metros de comprimento por quase 90 de largura. Portanto, há muitas estruturas, há muitos edifícios que se vão conhecendo, mas aquilo que nós hoje podemos dizer é que não se conhece mais porque estas estruturas romanas estão a níveis muito profundos e só quando há escavações de grande impacto é que se atingem estes níveis. Por exemplo, agora na construção dos canais de drenagem da cidade de Lisboa foram encontradas uma série enorme de estruturas romanas, algumas a 5 metros, 6 metros de profundidade, que se não fossem estas obras de infraestruturas não se iriam nunca encontrar. Antigamente nós pensávamos até que restava muito pouco da cidade romana, hoje em dia percebemos que existe muito da cidade romana. Há níveis a grande profundidade em que não suspeitávamos que esses vestígios se encontrassem.Lisboa é uma cidade muito antiga. Já era importante durante o Império Romano, sendo uma das principais cidades do Ocidente ibérico?Sim, é uma cidade muito importante porque, aliás, neste sítio, olhando o Tejo, nós conseguimos perceber a importância da cidade. Uma cidade portuária, portanto, e na época romana isso era decisivo. O principal comércio fazia-se sempre por via marítima ou fluvial. Tinha este porto muito aprazível, onde as marés quase não chegavam. Com um mar interior que depois permitia a distribuição dos produtos que aqui chegavam para o interior do território, através do rio Tejo. E também permitia, da mesma forma, a exportação daquilo que nós produzíamos, que era muito, para todo o Império. A este nível há que sublinhar a importância, por exemplo, de Troia, junto a Setúbal, que foi uma cidade feita de propósito para a produção de transformação de pescado e para a produção de garum, produtos que também foram produzidos pela própria cidade de Lisboa. Basta dizer que Troia é o maior centro industrial de garum e de transformação de pescado de todo o Império. Estamos a falar de uma iguaria romana.Exatamente, que entrava em cerca de 90% do receituário romano. É quase, passe a publicidade, um caldo knorr que é colocado na comida.Já experimentou o garum?Sim, eu uso em casa. E temos aqui à venda.É mesmo repelente o cheiro?É. Mas em termos de sabor, não. Não vamos beber ou comer o garum assim. É um tempero muito salgado. Portanto, intensifica o sabor dos vários produtos que são cozinhados. Há uma empresa que o faz reproduzindo o receituário romano. É feito através da maceração, ou fermentação das vísceras de peixe, que durante cerca de três meses, juntamente com muito sal e muitas ervas aromáticas, fica ali a macerar. E, portanto, este líquido que resulta, parece que apodrece, mas não chega a apodrecer exatamente devido à grande quantidade de sal. Passa por um processo de transformação e depois este líquido, que é coado, é colocado em pouca quantidade, porque era caríssimo, nos vários cozinhados.Por falar em comida. Há um jantar romano incluído na mostra de cinema arqueológico.Exatamente. No último dia, 21, depois da apresentação do filme sobre Idanha-a-Velha, temos um jantar romano, às 20h30. E esse jantar romano vai recriar o receituário do século I. É feito por uma chef, Maria Caldeira de Sousa, que tem colaborado com o Museu de Lisboa - Teatro Romano por diversas vezes e que faz sempre a ceia das Lupercália, que é uma outra festividade que temos no Teatro Romano, por volta do dia 13, 14, 15 de fevereiro, que era a festividade romana que vai dar origem ao nosso Carnaval. Todas estas festas religiosas cristãs são, geralmente, até o próprio Natal, festividades que já existiam em época romana e que depois são reelaboradas com uma roupagem cristã, mas que continuam em termos de calendário cerimonial e a ser celebradas até aos nossos dias.Há um legado romano imenso, cultural, a começar pela língua portuguesa, que vem do latim.O Império Romano não foi o maior império de todos, mas foi o império que globalizou a civilização. O nosso conceito de cidade, os calendários, a numeração, a língua, tudo isso foram conceitos que foram propagados pelo Império Romano, que, por sua vez, já o bebera dos gregos, dos etruscos, do mundo helenístico e tudo isso, e que são propagados por todo o Império. Portanto, o conceito de mundo global ou de globalização dos anos 90 é uma coisa muito pequena ao pé deste mundo global que foi, no século I, o Império Romano.Para quem se interessa por conhecer mais Lisboa Romana, uma vinda aqui ao Teatro Romano é essencial. Há agora um festival em que vocês, no fundo, oferecem também a oportunidade de conhecer o teatro clássico.Desde 2016 que, durante o mês de julho, temos sempre teatro clássico, que é uma peça criada, montada desde o início e que é apresentada em estreia aqui no palco.É mesmo uma peça clássica ou inspirada em temas clássicos como no festival de Mérida?É sempre com textos clássicos, exceto este ano. Temos sempre assistido a peças de poetas e dramaturgos gregos ou latinos. Têm sido, por exemplo, Plauto, mas também Aristófanes, Sófocles, Eurípides, etc. Mas este ano, vamos ter uma peça criada pelo próprio encenador, que tem a designação de Mitos 1 - Acreditem em nós e que conta a história do nascimento do mundo.Quem é o dramaturgo?Claudio Hochman, um argentino que vive em Portugal há muito tempo. Foi ele quem encenou a peça Clitemnestra, no ano passado, e correu tão bem que o convidámos mais um ano, porque as pessoas depois já estão mais à vontade no próprio palco, porque não é fácil ensaiar no sítio arqueológico.Vai ser essa peça todo o mês?Todo o mês, sim, de quarta a sábado. Dura uma hora, portanto é das nove às dez da noiteE é mesmo no próprio espaço?É mesmo no próprio sítio arqueológico. O público fica no sítio do antigo palco do teatro romano, mas ao nível superior, e fica também sentado no sítio do Aditi Maximus que era uma das entradas principais, de duas, que existiam em todos os teatros romanos..Museu do Teatro Romano conta 23 séculos da vida de Lisboa ."Festival de Teatro Clássico de Mérida terá este ano duas produções portuguesas, 'Agripina' e 'Prometeu'"