Até ir para a Universidade, onde se formou em Gestão de Empresas, Carolee Carmello nunca tinha cantado em público. Mas depois de uma experiência no coro, a miúda de Albany viu oferecerem-lhe um emprego de verão num pequeno teatro. “Achei que seria uma coisa divertida para fazer durante o verão, logo após me formar. Depois conheci vários atores profissionais que me disseram: ‘Devias vir para Nova Iorque e tentar’. Acho que tinha 21 anos e pensei: ‘Esta é provavelmente a única vez na minha vida em que posso tentar isto e tirar esta ideia da cabeça, para que quando tiver 50, 60 anos, não me arrependa’. E foi exatamente isso que aconteceu.”Passadas mais de quatro décadas e uma carreira em que interpretou alguns dos papéis mais famosos da Broadway - de Donna Sheridan em Mamma Mia! a Mrs. Lovett em Sweeney Todd -, Carolee não se arrepende da decisão. “Acho que agora é um bocado tarde para voltar à universidade para fazer o curso de Direito”, brinca, sentada no jardim do hotel The Late Birds Lisbon, numa passagem por Lisboa onde foi a convidada especial da última edição do Broadway no Parque. O convite partiu de Martim Galamba, um dos fundadores da Music Theater Lisbon (MTL, com Sissi Martins e Rubén Madureira), que organiza o Broadway no Parque. “Eu não sabia nada sobre este programa, embora conheça a Liz Callaway, que esteve cá no ano passado”, conta Carolee. A verdade é que aceitou, em parte também por se tratar de um homenagem a Sondheim, falecido em 2021. “Quando pensamos nos séculos XX e XXI, Sondheim é, sem dúvida, o rei”, explica a atriz, que já atuou em vários espectáculos do compositor e letrista. “Ele cria personagens maravilhosas, especialmente para mulheres, o que é um pouco invulgar. Cria personagens maravilhosas e complexas. A mais recente que fiz em Nova Iorque foi em Sweeney Todd. Mrs Lovett é muito complexa. Ela tem um lado mau, é uma criminosa, é manipuladora, mas também é encantadora”, prossegue Carolee. Mas confessa que Sondheim não é fácil. “A sua narrativa é muito complexa, as letras são muito difíceis de aprender, e as melodias também, mas contam uma história interessante e cheia de nuances. Não há nada de simples nos espectáculos dele.”Martim Galamba não podia concordar mais: “Sondheim é um compositor com obras que apresentam mulheres fortes. Por isso foi perfeito ter uma atriz e intérprete tão incrível como a Carolee connosco este ano.”O público faz parte da peçaAo longo da sua carreira, Carolee Carmello habituou-se a atuar para audiências muito diferentes. A da Broadway, em Nova Iorque, claro, mas também em espectáculos da Califórnia ao Ohio ou à Carolina do Norte, como aconteceu recentemente durante a digressão do peça Kimberly Akimbo. “É a parte interessante do teatro: contar uma história e não saber como as pessoas vão reagir a ela”, explica Carolee. A atriz mostra-se ainda feliz por o teatro musical hoje em dia se ter globalizado. “Há algo de muito americano no teatro musical, em contar uma história com uma canção e diálogos à mistura. E adoro que se esteja a espalhar pelo mundo e que agora possamos ver peças americanas na Austrália, na Europa, na América do Sul, etc”, diz. .Em todos esses locais, seja qual for a língua que aí se fale: “O público é uma personagem da história. Ele contribui tanto como qualquer um dos músicos, atores ou o diretor musical. O público participa”, garante Carolee. E acrescenta: “É por isso que sempre achei que o teatro ao vivo nunca morrerá, porque é uma experiência que, enquanto espectador, é incomparável. Podemos sentar-nos e ver televisão, ver um filme ou ouvir uma gravação, mas não é a mesma coisa que estar na sala onde a arte está a ser criada. Por isso, acho que é uma das formas de arte mais antigas e acredito que continuará a ser amada por pessoas de todo o mundo.”Sobre o papel do público, Martim Galamba cita o próprio Sondheim. “Há uma citação que diz: ‘os musicais são peças de teatro, mas o último colaborador é o público, por isso é preciso esperar que esse último colaborador entre em cena para que a colaboração possa ser concluída.’ É mesmo isto.”Nascida e criada em Albany, no estado de Nova Iorque, Carolee Carmello pode nunca ter sonhado com a Broadway em criança, mas cresceu a ouvir um álbum de West Side Story (com letras de Sondheim e uma das peças que os jovens atores de Broadway no Parque recriaram no Jardim do Torel) que andava lá por casa e a ver os musicais que passavam na televisão, como Música no Coração ou 1776, sobre os eventos que levaram à declaração de independência dos EUA faz agora precisamente 250 anos. Mas a primeira ida à Broadway para ver um espectáculo só aconteceu quando já andava na universidade. “A primeira vez que vi um espetáculo da Broadway foi na faculdade, com umas amigas. Chamava-se Ain’t Misbehavin’, que era um espectáculo atípico. Acho que fomos à banca dos bilhetes com desconto e levámos o que havia disponível”, ri-se. E acrescenta: “Era um programa divertido, mas não era algo que eu gostasse de fazer.”Dos espectáculos que protagonizou, Carolee Carmello admite que “adoramos sempre o papel que estamos a fazer no momento. Adorei fazer o Sweeney Todd, a Mrs Lovett”. E se não deixa de destacar Mamma Mia!, confessa que o seu papel favorito foi Lucille Frank, em Parade. “Porque foi a primeira vez que fiz algo original, escrito a pensar em mim e no meu trabalho, e estar envolvida em algo desde o início, vê-lo chegar à Broadway e ser nomeada para um Tony, toda essa experiência foi muito especial. E o texto era tão bonito. Jason Robert Brown compôs a música e Alfred Uhry, que é um dramaturgo maravilhoso, escreveu o libreto, que é simplesmente genial, por isso é provavelmente o meu favorito.”Já como papel mais difícil destaca o que fez em Scandalous, espectáculo que a própria descreve a rir como “um fracasso”, no qual interpretava uma pregadora. “Eu estava em palco a noite inteira, e como interpretava uma pregadora, havia muitos gritos e eu cantava umas 17 canções ao longo da noite. Foi esgotante!”Aos 63 anos, Carolee Carmello confessa que hoje não há muitos papéis para a atrizes da sua idade. “Houve uma altura, nos anos 50 e 60, em que havia muitos papéis excelentes para mulheres. Naquela época, estas eram as grandes estrelas como Ethel Merman ou Angela Lansbury. Naquela altura havia papéis incríveis escritos para pessoas como eu. Atualmente, a maioria dos espetáculos são dirigidos a um público muito jovem, na casa dos 20 anos, e o que pode é haver uma personagem de avó com uma participação pequena. Espero que isso mude e haja mais opções para pessoas mais velhas.”Esquecendo a questão da idade, uma das personagens que Carolee diz que gostaria de ter interpretado era a de Eliza Doolittle, em My Fair Lady. Mas neste momento, “gostava de fazer algo novo, algo que ainda não tenha sido escrito, vamos ver se isso acontece”. E questionada sobre com quem gostaria de trabalhar no futuro, a atriz começa por destacar os grandes nomes com quem já trabalhou: Jason Robert Brown, Hal Prince ou Michael John LaChiusa são alguns dos exemplos. Mas admite que gostaria de vir a trabalhar com Lin-Manuel Miranda. “Não sei se isso algum dia vai acontecer, mas é uma possibilidade”, diz sobre o criador de In the Heights ou do mega sucesso Hamilton. Martim Galamba, que se juntou a nós porque vai levar Carolee a almoçar e conhecer um pouco melhor Lisboa, que visita pela primeira vez, já trouxe In The Heights para Portugal . E admite que gostava de trazer Hamilton, a história de Alexander Hamilton, um dos Pais Fundadores dos EUA nascido nas Caraíbas e que se tornaria no primeiro secretário do Tesouro após a independência. O co-fundador da MTL admite que a tradução para português é um desafio, mas tem ainda mais dúvidas sobre a preparação técnica em Portugal para receber um espectáculo com tal complexidade. .Para já, terminou mais uma edição do Broadway no Parque, desta vez com uma orquestra em palco e a equipa da MTL a trazer Sondheim aos lisboetas, acompanhada por Carolee Carmello, três vezes nomeada para os Tony, os óscares do teatro musical. Questionada sobre a importância que dá a estas nomeações e aos prémios, a atriz garante: “Tento não dar muita importância a isso. Estou muito grata pelos prémios que recebi, mas há tantas pessoas talentosas que nunca foram nomeadas. Sempre disse, quando comecei, que tudo o que queria era ganhar a vida e trabalhar o mais que pudesse. E consegui. Por isso, estou grata.”Quanto a conselhos para quem sonha com uma carreira no teatro musical, Carolee Carmello recomenda aprender a lidar com a rejeição, sobretudo nas audições. “É preciso criar uma carapaça, como dizemos nos EUA. Não podemos levar isso para o lado pessoal. O segredo é não levar a rejeição a peito. E perceber que nós temos algo para oferecer. Só temos de encontrar o local certo para o fazer.” .Lisbon Film Orchestra estreia musical ‘Sweeney Todd’ em versão mais “leve” .Paulo Sousa Costa: “Não acredito num Estado que faz o papel do pai rico”