Cate Blanchett à procura da sua personagem

Onde Estás, Bernadette? reúne Cate Blanchett, atriz de notáveis transfigurações, e Richard Linklater, um dos mais originais autores do atual cinema americano - infelizmente, os resultados não correspondem à "soma" dos talentos envolvidos.

Há filmes que nos provocam uma desilusão que envolve qualquer coisa de amargura. Porquê? Porque reconhecemos a sofisticação dos talentos neles investidos, ao mesmo tempo que compreendemos que os resultados finais não resultam de uma mera "soma" desses mesmos talentos. Onde Estás, Bernadette? é um desses filmes: realizado por Richard Linklater, por certo um dos mais originais criadores do atual cinema americano, protagonizado por Cate Blanchett, atriz de admirável versatilidade, acaba por se esgotar num banal retrato "psicológico" de uma mulher à procura de refazer o seu universo familiar.

Baseado num "best-seller" de Maria Semple, nele encontramos Bernadette Fox (Blanchett), uma arquiteta de prestígio cuja vida foi deslizando do sucesso profissional para uma desagregação dos laços com os outros, a começar pelo marido (Billy Crudup) e a filha (Emma Nelson). A sua crise existencial leva-a mesmo a evitar, ou a tornar estranhamente conflituosas, as relações com os outros, até que um dia desaparece...

Blanchett bem se esforça por emprestar alguma consistência dramática a uma figura que se vai esgotando numa série de lugares-comuns "existenciais" sobre a condição feminina, numa espécie de nostalgia "new age" ressuscitada em tom politicamente correto. Procurou-se, talvez, elaborar um exercício de pura comédia existencial, mas mesmo por essa via não encontramos mais do que uma pobre imitação das muitas subtilezas do cinema de Woody Allen.

Enfim, lembramo-nos de Blanchett sob a direção de Woody Allen, precisamente, em Blue Jasmine (2013), composição que lhe valeu um Oscar... Mas não há comparação possível. Linklater, criador de filmes tão originais como A Scanner Darkly - o Homem Duplo (2006) ou Boyhood: Momentos de uma Vida (2014) nunca encontra o tom certo para, pelo menos, emprestar alguma pertinência dramática aos gestos e ações das suas personagens; os resultados parecem querer rivalizar com aqueles programas de televisão em que meia dúzia de lugares-comuns mais ou menos moralistas são apresentadas como uma exaltação da "mulher" ou da "condição feminina"... Acontece aos melhores.

* Medíocre

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