"Com Eça, nunca tive, não tenho e nunca terei desilusões. É o homem da minha vida"

Numa sucessão de perguntas e respostas - quase telegráficas -, Maria Filomena Mónica desvenda mais alguns segredos sobre o escritor Eça de Queiroz. Escolhe Ramalho Ortigão para fazer o contraponto, num relato que se lê de uma vez só. Outras novidades: John le Carré e Juan Gabriel Vásquez.

O interesse de Maria Filomena Mónica em Eça de Queiroz mantém-se e revela agora o escritor em mais uma faceta que ajuda a compreender a sua personalidade. A "vítima" escolhida para retirar mais uma camada da cebola que ainda envolve o autor de Os Maias é o seu amigo Ramalho Ortigão, figura que não sai bem deste retrato biográfico em que ambos são vistos no reflexo de um único espelho. Se o que os separa pode ser lido ao longo das quase trezentas páginas de Uma Estranha Amizade: Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, o que os une vai surgindo em episódios egoístas de cada um deles; o primeiro a precisar de mover influências e de ajuda financeira através do amigo que fica em Portugal, o segundo a necessitar do empurrão para se tornar importante na cena nacional.

Através da colaboração inicial a duas mãos em o Mistério da Estrada de Sintra e de As Farpas, a investigadora vai criando um edifício biográfico que torna mais transparente a relação entre os dois, culminando numa Conclusão em que recorre a Montaigne para tentar explicar uma longa parceria, que termina com a morte de Eça antes do tempo e o descaso de Ramalho perante os momentos finais daquele, bem como do legado do amigo.

A constante presença da cronologia de acontecimentos históricos, que se entrelaça com os percursos pessoais de cada um deles, cumpre os objetivos de se mostrar como a circunstância molda as vidas, enquanto a obra pode ultrapassar o momento para ir mais além e renovar-se num registo inspirado. Uma galeria onde surge o "indolente duque de Loulé", as "conferências do Casino", a "Monarquia Constitucional", o "Ultimato Inglês", entre outros marcos daqueles tempos, revividos por uma narrativa que vai além da reconstituição biográfica, assemelhando-se a um romance onde o narrador não permanece acrítico e aceita que ambos tenham biografia suficiente para um relato sôfrego que serve aos interesses do leitor exigente e a mais um esclarecimento literário.

O título "Uma estranha amizade" faz imediatamente suspeitar do caminho deste livro. Foi intencional?

Foi. A ideia de escrever sobre este tema só recentemente me atraiu, uma vez que até agora só Eça me interessava.

Ramalho é o único convidado de Eça no casamento com Emília Resende. Isso também justifica o seu título Uma Estranha Amizade?

Tendo em conta a forma como decorreu a cerimónia, convém não dar ao facto demasiada importância.

Enquanto mulher e escritora, irritou-a o pensamento de Ramalho Ortigão de que "a mulher desaparece ordinariamente quando se põe a escrever"?

Não, porque estava a par do que, na altura, se passava noutros países. Se tivermos em conta a forma como as escritoras eram tratadas em França e em Inglaterra a posição de Ramalho é compreensível.

A opinião sobre as mulheres nas trocas de cartas entre Eça e Ramalho nem sempre é dignificante. A correspondência particular deve ser revelada a posteriori ou é uma devassa que não deve chegar a público?

É um assunto que tem vindo a ser discutido sobretudo nos países anglo-saxónicos. Segundo os juristas que consultei, aquando da publicação do meu Bilhete de Identidade, foi-me dito que legalmente as cartas pertencem não a quem as escreve mas ao destinatário.

Ramalho confessa ter sido educado "até aos sete anos como um pequeno saloio". Esse início reflete-se no homem que ficou para a história?

Só até certo ponto. Foi Freud quem divulgou a ideia de que a infância determina tudo: esta fase da vida é importante, mas não decisiva.

Creio que descobriu um Ramalho que lhe era desconhecido. O que foi mais inesperado?

O seu provincianismo, o seu desprezo pelo sistema da democracia representativa e a sua inveja perante alguém, Eça, que lhe era intelectualmente superior.

O mesmo não aconteceu com Eça ou houve alguma desilusão também?

Com Eça, nunca tive, não tenho e nunca terei desilusões. Eça é o homem da minha vida.

Considera que as diferenças entre ambos são notórias, mas foi uma amizade com pés para andar. Quem se beneficiou mais na relação?

É difícil avaliar, mas creio que foi Ramalho. Isto, apesar de Eça o ter frequentemente usado como se ele fosse seu amanuense.

"Ramalho estava consciente da superioridade de Eça, um sentimento que veio ao de cima após a morte deste, como se viu aquando da inauguração da estátua de Eça em 1903."

Até que ponto As Farpas são à época o melhor retrato do Portugal ou não passam de uma tentativa de ambos os autores emergirem na cena intelectual?

Não me interessa o motivo que os levou a escrever As Farpas. O importante é reconhecermos a qualidade do retrato satírico do país.

O alvo de As Farpas eram, principalmente, os políticos contemporâneos de Eça e Ramalho. O "estado da nação" atual ganharia com alguém como eles que fosse implacável com a classe dirigente que hoje nos governa?

Claro que, se existisse hoje alguém com o talento deles, o país ganharia. Mas isto não basta: seria necessário um clima político que permitisse a independência dos jornalistas, o que hoje não sucede.

Eça aconselha Ramalho a fazer de As Farpas - as escritas apenas por si - a "não se descuidar de ser alegre". A ironia seria a melhor forma de consertar os males da sociedade portuguesa?

A ironia tem e sempre teve uma componente purificadora do status quo. Nesse sentido, é evidente que ajudaria a reformar Portugal.

Quando reproduz o pensamento de Eça de que "foram As Farpas a fazer Ramalho" considera que mesmo assim não lhe deram a estatura suficiente?

Não terão dado a Ramalho a importância que ele se atribuía, mas estes opúsculos salvaram-no do paroquialismo romântico dos seus primeiros escritos.

Refere a opinião de Eça "que advoga a vendas das colónias". Foi uma surpresa para si esta posição?

Educada deste a infância até à Faculdade com base nos ideais salazaristas no que respeitava as colónias, quando pela primeira vez li esta frase chocou-me. À medida que estudava o século XIX, verifiquei contudo que Eça não era o único intelectual a defender tal solução.

Outra opinião inesperada de Eça era ser a favor de uma invasão espanhola. Porque a tem?

Não é verdade: Eça não era um iberista, como o era, por exemplo, Antero de Quental. O que aconteceu foi ter ele imaginado uma ideia louca: a de comunicar ao poder que tencionava escrever sobre uma suposta invasão espanhola. Isto, porque, como explicava a Ramalho (o amigo que pretendia que contactasse o Ministro dos Negócios Estrangeiros), tal conto evidenciaria a falta de patriotismo do povo e das elites. "A Batalha do Caia" - como designou o conto que jamais escreveria - destinava-se a fazer chantagem sobre o Ministro. Ramalho nada fez e, sempre o mestre-escola, aproveitou a ocasião para lhe "ralhar".

Foi fácil para ambos aceitarem os percursos de cada um após o "exílio" estrangeiro de Eça ou a ambos isso dava jeito?

A escolha de Eça pela carreira diplomática ofereceu-lhe o que desejava: tempo para escrever em paz e um rendimento certo. Isto não terá afetado Ramalho nem pela positiva nem pela negativa.

Ramalho e Eça terão sido os primeiros escritores de policiais portugueses com o Mistério da Estrada de Sintra ou foi apenas o registo mais fácil no momento?

Não conheço suficientemente a literatura policial da época, mas sei que este livro teve um enorme êxito.

Ramalho escreveu sobre O Crime do Padre Amaro que era um romance "adiante do seu tempo". Concorda?

Esta frase tem de ser vista em contexto. Dois anos antes, Ramalho dissera a Batalha Reis, o diretor de A Revista Ocidental, que jamais publicaria os opúsculos de Eça. A frase em questão é de uma hipocrisia inacreditável.

Pode dizer-se que tudo o Eça que foi escrevendo conflui para Os Maias?

Em parte, é verdade, mas só em parte. A sua longa estadia em Inglaterra levou-o a apreciar a Literatura deste país até então soterrada sobre a avalanche de livros franceses. Os Maias é uma obra diferente de tudo o que até então se publicara em Portugal.

Recorda que Eça afirmou "não tenho paciência para ser agitador". Sempre preferiu exercer a crítica/contestação através da literatura?

Eça não apreciava vida social e muito menos fazer parte de comissões políticas.

Os escândalos que os romances de Eça provocaram devem-se mais à ausência de autocensura ou pelo facto de viver fora do país e não se incomodar com a reação?

O regime político sob o qual Eça viveu era genuinamente liberal, o que se constata se lermos os jornais da época.

Concorda com a confissão de Eça de que os seus romances eram "no fundo, franceses"?

Nesta carta a Oliveira Martins, Eça apenas reconhecia um facto: os intelectuais da sua geração haviam sido sobretudo influenciados pela Literatura Francesa.

O apreço de Ramalho por Paris aproxima-o de Eça ou aquele nunca deixaria de ser "nostalgicamente minhoto"?

Ramalho foi sempre um «deslumbrado» por Paris, o que mais uma vez demonstra o seu provincianismo. Note-se que isto não o impedia de ser um nacionalista.

Guarda para o fim a sua "condenação' de Ramalho (invejoso). Não poderia encontrar um final melhor?

Gosto deste final e por isso ali o coloquei. Ramalho estava consciente da superioridade de Eça, um sentimento que veio ao de cima após a morte deste, como se viu aquando da inauguração da estátua de Eça em 1903. Mais grave - e raramente notado - foi a sua decisão de não publicar todos os escritos de Eça que, em 1900, Emília de Resende lhe entregara. Ramalho morreria quinze anos mais tarde, podendo nós legitimamente concluir que teria tido mais do que tempo de rever os inéditos que incluíam livros tão importantes quanto A Capital, O Conde de Abranhos e Alves &C.ia. Só em 1924, ao abrir a mala que a viúva de Eça depositara nas mãos de seu pai, Jeco, o filho de Ramalho, se deparou com as milhares de páginas que a inveja de seu pai havia impedido de ser publicadas.

Maria Filomena Mónica

Editora Relógio D"Água

270 páginas

Outras novidades

O romance póstumo de John le Carré

Se o anúncio da morte de John le Carré seria esperado, a publicação de um livro póstumo tornou-se numa surpresa. Silverview, continua na senda das suas melhores narrativas de espionagem e tem como protagonista um livreiro que abandona os mercados financeiros da City londrina para se fixar numa pequena povoação do litoral, trocando uma vida folgada por uma profissão pouco lucrativa. Não é preciso ler muitas páginas para o leitor se infiltrar no que vai acontecer e rapidamente surge uma figura enigmática, própria para o desenrolar de uma história a que Carré nos habituou.

O aparecimento deste original não surpreendeu os seus seguidores, afinal um escritor tão regular como ele teria sempre algum livro na manga para entreter o leitor de décadas. A grande pergunta é se está à altura do que nos acostumou, questão rapidamente respondida através da construção inicial da trama, na qual está bem presente a sua marca.

Curiosamente, le Carré introduz algumas reminiscências sobre a grande literatura e o ensaio ao mostrar a ignorância do seu protagonista perante dois nomes importantes e inesperados: W.G. Sebald e Noam Chomsky. Estas duas personalidades não são parte importante para o desenrolar do livro, mas servem bem para introduzir um personagem intrigante, Edward Avon, e dar espaço ao verdadeiro objetivo do volume: a recordação de antigos camaradas de profissão. Ao mesmo tempo recupera alguns dos seus grandes temas estruturantes: as traições por dinheiro, os agentes desonestos, a duplicidade dos espiões. Tudo isto sob um cenário tão invernoso como de busca profunda por um passado em alguém que pôs algo em causa e precisa de ficar esclarecido. Ou seja, um John le Carré como deve ser.

John le Carré

Editora D.Quixote

262 páginas

Uma mirada colombiana que não esquece Portugal

Juan Gabriel Vásquez tornou-se uma unanimidade em Portugal e cada livro seu atinge mais leitores, que recuperam através das suas histórias um pequeno aroma das grandes obras do final do século passado vindas do universo da América Latina. Não que se o deva logo comparar a García Márquez ou outros do género, afinal isso traria uma obrigação que não se deve exigir a um autor como este. Se tal é bom para o marketing num tempo em que os leitores são coisa cada vez mais rara, este Olhar Para Trás deve ser visto como uma obra de um, também, universo que não escapa ao sul do continente americano mas que possui uma marca própria.

O romance tem um piscar de olhos para o leitor nacional por ter várias referências ao país. A primeira surpresa surge com a Pastelaria Califa em Benfica, seguem-se outros nomes de ruas e de lugares lisboetas que influem no cenário da história que está para surgir e que são importantes. No entanto, se ressoa o nome bem conhecido da mulher do protagonista, a portuguesa Amália, o esqueleto do romance é o dos conflitos que historicamente têm vitimizado a América Latina ou o do país da origem da língua espanhola. Esse, felizmente, um dos temas que estruturam a obra de Vásquez, e que nunca se esvaziam se forem bem contados.

A recuperação de muitos acontecimentos marcantes para uma certa parte da população mundial que viu o mundo mudar tanto e que por eles foi tocado, surge neste ano de 2021 perfeitamente condensado neste olhar com memória. Para muitos, vários dos personagens que vão desfilado pelo livro até podem parecer inventados, no entanto o que os suporta são homens e mulheres de verdade, que a distância e um mundo novo fazem parecer como de inspiração literária.

Juan Gabriel Vásquez

Editora Alfaguara

493 páginas

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