No próximo dia 12 de fevereiro, na Casa da Música, no Porto, o público que assistir ao espetáculo de Giuseppe Verdi intitulado Il Trovatore (O Trovador, em português) não vai encontrar os cenários imponentes e massivos que costumam servir de pano de fundo às óperas do compositor italiano do século XIX. Desta vez, sob a forma de concerto, haverá a possibilidade de se fazer uma “audição atenta e mais íntima, mais focada no canto do que naquilo que habitualmente se faz, que é ouvir com os olhos”, explicou ao DN Rómulo Assis, o maestro que estará a dirigir a orquestra Lyric Opera Arts. Em palco estarão ainda o Coro Sinfónico Inês de Castro, dirigido por Artur Pinho Maria, e o coro Voces Verbi, sob a batuta de Rodrigo Oliveira.No total, serão mais de 100 artistas em palco, mas Rómulo Assis evoca os quatro solistas que darão corpo e voz às personagens do libreto escrito por Salvatore Cammarano – baseado na peça El Trovador, de Antonio García Gutiérrez – para ilustrar o “mito” criado à volta desta ópera: “Cantar O Trovador era muito fácil, só era preciso encontrar os quatro maiores cantores do mundo.”De acordo com a síntese disponibilizada pela Casa da Música, a ação, mergulhada num enredo espanhol medieval, desenrola-se em torno do “nobre Conde di Luna (interpretado por André Baleiro), o misterioso trovador Manrico (que ganha vida através de Carlos Cardoso), a apaixonada Leonora (encarnada por Cristiana Oliveira) e a enigmática cigana Azucena (a cargo de Cátia Moreso), cujo passado desencadeia o conflito que atravessa toda a ação”.Questionado sobre o motivo que leva a que esta história de capa e espada – mas, desta vez, sem capa, nem espada – apareça agora, Rómulo Assis garante que estavam reunidas as condições para lhe dar vida, porque “é raríssimo encontrar cada uma das partes, é muito difícil encontrar quatro vozes capazes de cantar aquilo e que funcionem bem juntas, em quarteto”, que é algo que aconteceu.“A partir daí, quando demos conta de que tínhamos uma oportunidade única de fazer O Trovador, decidimos mudar agulhas e fazê-lo”, descreve.Um outro elemento que torna esta experiência única são as condições acústicas da Casa da Música, que, por um lado, não permite que a orquestra fique escondida num fosso, porque não o tem – o que inviabiliza a presença do cenário gigantesco –, mas, por outro, permite a fruição estética da música e em detalhe.Para o maestro, a opção permite concentrar a atenção naquilo que considera o núcleo da obra no que é essencial: a música e o canto, porque, defende, “às vezes, com uma encenação muito rebuscada ou muito pobre, distraímo-nos daquilo que verdadeiramente importa”.A execução em concerto é, segundo Rómulo Assis, uma tendência consolidada em centros musicais internacionais. O maestro evocou o exemplo da New York Philharmonic, que anunciou a apresentação anual de óperas em versão de concerto no Carnegie Hall, sublinhando que este formato é particularmente adequado a obras que vivem essencialmente da música, como Il Trovatore.Rómulo Assis avança que, com este formato, mesmo ouvintes familiarizados com a obra poderão descobrir novas dimensões da partitura. Sem a mediação visual da encenação, a audição torna-se mais direta, revelando pormenores do canto e da orquestração frequentemente diluídos na experiência teatral.Sobre a forma como o público em Portugal interage ou procura este tipo de espetáculo, o maestro rejeita a ideia de que a ópera seja um género reservado a elites, atribuindo essa perceção a um contexto histórico específico da cultura portuguesa. Recorda que, em países como Itália, França, Espanha ou Inglaterra, existiram tradições populares de teatro musical que aproximaram a ópera do grande público. Para o maestro, Verdi representa de forma exemplar essa dimensão popular, sem perda de densidade estética, com uma linguagem acessível, mas multifacetada, capaz de conjugar emoção, dramaturgia e complexidade musical.Para Rómulo Assis, a essência da experiência reside na transmissão de uma ideia emocional entre compositor, intérpretes e público, um processo que considera irreproduzível por meios tecnológicos. Numa época marcada pela proliferação de ferramentas de Inteligência Artificial, o maestro insiste que a música, enquanto fenómeno humano e emocional, continua a depender da presença e da atenção coletiva.