Orquesta Akokán encerrou a noite no Castelo de Sines na madrugada deste domingo (26).
Orquesta Akokán encerrou a noite no Castelo de Sines na madrugada deste domingo (26).Foto: Tiago Canhoto

Com a mesma magia, FMM Sines encerra 26ª edição e mantém viva a missão de "dar voz a quem não tem voz"

Mesmo com menos recursos, Festival de Músicas do Mundo preservou a diversidade artística, o espírito de descoberta e o compromisso de apresentar artistas fora dos grandes circuitos.
Publicado a
Atualizado a

Não há como negar que, para quem se habituou a frequentar o Festival de Músicas do Mundo (FMM) nos últimos anos, a 26ª edição do evento, encerrada na madrugada deste domingo (26), trouxe mudanças. Cortes orçamentais assumidos pela Câmara Municipal de Sines, a perda de um patrocinador importante e uma nova forma de conciliar o crescimento do festival com a comunidade local deram um tom mais contido ao evento.

Seria injusto, porém, resumir esta edição apenas aos ajustes. Dentro e fora dos palcos, o FMM preservou aquilo que o transformou numa referência internacional neste século: uma celebração da diversidade, da descoberta e do encontro entre culturas.

De Porto Covo, onde os eslovacos Tolstoys chacoalharam a pequena vila alentejana, ao Castelo de Sines, palco da intensidade da italiana La Niña, do encontro entre Otto e A Garota Não em torno da música em língua portuguesa, das sonoridades palestinianas do Le Trio Joubran, da Nigéria de Mádé Kuti, da Jamaica de Julian Marley, da cubana Orquesta Akokán e da psicodelia africana do Konono Nº1, o FMM voltou a provar que o seu maior património não está num grande cabeça de cartaz.

No FMM, a programação continua organizada para que um artista desconhecido tenha o mesmo espaço simbólico de um nome consagrado. Para tal identidade, o espírito do festival também apareceu, mais uma vez, no comportamento do público.

Banda Tolstoys foi um dos destaques em Porto Covo.
Banda Tolstoys foi um dos destaques em Porto Covo.Foto: Tiago Canhoto

Em vez da corrida entre palcos atrás dos artistas mais populares, repetiram-se cenas já tradicionais do festival: espetadores a chegar sem um roteiro fechado, dispostos a descobrir músicos que jamais tinham ouvido antes, seja os convidados oficiais do alinhamento do evento, seja os artistas que se espalham pela cidade com os mais diferentes instrumentos transformando qualquer esquina, miradouro, praça ou areia da praia num palco.

Foi assim ao longo dos nove dias em Porto Covo e Sines, onde milhares de pessoas circularam entre concertos gratuitos e pagos, convivendo num ambiente que há muito ultrapassou a ideia de um festival de verão qualquer. No FMM, há um senso de comunidade raro, que faz com que pessoas de todos cantos vivam em constante espírito de descoberta e harmonia entre diferentes povos. Embora seja certo que um menor investimento tenha impacto no festival, não é suficiente para sequer fazer cócegas à ternura de magia que a cidade alentejana acarinha aos seus visitantes durante os dias de evento.

A contenção financeira, aliás, foi assumida desde o início pelo novo executivo da Câmara Municipal, eleito no ano passado. Depois de um orçamento de cerca de 2,18 milhões de euros em 2025, a edição deste ano foi organizada com uma redução entre 350 e 400 mil euros. Para o presidente da Câmara, Álvaro Beijinha, a estratégia passou por "cortar gordura" sem comprometer aquilo que realmente diferencia o evento. "É possível fazer mais com menos, é uma questão de organização", afirmou em entrevista exclusiva ao DN, defendendo que o esforço incidiu sobre todas as áreas da organização.

La Niña em atuação no Castelo de Sines.
La Niña em atuação no Castelo de Sines.Foto: Vitor Seromenho.

Segundo o autarca, a decisão também responde a uma necessidade mais ampla do município. O novo executivo - eleito em 2025 - decidiu redistribuir recursos para responder a problemas estruturais da cidade, como escolas, saneamento, abastecimento de água e habitação, sem abdicar daquele que considera um dos principais cartões-postais culturais de Sines. "Quando o dinheiro não estica, temos de fazer opções", resumiu Beijinha, lembrando que o FMM representa um investimento que projeta internacionalmente o município muito além do retorno económico direto.

As mudanças também chegaram à relação entre o festival e a cidade. O tradicional campismo espontâneo espalhado pelas ruas de Sines deu lugar a um maior controlo por parte da organização, que afirmou ter reforçado a zona oficial de acampamento - admitindo, no entanto, a necessidade de um aumento de capacidade desta área para o próximo ano.

A medida, como não poderia ser diferente, dividiu opiniões entre frequentadores habituais do festival, acostumados a uma liberdade mais ampla que o evento proporcionou com seu crescimento nos últimos anos, mas procurou responder a uma preocupação crescente dos moradores.

"Queremos manter o festival, até porque o festival começou com o partido que agora está à frente do executivo", recordou Beijinha, do Partido Comunista Português (PCP), o mesmo que representava a autarquia em 1999, na primeira edição do FMM. "Mas também garantir qualidade de vida para quem vive aqui o ano inteiro", defendeu, explicando que este aumento do FMM passou também a resultar em alguma fricção na relação entre os locais e o festival nos anos recentes.

"Dar voz a quem não tem voz"

Do ponto de vista artístico, Carlos Seixas reconhece que as restrições financeiras tiveram consequências. Houve menos concertos, uma programação ligeiramente mais concentrada e tornou-se mais difícil trazer artistas de regiões como Ásia e Médio Oriente, tanto pelo aumento dos custos como pela diminuição das digressões internacionais. "Há menos concertos, naturalmente. As coisas estão caras. Mas aquilo que nós pretendemos foi manter a qualidade", afirmou o diretor artístico, responsável pela curadoria do FMM desde a criação do festival, em 1999.

Para Seixas, o maior desafio foi preservar o conceito que tornou o festival uma referência na Europa. Muito mais do que reunir artistas de diferentes países, o FMM procura oferecer o mesmo espaço para músicos consagrados e para aqueles que raramente chegam aos grandes circuitos internacionais. Da mesma forma, uma das principais bandeiras do festival é procurar tratar o público sem distinções, distribuindo a programação entre o Castelo, a Avenida Vasco da Gama, o Centro de Artes e Porto Covo, onde apresentações gratuitas convivem com os espetáculos pagos.

Nana Benz du Togo em apresentação no FMM.
Nana Benz du Togo em apresentação no FMM. Foto: Vitor Seromenho.

"O festival não é só o Castelo. O festival é um todo", afirmou. "Há aqui um conceito de democracia, mesmo para quem não tem capacidade financeira de pagar um bilhete." Para o diretor artístico, essa lógica explica por que um músico desconhecido recebe o mesmo cuidado técnico e artístico de um nome internacionalmente reconhecido.

Ao longo da conferência de encerramento, Seixas reconheceu que sentiu falta de uma maior diversidade geográfica que marcou outras edições e que, este ano, acabou limitada pelas dificuldades financeiras e logísticas enfrentadas por festivais de todo o continente. Ainda assim, considera que a missão permanece intacta e que, como um todo, o evento foi, mais uma vez, um sucesso.

"Estes festivais desta natureza tentam encontrar artistas de países que não têm possibilidade de entrar nas rádios, nas televisões ou nos grandes teatros. Nós damos voz a quem não tem voz. Isso é que é fundamental", afirmou. "Mesmo com alguns cortes, nós ainda assim conseguimos. Houve muita qualidade durante todo o festival".

Isam Elias foi o responsável por fechar o festival neste ano.
Isam Elias foi o responsável por fechar o festival neste ano. Foto: Tiago Canhoto.

Que assim seja por muitos anos, é o que torcem os festivaleiros que se habituaram a encontrar anualmente, na última semana de julho, um reduto quase sagrado em Sines. A edição de 2027, no entanto, ainda não tem data definida, já que a autarquia avalia uma eventual coincidência com a passagem da regata internacional The Tall Ships Races pela cidade.

Carlos Seixas, porém, não esconde a preferência por manter o calendário tradicional. "Nós conquistámos um espaço extraordinário", afirmou. "E somos animais de hábitos, de rotinas. E a rotina aqui é que a grande tribo do festival viaja para Sines na última semana de julho". Resta agora saber quando essa tribo voltará a reunir-se em 2027.

nuno.tibirica@dn.pt

Orquesta Akokán encerrou a noite no Castelo de Sines na madrugada deste domingo (26).
"Para ir sem guiões". FMM Sines regressa fiel à descoberta e ao encontro entre culturas
Orquesta Akokán encerrou a noite no Castelo de Sines na madrugada deste domingo (26).
Otto: "A música é um lugar em que a gente consegue conquistar os corações mais duros do mundo"
Diário de Notícias
www.dn.pt