Pensemos em boas memórias cinéfilas. Por exemplo: O Garoto de Charlot (Charlie Chaplin, 1921), Os 400 Golpes (François Truffaut, 1959), Boyhood: Momentos de uma Vida (Richard Linklater, 2014)... Para lá das suas muitas diferenças, que liga estes filmes? Pois bem, a capacidade de responder de forma inteligente a uma pergunta delicada, recusando o paternalismo e a demagogia com que, não poucas vezes, a televisão enfrenta tal questão. A saber: como filmar uma criança? Filho de Ninguém, uma realização do francês Safy Nebbou (a partir desta quinta-feira, 10 de setembro, nas salas), pertence, ainda que em tom menor, à galeria dos filmes citados e merece a devida atenção.O lançamento da história de Mapring (Master Sanpasiri), um menino tailandês com quatro anos, adoptado por um casal francês, envolve uma parte de mistério que importa não revelar (de modo a que o próprio espectador a ela possa aceder, o que acontece mais ou menos a meio do filme). Regista-se, aliás, a imprudência da sinopse oficial do filme que desfaz esse mistério, retirando a quem a leia o “suspense” emocional que o envolve (está reproduzida no site da distribuidora portuguesa do filme, Outsider Films, mas provém da origem, isto é, do site da Sony Pictures France).Nada disso diminui o valor do filme. Digamos apenas que a acção acontece, no essencial, na Tailândia, começando com a chegada a Bangkok de Mapring e do seu pai adoptivo, Thomas (Romain Duris, actor capaz de lidar com personagens que, sendo “banais” no seu estatuto, escapam a clichés sociais e afectivos). Por um impulso insólito (de motivação misteriosa, justamente), Thomas está empenhado em encontrar a mãe biológica de Mapring — na prática, além de violar a legislação aplicável à situação da criança (que, se for essa a sua vontade, só deverá conhecer a família biológica quando atingir a maioridade), o seu plano implica uma viagem acidentada até uma aldeia de acesso problemático... .Uma maneira, talvez, sugestiva de caracterizar a respiração dramática de Filho de Ninguém poderá ter em conta a recusa dos estereótipos que, com frequência, marcam o tratamento de países asiáticos por produções europeias. Que estereótipos? Em primeiro lugar, a redução de todas as cenas a celebrações superficiais, mais ou menos exóticas; depois, o tratamento das paisagens como meros cenários turísticos. Não faltam elementos exóticos (para quem chega, entenda-se), nem paisagens deslumbrantes, mas nada disso é tratado como um fim em si mesmo — o envolvimento emocional do filme decorre, de forma simples e eficaz, das singularidades das respectivas personagens, incluindo o guia (Vithaya Pansringarm) que conduz Mapring e Thomas ao longo da sua tão particular expedição.Daí um jogo de olhares que, em termos cinematográficos, adquire uma delicada vibração — aliás, sendo uma questão de quem olha o quê, trata-se também de uma peculiar teia de linguagem (ou linguagens). Isto porque, para Thomas, a descoberta daquele mundo é tanto mais ambivalente quanto não domina a língua local; ao mesmo tempo, Mapring, há pouco tempo a viver em França, possui a memória suficiente para dialogar, sem problemas, em tailandês.Conhecíamos o trabalho de Safy Nebbou (nascido em Bayonne, em 1968) através de um filme curioso e desconcertante, Clara e Claire (2019), centrado numa notável interpretação de Juliette Binoche — uma fábula moderna sobre uma mulher, professora, que inventa um perfil falso no Facebook para consumar uma estranha “caçada” amorosa... Enfim, perante Filho de Ninguém, faz sentido dizer que Nebbou é um aplicado experimentador de registos narrativos muito variados..'Pelo Adam". Como filmar uma criança?