Como construir uma biografia cinematográfica de um nome grande da história da música popular? A pergunta envolve questões concretas de expressão e narrativa, tendo sido, de facto, muito repetida em anos recentes, gerando resultados necessariamente diversos — lembremos apenas os exemplos de Miles Ahead (2015), Bohemian Rhapsody (2018), ou Rocket Man (2019), respetivamente sobre Miles Davis, Freddy Mercury e Elton John, sem esquecer o recente Michael, evocando a fase inicial da carreira a solo de Michael Jackson.É uma pergunta que suscita uma outra, talvez incontornável. A saber: perante determinada figura da história da música, quando (e porquê) se justifica uma abordagem documental ou uma “reconstrução” ficcional? Digamos que A Noite de Alaíde, produção brasileira assinada por Liliane Mutti agora lançada entre nós, avança com uma resposta ambivalente, cruzando documentário e ficção para nos dar a conhecer a personalidade ímpar de Alaíde Costa, 90 anos de idade e uma carreira de sete décadas — esteve recentemente entre nós, num concerto integrado no MIMO Festival, em Guimarães.O filme tem como base um livro de Ricardo Santhiago, Alaíde Costa, Faria Tudo de Novo. Como muitos objetos de natureza semelhante utiliza de forma eficaz vários registos de arquivo que nos ajudam a conhecer a riqueza de uma carreira em que Alaíde conviveu e trabalhou com nomes como Vinicius de Moraes, Johnny Alf, João Gilberto e Tom Jobim, ainda que enfrentando situações de boicote ou marginalização do seu trabalho. Tais registos surgem cruzados com muitas situações “reconstituídas” com atores, por sua vez tratadas através de mecanismos típicos do cinema de animação, da responsabilidade de Guilherme Hoffmann.É discutível que o recurso a tal artifício seja sempre a maneira mais equilibrada para o espetador descobrir o passado de Alaíde Costa — a curiosa opção formal corre o risco de alguma ostentação formalista. Ainda assim, há que reconhecer a lógica de um método narrativo que surge explicado na nota de intenções do dossier de imprensa através destas palavras: “A narrativa é conduzida pela voz da Alaíde “real”, mas também pelas suas músicas — muitas das quais ela própria compôs, além de interpretar — e por cenas animadas da infância e da carreira. A animação foi a forma que encontrámos para contar a história desta mulher negra que aparece apagada dos arquivos.” Dito de outro modo: este é um filme de redescoberta e celebração.