A escritora Jung Chang regressa ao lado escondido da China na continuação de 'Cisnes Selvagens'.
A escritora Jung Chang regressa ao lado escondido da China na continuação de 'Cisnes Selvagens'.Foto: D.R.

Cisnes proibidos de voar na China

Três décadas após o lançamento do livro 'Cisnes Selvagens', Jung Chang veio ao Literatura em Viagem (LeV) apresentar a sequela da odisseia da sua família na China de Mao. Dois livros proibidos de serem lidos no país onde nasceu a não ser em edições piratas.
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Após o enorme sucesso de Cisnes Selvagens que Jung Chang publicou no ano de 1991, trinta e quatro anos depois a escritora regressa à saga e lançou no ano passado o que se pode chamar de sequela dessa biografia de três gerações de mulheres de uma família chinesa: a avó, a mãe e a filha. A continuação não dispensa parte do título que tornou esta odisseia conhecida em todo o mundo e intitula-se Voai, Cisnes Selvagens. Desta vez a narrativa tem início em 1978, ano em que terminara o anterior volume e também começara um novo tempo na liderança governativa chinesa com a sucessão de Mao Tsé-Tung por Deng Xiaoping. Ano em que também Jung Chang faz parte de um grupo de 14 estudantes autorizadas a ir estudar em Londres.

Tinha 26 anos quando chegou à capital britânica e diz que foi como “ter aterrado em Marte”. Então, quis descobrir todo um mundo que desconhecia e a sua curiosidade continua igual, pois ao chegar a Matosinhos para participar na sessão do encontro Literatura em Viagem o seu primeiro pedido foi para a levarem a passear e conhecer o local onde se encontrava. Conversadora, Jung Chang não evita nenhum assunto porque a China é um tema sem fronteiras para a autora. A única questão problemática é não poder visitar a república popular porque receia que a autorizem a entrar mas não a deixá-la sair.

Histórias de vida familiar não faltam nesta continuação, no entanto desta vez o foco é menos na avó e mais na mãe e em si, a par da China. Também o pai é um dos protagonistas deste relato, mais lembrado do que no livro anterior, até porque a autora quis acrescentar várias partes antes não reveladas. É impossível não questionar Jung Chang sobre se haverá um terceiro livro tanto parece que tem ainda para contar, a que responde: “Não sei, afinal a minha mãe ainda está viva e espero poder voltar a vê-la. Não que acredite nessa possibilidade com muita fé, mas nunca se sabe porque a situação está a mudar na China.” Contrapõe-se, em tom irónico, que a própria autora também não facilita um bom relacionamento com as autoridades do país devido ao que escreve nos seus livros. Chang concorda: “Digo a verdade e as autoridades não gostam. Nem sempre foi assim e por muitos anos tive sempre permissão para entrar na China, tanto que em 1990 andei a entrevistar várias pessoas para escrever a biografia de Mao e houve uma grande liberdade. Foi um momento extraordinário e uma grande oportunidade para falar com pessoas da geração de Mao que ainda estavam vivas, bem como com muitas famílias. Era um momento em que falavam livremente, quando a China estava mais livre do que hoje, daí que eu e o meu marido, Jon Halliday, tivéssemos recolhido muitos depoimentos e conseguido fazer a pesquisa necessária para a biografia.”

A publicação da biografia de Mao interrompeu de vez a passividade das autoridades chinesas em relação a Jung Chang, como recorda: “De início a biografia estava totalmente proibida e eu sob uma atenta supervisão, mas ainda havia um certo nível de liberdade quando comparada com a situação atual, pois Xi Jinping é mais duro, de uma linha diferente e determinado em manter o monopólio do poder, além de que faz questão de reviver a imagem de Mao, de quem é um genuíno seguidor ao contrário dos líderes anteriores. Viu-se essa linha quando privou os habitantes de Hong Kong de liberdade e foi até onde os seus antecessores não foram. Aliás, eu fui convidada para o festival literário de Macau em 2018 e recebi um aviso para não ir porque ia realizar-se a Assembleia Popular Nacional e era um momento muito tenso. Xi Jinping vê-se como um verdadeiro sucessor de Mao e tenho a opinião de que é isso que pretende mesmo.”

A ida de Jung Chang para Londres foi para si um tempo de esperança e nunca colocou a hipótese de não voltar à China. Explica: “Foi o início de um tempo que há muito esperava, o fim da tirania de Mao e a abertura de Deng Xiaoping com um conjunto de reformas que prometiam esperança e um grande otimismo para o futuro do país. Tanto que depois do doutoramento voltei para a China, no entanto, quando se dá o massacre na praça de Tiananmen em 1989 e depois da chegada de Xi Jiping ao poder a situação mudou muito. Entretanto, passou mais de uma década sob a sua governação e não conseguiu alcançar os seus objetivos porque encontrou muita resistência e foi necessário fazer vários compromissos. O que me deu uma nova esperança, pois a sua ambição é bem conhecida, contudo este Xi Jinping não é o do início.” A chegada a Londres, onde continua a residir, permitiu a Jung Chang ver um mundo totalmente diferente. Mas são as duas visões que lhe agradam mais: “Ninguém quer que o mundo seja igual e eu gosto de culturas distintas. Claro que na minha casa tenho arte e comida chinesa, mas Londres é onde moro e gosto muito de Inglaterra. É o país da minha escolha, generoso e tolerante, o que não impede que queira regressar à China para ver a minha mãe.” 

Não será fácil ler na China a sequela Voai, Cisnes Selvagens porque os livros da escritora estão proibidos. Apesar de não serem publicados, é possível lê-los nas traduções clandestinas que se fazem no país e também nas edições publicadas em Taiwan. Jung Chang comenta: “Em Taiwan tenho muitos milhares de leitores e na China não faltam edições piratas, tanto de Cisnes Selvagens como da biografia de Mao e até são anunciadas na internet. Com as novas tecnologias é impossível fazer um controlo muito eficiente.” Chang não deixa de referir no seu novo livro que ser escritor é uma profissão muito difícil na China: “E continua a ser, mesmo não sendo comparável com o tempo de Mao, quando quase todos os escritores foram condenados, enviados para gulags, levados ao suicídio ou mesmo executados. Agora, ainda há muitas restrições sobre o que se pode escrever mas há mais liberdade, principalmente se for sobre comida ou roupas. No entanto, a porta que se abriu não pode ser fechada de novo. Isso dá-me esperança e não importa quanto o regime tente bloquear o passado porque os mais novos, se quiserem, podem conhecê-lo.”

A escrita foi tomando conta de Jung Chang desde muito nova, nem que fosse através de um poema que rapidamente seria destruído para evitar problemas. Recorda: “Desde cedo que gostei de escrever, mas suprimia esse desejo, pois todos os escritores estavam em perigo. Enquanto trabalhava em várias profissões, eletricista, por exemplo, percebia que mentalmente estava sempre a escrever. Só em Londres é que o pude mesmo fazer, contudo não queria escrever para evitar olhar e pensar no passado. Queria esquecer a China e aproveitar a vida, mas foi a minha mãe que me inspirou quando veio ter comigo e contou as histórias da minha avó, dela e do meu pai e da família. Ficou comigo seis meses e gravamos 60 horas de conversas, que fizeram regressar a vontade de ser escritora, tanto assim que dois anos depois publiquei Cisnes Selvagens.”

Nesta sequela o pai de Jung Chang tem um espaço próprio porque, refere, “ele esteve sempre muito presente na vida destas três gerações de mulheres”. Também a mãe ganha bastante relevo novamente porque “continua a surpreender-me pelas conversas que tivemos”. Conclui que com este Voai, Cisnes Selvagens descobriu “muitas histórias que ficaram por registar antes” e até hesitou se não seria necessário rever o primeiro livro mas não, “afinal Cisnes Selvagens é uma história pessoal e não de um regime”. Pergunta-se se os leitores a olham como a escritora de Cisnes Selvagens ou da biografia de Mao e a resposta é rápida: “Sempre de Cisnes Selvagens, é essa a história que mais interessa aos meus leitores.”

VOAI, CISNES SELVAGENS

Jung Chang

Quetzal

350 páginas

LIVROS DE ABRIL

Se o objetivo era celebrar a Revolução dos Cravos, a editora Tinta da China cumpriu-o com o lançamento de três volumes sobre esse tempo e ótimas investigações sobre temáticas que não podem ser esquecidas. É o caso de Mulheres, Terra e Revolução, de Cecília Honório e Rita Calvário, que descreve o 25 de Abril visto pelas mulheres rurais através de vários depoimentos e da reconstituição dos acontecimentos de norte a sul do país, tendo como cenário tanto o latifúndio do Alentejo como a pequena propriedade a norte. Um livro em que as autoras descrevem outras as mulheres, as da revolução e que “já não se reconhecem nas mulheres do meu país de Maria Lamas, limitadas à luta pela sobrevivência”.

MULHERES, TERRA E REVOLUÇÃO - 25 de ABRIL VISTO PELAS MULHERES RURAIS

Cecília Honório e Rita Calvário

Tinta da China

376 páginas

É no volume intitulado Casa dos Mortos que Maria José Oliveira reconstrói a atividade da PIDE/DGS em Moçambique entre 1964 e 1974. Uma investigação que retirou do silêncio da Torre do Tombo uma época de violência e que, como a autora explica, teve direito a uma comissão militar mas sem uma evidência real de tão apagada que foi a sua existência. Não é a única caixa de documentação a ser retirada da ignorância, mesmo que, como diz a autora, haja muito para inventariar e descrever em três quilómetros e meio de arquivo. O historiador Luís Nuno Rodrigues lança Brevíssima História da Revolução dos Cravos em 248 páginas que começam com a longa ditadura de Salazar e Caetano e terminam com os meses decisivos e o desenlace, percorrendo entretanto os momentos importantes que antecederam o golpe que derrubou um regime ditatorial quase eterno. 

CASA DOS MORTOS -  A PIDE/DGS EM MOÇAMBIQUE ENTRE entre 1964 e 1974

Maria José Oliveira

Tinta da China

164 páginas

BREVÍSSIMA HISTÓRIA DA REVOLUÇÂO DOS CRAVOS

Luís Nuno Rodrigues

Tinta da China

248 páginas

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