A autora de A Sombra das Árvores no Inverno venceu o Prémio Leya 2025 pela “elegância da escrita” e o “trajeto íntimo e social das personagens, situações problemáticas e convulsas de candente atualidade na Europa”, destacou o júri presidido por Manuel Alegre quando Carla Pais foi anunciada como vencedora, no dia 19 de novembro do ano passado. O livro chegou às livrarias a 28 de abril e este sábado, 30 de maio, decorrerá a cerimónia de entrega do prémio, na Feira do Livro de Lisboa. Natural de Leiria, Carla Pais, que vive e trabalha em França desde 2012, escreveu também Um Cão Deitado à Fossa (2022, Porto Editora), distinguido com o Prémio SPA para o melhor livro de ficção narrativa em 2023, e Mea Culpa (2017, Porto Editora), além dos livros de poesia, A Instrumentação do Fogo (Prémio de poesia Francisco Rodrigues Lobo 2017) e A Brutalidade do Movimento Conjugado (2026, The Poets and Dragons Society). O que a levou a escrever A Sombra das Árvores no Inverno?Foi o facto de, entre 2015 e 2018, eu me estar a aperceber que havia uma grande confusão entre duas palavras, refugiado e terrorista, que não querem dizer de todo a mesma coisa, e, no entanto, estávamos a normalizar qualquer coisa que não pode ser normalizada, que é a desumanização do outro. Há vidas, e é preciso não esquecer isso, que cada pessoa é uma pessoa, é única, tem uma história própria. Qual foi a primeira personagem deste livro que lhe apareceu? Foi a Nádia. A Nádia aparece porque juntamente com este fenómeno havia um paradoxo terrível a que estávamos a assistir na Europa. Enquanto estávamos a desumanizar os refugiados que vinham à procura de uma mão amiga que os amparasse, estávamos ao mesmo tempo a assistir a um fenómeno que era os nossos jovens europeus a abandonar a sociedade que nós estávamos a construir para eles, para irem lutar por uma causa que não era a deles. Como é que se compreende isto? A Nádia nasce disto, como é que uma mãe que educa um filho sobre os princípios que ela defende e, de repente, se vê numa situação daquelas, de perder um filho para uma guerra terrorista, para o jihadismo, quando ela nunca defendeu aquilo? Era todo esse contexto global que estávamos a viver e que tinha muitas frentes a acontecer ao mesmo tempo. Eu coloco-me na pele de uma mãe assim, eu tenho dois filhos, poderia ter acontecido comigo. Se me acontecesse aquilo a mim, como é que eu iria reagir? Como é que as coisas se passariam? Foi nesse exercício de tentar compreender aquela mãe e de me colocar no lugar de uma dessas mães que nasceu a Nádia.Enquanto emigrante em França, lida com pessoas dessas diferentes comunidades que retrata no livro ? Estas personagens não têm a ver com pessoas com quem me relaciono no meu dia-a-dia, mas têm a ver com uma observação permanente daquilo que acontece à minha volta. Víamos imagens tão perturbadoras, daquelas crianças sírias que atravessavam o mar com os pais, perdiam os pais, era um drama terrível e, portanto, não podia compreender como é que o ser humano conseguia estar completamente abstraído daquela dor, daquelas imagens. E as personagens foram surgindo naturalmente.Como é que a Carla se coloca na pele dos personagens? Qual é o seu processo?É sempre quando estou a escrever, há uma frase, há uma ideia, pode haver um poema, alguma coisa que me leve para algum lado. E depois eu meto-me assim numa espécie de uma bolha, fecho-me aqui no escritório com os meus phones, ouço sempre música clássica. E aquilo transporta-me para um outro mundo. E como eu estou completamente vazia e desconectada de tudo, é-me fácil, aos poucos, ir integrando, ir jogando com o papel daquele personagem. Há personagens tão fortes que eu posso sentir aquelas dores. Lembro-me quando estava a escrever uma das cenas da Aïsha, quando ela mete os meninos na cabana, de ter chorado. De ter chorado porque eu sabia que aquela mãe não ia voltar para aqueles filhos. Eu sabia que aquelas crianças iam ficar órfãos. E chorei enquanto mãe. Não eram os meus filhos, mas podiam ser. É um processo muito orgânico.A história de uma das famílias passa-se na Síria, houve algum trabalho de investigação?Poderia ter sido o caso, mas não foi. Porque eu já viajei muito para os países do Médio Oriente e eu conheço a cultura, conheço as pessoas. Eu estava perfeitamente à vontade para poder retratar tudo o que vi e tudo o que vivi lá. Normalmente, eu falo de temas onde eu me sinto à vontade para falar. O território que eu vou buscar é sempre alguma coisa com a qual eu já tive algum contacto. Porque, senão, eu não sei se seria capaz de deixar alguma coisa de mim no livro. Quanto tempo demorou a escrever A Sombra das Árvores no Inverno? Este demorou muito tempo, eu demorei entre cinco a seis anos, porque houve uma altura em que o livro quebrou. Eu cheguei a uma parte do livro em que não conseguia escrever mais, porque ele era complexo, ele era difícil, provocou-me emoções muito fortes e, portanto, estive ali um ano, um ano e pouco, que não conseguia escrevê-lo. E depois eu ia de férias, levava o computador, conseguia escrever ali qualquer coisa, mas aquilo não desbloqueava totalmente. Há uma parte, que tem que ver mais com as crianças – porque era uma coisa que me tocava muito, de forma particular –, em que o meu cérebro bloqueou. E então, porque eu queria mesmo acabar o livro, decidi ir uma semana para fora, fechei-me numa casa sozinha e é como se tivesse desconfinado todas aquelas personagens, ‘agora somos só nós e isto vai ter que acontecer e vamos ter que acabar o livro’, e aquela desconexão total do mundo permitiu-me acabá-lo. A prosa neste romance é muito poética. A poesia é importante para a sua escrita?Isso depende do meu estado de espírito. Às vezes, preciso de escrever muita poesia. Por exemplo, eu lancei há pouco tempo um livro de poesia, saiu agora em março. Eu não sei se sou poeta, se sou romancista. Eu sou uma mulher de emoções e, portanto, quando eu sinto alguma coisa, ela tem que sair. Depois, não sei qual é a forma como ela vai sair. Às vezes, pode-se escrever um poema e depois aquilo vai ser um romance. Mas o que eu sei é que a língua é uma arma poderosa que eu tenho à minha disposição e que eu aprendi, de alguma maneira, a usar e a trabalhar e a limar para falar daquilo que eu sinto e daquilo que eu acho que não está bem.Há muito “inverno” nos seus livros. São temas duros, difíceis. Quer que as pessoas se confrontem com esse lado mais negro da vida, com as emoções que ficam “escondidas na arca”, como escreve algumas vezes neste romance?O que eu acho é que a literatura e, sobretudo, a língua, pode ser uma arte de resgate. Porque a humanidade, como eu a vejo, é uma força em movimento. Vamos todos num comboio e há pessoas que ficam para trás e a literatura tem que ser isto: tem que haver alguém que diz alto, há pessoas que ficaram para trás e é sobre essas pessoas que eu quero escrever. Eu não quero que ninguém fique para trás, porque a humanidade não pode fazer sentido se deixarmos pessoas para trás. É isso que eu tento fazer. É essas pessoas que muitas vezes ficam para trás e que ninguém quer ver e que são quase os invisíveis da sociedade que eu gosto de resgatar. É preciso falar dessas pessoas, porque elas existem enquanto pessoas.Disse numa entrevista que se sentia envergonhada com o discurso público instalado em Portugal sobre a imigração...O que eu vejo agora não é o povo que eu conheço e não é o povo que eu defenderei sempre. E essa não é a minha língua. O que me entristece é a pobreza do discurso político, o nível tão baixo a que chegámos para falar de política. Política inclui a sociedade, não é? Falamos de pessoas. Eu hoje tenho a capacidade e a possibilidade de poder comparar, eu ouço um debate político aqui em França e ouço um debate político em Portugal e eu quase que sinto vergonha, porque o meu país é muito mais do que aquilo. Nós temos uma língua riquíssima, nós temos um país que poderia ser quase exemplar em determinadas questões e não, estamos a regredir. E é por isso que eu tenho vergonha, porque eu achei que ia haver um progresso, e o que eu estou a ver é um retrocesso.O que é que a levou a começar a escrever e a participar em concursos literários?Ir para França deu-me a capacidade de olhar para o meu país de uma forma diferente. Esse distanciamento permitiu-me ver coisas que eu não conseguia ver estando lá. Quando chego, a minha prioridade é acompanhar os meus filhos e aprender a língua. E, então, além de estudar o francês à noite, fui trabalhar em limpezas, trabalhar com vários tipos de pessoas, velhotes, pessoas que trabalhavam na bolsa, que trabalhavam no mundo do espetáculo...Eu tinha vários tipos de personagens ali à minha volta. E todos eles tinham um denominador comum, que era, quando eu chegava, primeiro, tratavam-me sempre pelo meu nome. E, depois, a primeira coisa que faziam era convidar-me para beber um café e comer umas bolachas. Nunca me deixavam começar a trabalhar sem partilharem o café da manhã comigo. E isso não acontecia em Portugal, nunca. Quando em Portugal vais trabalhar para a casa de determinadas pessoas, tratas sempre as pessoas por doutora, não é? Aqui não há doutor. Doutor é um médico. Foi uma coisa que me agradou imenso, e isso começou a trabalhar na minha cabeça. E em 2014, estava de férias em Portugal, estava a ler um livro da Hertha Müller, que era Já então a Raposa era o Caçador, e aquele livro mostrou-me que, de facto, a língua tem um poder brutal e que se pode fazer com a língua imensas coisas, mesmo retratar o horror. A Hertha Müller permitiu-me ver que a literatura podia ser diferente. E, na altura, eu tinha visto que havia um prémio literário a ocorrer na Madeira para um conto. Decidi tentar, concorri e, depois, quando cheguei de férias, uma semana depois, eles ligaram-me da Madeira para dizer que eu tinha ganho o prémio.Nunca fez nada do que esperavam de si?Sim, porque eu venho do meio rural, e uma criança nos anos 1980 que cresce numa aldeia, tendo aquela aldeia uma igreja e uma escola primária, não precisa de mais nada, porque aqueles são os pilares da educação patriarcal, a educação é vertical, o poder vem de cima para baixo e não há mais nada. E o que acontece é que, muito cedo, mais do que identificar aquilo que eu queria, eu identifiquei aquilo que eu não queria. E andei sempre em contracorrente. Quando a sociedade me preparava para um padrão, eu disse, este padrão não é o que eu quero seguir. E fiz tudo ao contrário. Quando a sociedade me dizia, olha, agora tens que ir estudar para fazeres como faz toda a gente, eu disse, não, eu agora não vou estudar, eu agora quero amar, eu agora quero ser mãe, eu agora quero fazer outra coisa. Quando a sociedade me dizia, tu agora queres ser mãe, muito bem, agora vais trabalhar, tens que educar os teus filhos, eu disse, eu vou educar os meus filhos, mas eu não vou trabalhar, eu agora vou voltar para a escola. E foi sempre assim a minha vida. E foi isso que me permitiu criar a minha liberdade, que é o que eu mais defendo hoje. A liberdade de poder escolher o meu caminho sem seguir padrões ou sem seguir massas. Eu faço o que eu quero, quando eu quero, e assumo as consequências. Tenho a perfeita noção das decisões que tomo e assumo as consequências, como assumi em toda a minha vida. Mas essa liberdade é qualquer coisa que eu não posso nunca negligenciar.O que significa para si ganhar o Prémio Leya?Ganhar o Prémio Leya permitiu-me ter visibilidade. Permitiu que a minha obra chegasse a muito mais leitores e que o meu nome se posicionasse de uma forma diferente no mercado literário.Este prémio literário surpreendeu a sua família?Ainda ninguém percebe o que é que se passou. Porque, como é evidente, no meu percurso, nada poderia prever que eu viesse a ser escritora. A minha família é muito pequena, sou eu, o meu irmão e os meus pais. Ainda agora, por exemplo, a Câmara de Leiria decidiu condecorar-me com a medalha de mérito na categoria de bronze para a cultura. Eu decidi, ‘vou lá, é uma coisa tão bonita’, e então disse à minha mãe, ‘no dia 22 de maio eu vou estar aí, preparem-se para irem ao teatro para assistirem à cerimónia’. A minha mãe só chorava, era o orgulho a falar, mas eles não compreendem como é que eu cheguei aqui. Está a escrever um novo livro?Estou a escrever um novo livro, não sei sobre o que vai ser, sei apenas que eu tenho uma velha na minha cabeça que fala latim. Agora, o que esta velha vem dizer, eu ainda não sei. Sei que ela foi resgatar uma língua morta e que tem alguma coisa para dizer, mas mais do que isto não posso avançar, porque é muito prematuro..Filipa Martins: "Há causas que merecem que os factos sejam contaminados pelas emoções, através de histórias reais" .Patrícia Reis: “Todos têm razão e não há espaço para a dúvida. É como se a incerteza fosse uma fragilidade”