Qual a relação temática de Cinco Segundos, longa-metragem do italiano Paolo Virzi, com o novo filme de Steven Spielberg, O Dia da Revelação? Nenhuma, como é óbvio — no primeiro, os humanos convivem com extraterrestres, no segundo há um homem solitário, Adriano (Valerio Mastandrea), que se refugia numa casa de campo para lidar com os seus próprios fantasmas...Em todo o caso, a coexistência dos dois filmes no mercado permite-nos compreender um fator tantas vezes secundarizado no cinema dos nossos dias, por vezes decisivo para o nosso envolvimento emocional. Dito de outro modo: estamos perante dois projetos cuja consolidação é indissociável das qualidades dos respetivos argumentos.No caso de Cinco Segundos, o argumento assinado pelo próprio Paolo Virzi, com a colaboração de Francesco Bruni e Carlo Virzi (irmão do realizador e também compositor da música do filme) funciona como peça fulcral. E isto numa perspetiva que não decorre da noção corrente segundo a qual o argumento serve para definir uma série de situações que vão “evoluindo”, num jogo mais ou menos transparente de causa/efeito. No começo, acontece mesmo o contrário — Adriano surge-nos como alguém cujo comportamento não faz “sentido”, não ajuda a que a história “avance”.Conhecemo-lo como alguém que vive (ou quer viver) como um eremita, revoltando-se contra os estudantes apostados em revalorizar a vinha abandonada nos terrenos em frente da casa que alugou... Não é um enigma policial, antes um quadro de situações que, a pouco e pouco, iremos relacionar com a história pessoal de Adriano, em particular através das relações (ou ausência de relações) com a ex-mulher e os seus dois filhos, um rapaz e uma rapariga... Dizer mais do que isto seria impedir o espetador de descobrir por conta própria a subtil colagem de situações aparentemente contraditórias que Paolo Virzi vai organizando.Digamos apenas que Cinco Segundos é um filme que sabe assumir e, mais do que isso, preservar a tradição de um certo cinema italiano que, através de talentosos cineastas/artesãos como Dino Risi ou Luigi Comencini, sempre se mostrou disponível para a estranheza dos comportamentos humanos. Porquê estranheza? Porque tal tradição integra um conceito “psicológico” em que cada personagem existe como uma figura que, ao mesmo tempo, se expõe e mascara. Contra a formatação televisiva deste tipo de dramas, deparar com um filme como Cinco Segundos é gratificante..Fernão de Magalhães para lá do mito