“Com base nos meus muitos anos a fazer ‘cartoons’, acho que os políticos uruguaios têm bom sentido de humor”
FOTO: Paulo Spranger

“Com base nos meus muitos anos a fazer ‘cartoons’, acho que os políticos uruguaios têm bom sentido de humor”

Uruguaio Horacio Guerriero veio a Lisboa como um dos vencedores do concurso das sardinhas e também para a inauguração da sua exposição “Zoo”. Com o nome de Hogue é um dos cartoonistas políticos mais destacados do país sul-americano e elogia vitalidade democrática no Uruguai por lhe permitir expressar-se com toda a liberdade.
Publicado a

Das muitas caricaturas que fez de Pepe Mujica, o carismático presidente uruguaio que morreu no ano passado, há uma em que o pôs no divã de Freud, presumo que a fazer psicanálise sobre o exercício do poder. Mujica era uma personagem fácil de caricaturar?

Mujica, diria eu, tinha características físicas particulares que se prestavam à caricatura. Por outras palavras, era facilmente caricaturado fisicamente. Mas, além disso, a sua personalidade criava também a possibilidade de caricaturas ainda mais ambiciosas. A caricatura não era apenas física; oferecia também a oportunidade de falar um pouco mais sobre a pessoa. E acho que Mujica foi muito generoso nesse sentido, porque todos o desenhavam de diversas formas, e ele aceitava sempre.

O homem que se chamava José mas assumia-se como Pepe e tinha fama de ser o presidente mais pobre do mundo, dada a austeridade da sua vida pessoal, era um político que lidava bem com o ser caricaturado?

Sim. Houve apenas um incidente durante esse período de vida política, penso que ele tinha deixado há pouco de ser presidente, em que numa galeria de arte - já não me recordo bem - havia uma obra de arte que não era uma caricatura, retratando-o nu com a sua mulher, também nua. E bem, foi questionada, causou alvoroço a nível político. Mas de resto foi caricaturado politicamente, sei lá, de mil maneiras.

Mujica era uma exceção, ou a classe política uruguaia tem aquilo que em português chamamos “poder de encaixe”?

Se os políticos aceitam bem a crítica do caricaturista?

Sim.

Bem, trabalhei durante vários anos num programa de televisão, fazendo caricaturas ao vivo dos políticos que eram entrevistados. E desenhei todos os que lá iam, o presidente Tabaré Vázquez, o presidente Mujica, o presidente Sanguinetti, também Lacalle Pou, que viria a ser presidente - todos eles participaram neste programa. E desenhava durante a entrevista, que durava meia hora e, no final, entregava o desenho ao político. Nunca tive uma reação negativa ...

Todos aceitaram bem?

Claro! Era difícil ficar zangado, sendo filmados. Mas na verdade, para ser mais específico e dar uma resposta mais concreta, acredito firmemente, com base nos meus muitos anos de experiência a trabalhar nos media e a fazer cartoons políticos, que os políticos uruguaios têm um bom sentido de humor. Essa é a minha conclusão.

Nasceu em 1953.

Exato.

Assim, o início da sua vida adulta coincide mais ou menos com o início da ditadura dos anos 70.

Sim, claro vivi a ditadura.

Na época, era impossível caricaturar políticos?

Eu vivia no interior do Uruguai, não em Montevideu. A ditadura apanhou-me em 1973 no departamento de Durazno. Eu era bancário. Costumava desenhar para mim próprio; e gostava mesmo. Só cheguei a Montevideu em 1978, ainda em plena ditadura, onde comecei a trabalhar num jornal a fazer cartoons desportivos. Coincidiu com o Mundial da Argentina.

Como se chamava o jornal?

El Día, um jornal tradicional, que já não existe hoje em edição papel, mas era o jornal de José Batlle y Ordóñez, um político uruguaio, um dos mais importantes da história do país. Nessa época fiz muitas caricaturas desportivas. E, dentro do jornal, havia um suplemento semanal que abriu as portas à política internacional e à cultura. Nessa época, as caricaturas políticas eram praticamente inexistentes no El Día. Assim, trabalhava muito na secção de desporto, na secção de política internacional e na secção de cultura. Desenhei muita cultura. Assim, dir-lhe-ia que só a partir de 1993, quando me transferi para outro jornal, o El Observador, é que começou a fase forte, digamos assim, do cartoon político na minha carreira.

Isso já depois do fim da ditadura. Pois a democracia regressou em meados dos anos 1980.

Sim.

Vi algumas caricaturas suas de figuras internacionais. Do papa Bento XVI, de Silvio Berlusconi, de Christine Lagarde, por exemplo. E figuras da América Latina, Fidel Castro e Pinochet, de extremos políticos, também desenhou?

Desenhei também Estaline, Churchill, e muitos outros.

Insisto nas figuras latino-americanas. Alguma lhe deu mais gosto caricaturar?

Sim, Pinochet. Para criticá-lo. É claro que teria de ver para perceber em que animal se transforma Pinochet...

Que animal?

Não devia dizer. É para se ver e interpretar. Mas é um porco.

E entre os principais líderes internacionais da atualidade, algum que lhe dê mais gosto caricaturar?

Bem, não sei. Acho que Trump é uma personagem que já desenhei bastante. Talvez seja o que mais tenho desenhado ultimamente. Já desenhei Xi Jinping. Putin, nem por isso. Mas não é uma constante. Atualmente não estou a trabalhar num meio específico, tirando o Le Monde Diplomatique, que tem uma edição mensal no Uruguai. Desenho a contracapa. Como não estou profissionalmente ligado a nenhum veículo de comunicação específico, tenho-me focado mais em cartoons políticos nacionais e não tanto em cartoons internacionais.

Notei que não escreve nas suas caricaturas. É sempre só o desenho. É uma forma de dar mais liberdade de interpretação?

Faço o que faço melhor. E aprendi isso. Escrever por cima da ilustração parece-me falar mais do que o necessário. A minha linguagem é visual. O humor que tento imprimir às coisas também precisa de ser expresso através do design gráfico. Não explico o conteúdo do meu trabalho. Quero que as pessoas confrontem a obra e que o público se possa identificar com ela ou não. Podem sair horrorizados ou podem tentar interpretar algo do que estão a ver. Prefiro não ir direito ao texto.

A sua arte é política? E falo também da exposição “Zoo” que trouxe a Portugal este verão. Em que há uma simbiose entre humanos e animais.

Isso é a sua opinião. Em “Zoo” quis fazer justiça à palavra. Um local de convivência. Sem predominância. Somos todos animais. Mas não sei se toda a arte é política. E adoro o que está a dizer porque é você que o está a dizer. Não sou eu que o estou a dizer. Não me identifico com o discurso político. Não tenho qualquer interesse em introduzir o discurso político na arte. Mas o discurso político está presente na arte. E que as pessoas que lá forem encontrem. E tirem as próprias conclusões

Mas é inegável que sobretudo as suas caricaturas têm mensagem política.

O que me chamou a atenção um dia foi quando a mulher de Mujica, Lucía Topolansky, disse - e tenho a certeza de que outros também já o disseram - que ir ao supermercado é um ato político. É um ato político. Quer dizer, se tudo é político, então tudo é político mesmo. Obviamente, as caricaturas políticas estão inseridas no mundo político e nos acontecimentos políticos. Não podem ser separadas disto. Quanto à arte, há quem defenda que toda a arte é política. Bem, isso é discutível. Mas se encontra a política na minha arte, é essa a sua perspetiva, e não só a respeito, como também acho admirável que consiga vê-la.

Tendo vivido em democracia, ditadura e novamente democracia, esta última é essencial para se poder fazer arte?

O livro que acabei de publicar, tem como título Bichos Políticos: 40 Años de Historia Política en Democracia. Refere-se precisamente a isso: às coisas admiráveis que estão a acontecer no Uruguai. Os 40 anos ininterruptos de democracia no Uruguai dizem muito bem sobre o sistema democrático do país. Porque não é fácil sustentar um sistema político durante tanto tempo. Se a democracia está ou não em risco, isso já é outra história, não é?

Além da exposição Zoo, também o trouxe a Portugal o ter tido uma sardinha sua premiada no concurso que a EGEAC Lisboa organiza todos os anos. Como aconteceu essa participação vencedora?

Participei neste concurso durante muitos anos. Em 2016, em 2018, penso que também em 2020. E depois, nunca mais, após a pandemia. Mas a organização sempre me convidou. Recebo o convite de dois em dois anos: “Senhor Guerriero, temos o prazer de o convidar”. Este ano tenho estado a trabalhar numa série sobre lutas de tomate, tomatazo. Tema muito colorido. E eu disse para mim: vou adaptar a luta de tomate para a luta de sardinhas. E contei a um amigo que ia ganhar um prémio utópico porque estavam a participar candidatos de 65 países, com mais de 3000 projetos. Tinha uma espécie de esperança e confiança de que seria assim. E graças a isso, estamos aqui hoje. Muito poucos estrangeiros ganham. Geralmente são os portugueses. Mas aqui estamos nós. E estou muito feliz com isso.

“Com base nos meus muitos anos a fazer ‘cartoons’, acho que os políticos uruguaios têm bom sentido de humor”
Óscar Bonilla: “O Uruguai deve ser o único país do mundo que não tem nome”
image-fallback
O Tape Aviru dos guaranis, 500 anos depois
Diário de Notícias
www.dn.pt