Se é verdade que o cinema pode ser um instrumento capaz de contribuir para um melhor conhecimento da história coletiva a que pertencemos, então importa sublinhar o inestimável valor de um filme como Moulin, de László Nemes, revelado na competição do Festival de Cannes. Nele se revisita a odisseia trágica de Jean Moulin (1899-1943), líder da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, capturado pelos nazis e morto na sequência das sessões de tortura a que foi sujeito. Semelhante revisitação dramática não se limita a um processo de “reconstituição histórica”, expressão que, não poucas vezes, se limita a resumir um processo académico de acumulação de cenários e guarda-roupa a que, ingenuamente, se atribui um grau de incontestável “veracidade”. Ora, o que está em jogo é bem diferente, envolvendo sempre o trabalho narrativo que é feito sobre os registos que a memória histórica disponibiliza. A obra de Nemes, cineasta húngaro aqui a assinar o seu primeiro filme em língua francesa, não é estranha a tais questões. A sua internacionalização deu-se em Cannes, precisamente, quando apresentou O Filho de Saul, sobre um homem que, num campo de concentração, quer garantir que o seu filho tenho um enterro digno — o filme arrebatou o Grande Prémio do festival de 2015 e, mais tarde, o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. O impacto emocional de Moulin resulta, no essencial, da dramatização em torno de duas personagens centrais: Moulin, claro, interpretado pelo francês Gilles Lellouche, e Klaus Barbie, chefe da Gestapo em Lyon, a cargo do ator alemão Lars Eidinger — são ambos brilhantes e qualquer um deles merece estar na lista de candidatos a um prémio de interpretação. A construção dramática do filme em torno destes dois homens revela-se essencial para expor os valores de civilização que os separam e, nessa medida, a clivagem história em que se cruzam. Francamente menos interessante é o novo filme do americano James Gray, Paper Tiger, centrado nas atribulações de uma família de uma certa classe média novaiorquina, em meados da década de 1980, e no seu inesperado envolvimento com a máfia russa. Num registo académico de thriller, a ação apresenta-se concebida para um desenlace “simbólico” que, como quase sempre acontece no cinema de Gray, parece antecipar os próprios acontecimentos. Pior um pouco é o filme sul-coreano Hope, de Na Hong-jin, um cruzamento aleatório entre policial e ficção científica, com as inevitáveis monstruosidades digitais, capaz de demonstrar que o gratuito de alguns espectáculos da Marvel tem rivais à altura. .Entretanto, vale a pena não esquecer Garance, de Jeanne Herry, filme francês cujos desequilíbrios estruturais não excluem um valor que, mais do que nunca, merece ser reconhecido e sublinhado. A saber: a importância decisiva do trabalho de atores e atrizes para a existência de um cinema capaz de nos mobilizar sem estar dependente de modas “espectaculares” ou exigências “patrióticas”. O destaque vai, inevitavelmente, para Adèle Exarchopoulos, intérprete da personagem de Garance, uma atriz de teatro cujo dia a dia vai sendo lentamente destruído pela sua dependência do álcool — ela foi uma genuína revelação de Cannes, em 2013, através desse filme singular que é A Vida de Adèle (consagrado com a Palma de Ouro). Sem simplificar o processo de desagregação da personalidade através do álcool, e também sem o paternalismo grosseiro típico de muitos talk shows televisivos, o filme de Jeanne Herry, inclusive no seu toque de esperança, encena uma genuína aventura humana. .Cannes. Um festival de muitas histórias paralelas