Carla Maciel: o que uma romântica vê na obra de Dostoievski?

"Confissões de um coração ardente" é a primeira encenação da atriz Carla Maciel, depois de ter passado três nos "mergulhada" na obra do autor russo.

Ela diz que foi uma obsessão. Já tinha lido O Jogador, quando em 2011 fez um espetáculo a partir dessa obra, e tinha ficado "com a pulga atrás da orelha", mas, depois leu O Crime e Castigo e logo a seguir O Idiota e ficou fascinada. Há três anos, decidiu ler a obra completa de Fiódor Dostoivski. Conseguem imaginar? "Senti que tinha de ler tudo. E que tinha de fazer algo com esta obra que nunca tivesse sido feito." O resultado desse "mergulho" na obra do autor russo é o espetáculo Confissões de um Coração Ardente, o primeiro assinado por Carla Maciel, aos 44 anos.

Conhecemo-la sobretudo como atriz. Na da série Teorias da Conspiração, que passa neste momento na RTP. Ou no filme São Jorge, de Marco Martins. Ou nas Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes. Talvez a conheçam das telenovelas Os Nossos Dias ou Laços de Sangue. Talvez a tenham visto no Teatro Meridional ou no Teatro Aberto.

Mas antes da interpretação, havia a música e a dança. Carla Maciel começou aos seis anos a cantar com o pai e os irmãos, um grupo de música portuguesa, o Grupo Popular 1º de maio. Também aprendeu a tocar cavaquinho e percussão e depois, na escola, fazia parte de um grupo de dança. "Até aos 17 anos foi sempre assim", recorda, com apresentações pelas várias freguesias e até em algumas festas do Avante. Não só já tinha experiência de palco como conhecia bem a dureza da vida dos artistas, as viagens, as malas para fazer e desfazer, o material que era preciso carregar.

Uma atriz, acima de tudo

Era boa aluna e estava pronta e para a faculdade formar-se em solicitadoria e assessoria jurídica quando decidiu fazer um curso de teatro na Seiva Trupe. Pela curiosidade. Pela experiência. O curso era de três meses mas no final propuseram-lhe um papel no espetáculo e acabou por ficar a trabalhar cinco anos na companhia. Foi só aí que descobriu que queria fazer isto. E queria fazer mais coisas, cinema, televisão, aprender. "No Porto, aquilo ainda era muito fechado. Resolvi fazer uma grande aventura e vir para Lisboa." Tinha 21 anos.

Desde o início, se há algo que a define como atriz (e como criadora) é esta vontade de ir mais longe: "Sou muito curiosa e ambiciosa, não gosto da estagnação. Gosto de estar sempre a aprender, conhecer pessoas novas e novas linguagens." Fez um curso de commedia dell'arte e outro de clown, fez revista e novelas, faz cinema, teatro e séries. "Gosto de fazer de tudo", diz. Gosta de dar aulas, mas também gosta de ser aluna e por isso está a fazer um mestrado em Estudos de Teatro (este espetáculo será o seu projeto final). "Precisava de um estímulo intelectual. Nunca fiz conservatório e comecei a ler muito tarde, às vezes sentia que estava um bocadinho aquém, sempre fui muito autodidacta. E o mestrado está a ajudar-me."

Durante a gravação de uma novela conheceu o ator Gonçalo Waddington, que se tornou o seu grande companheiro. Estão casados há 16 anos e fazem muitos trabalhos juntos, e ela não imagina que isso possa ser um problema. Ele é um dos atores de Confissões de um Coração Ardente, assim como Carla é uma das atrizes do filme Patrick, a primeira longa-metragem de Gonçalo, que ele está ainda a montar. "Há um companheirismo enorme, muitas trocas de ideias. Ele vive a vida intensamente e eu vivo a vida intensamente, vivemos intensamente a nossa vida família, sabemos separar as coisas."

À hora de jantar não falam de trabalho, é o tempo para os filhos, a Luísa e o Mário. Carla é uma mãe-galinha, quer estar presente e saber tudo o que se passa com os filhos: "Ter filhos é uma grande responsabilidade, temos que educá-los da maneira correta. Temos que conciliar as agendas para os filhos não perderem as rotinas nem perder momentos connosco. Há momentos em que estamos ausentes, mas eles percebem. Tentamos inclui-los na nossa vida, assim como nos incluímos na deles. Eles vêm ver os espetáculos, sabem o que andamos fazer. E eu também sei o que se passa na escola, com eles. Claro que é cansativo mas sinto que estou a fazer um bom trabalho." E isso é, sem dúvida, o mais importante.

Os homens também choram

O Dostoievski apareceu-lhe no momento certo. "É a altura certa de falar destas questões, da verdade, do sinceridade, do amor, da vergonha, da humilhação, da culpa", diz ela. "E também é o momento certo certo para mim. Na idade que tenho, um bocadinho mais madura, isto tudo fazia sentido. São questões que se têm atravessado na minha vida vida."

Em palco estão cinco homens. Não sabemos os seus nomes. Os homens falam. Têm dúvidas. Têm desgostos. Têm amores. Têm perguntas. São cinco homens que Carla Maciel encontrou nos livros de Fiodor Dostoievski: "À medida que fui lendo a obra, apercebi-me que havia ligações. Há personagens que sobrevivem de uns textos para outros, que vão amadurecendo." Percebeu também que os homens das obras de Dostoievski correspondiam a várias fases da vida do autor: "Desde que começou a escrever, com 20 anos, até aos 60 e tal anos, teve uma fase apaixonada, uma fase revoltada, uma fase de questionar muito a fé, outra de falar da culpa, da vergonha, da humilhação. E foi isso que quis mostrar aqui. Esse universo masculino."

Não são Raskolnikov (de O Crime e Castigo), o Mishkin (O Idiota), Aliocha, Dimitri e Ivan (Irmãos Karamazov). São homens. Os homens também choram, também sofrem. Eles bebem vodka e champanhe e é nesse estado ébrio que se deixam levar pelos sentimentos. "Eu sou uma romântica, olhei para este universo masculino e fui logo para o amor, podia ter pegado no lado político-social ou no lado da fé, mas quis sublinhar esse lado do amor", explica Carla Maciel. "O Dostoievski escreve para heróis e põe os heróis a chorar, no ridículo, na compulsividade e obsessão do amor."

Não se trata de um espetáculo histórico - mesmo o mobiliário ou os figurinos, são de ontem como poderiam ser de hoje. "Não quis dar muita importância a isso porque o que está a ser dito é efetivamente importante nos dias de hoje, para todos. Fala-se pouco. As pessoas estão pouco disponíveis para falar e para os afetos. Aqui há essa partilha de emoções, do que nos vai alma, a verdade, a sinceridade, a culpa, o orgulho, a humilhação, o amor que por vezes é ridículo."

Carla Maciel mergulhou do Dostoievski e veio à tona para contar o que viu nas profundezas da sua obra. "Para mim, neste momento, está a ser pertinente. É a minha maturidade que vai comandando as minhas necessidades artísticas. Vou fazendo à medida que vou sentido necessidade", diz. "Tinha este sonho de fazer o Dostoievski. Depois quero trabalhar outra vez como atriz porque me sinto bem no palco, é onde me sinto realmente feliz."

Confissões de um Coração Ardente
A partir de Dostoievski
Encenação de Carla Maciel
Interpretação: Albano Jerónimo, Gonçalo Waddington, Marco Paiva, Miguel Loureiro, Teresa Coutinho, Tónan Quito
Centro Cultural de Belém, Lisboa
De 14 a 17 de fevereiro
Bilhetes: 12 euros

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