Tanto através da produção europeia, como da indústria de Hollywood, o conceito de “filme de guerra” tende a ser confundido com as histórias da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O certo é que existe toda uma filmografia sobre a Primeira Guerra Mundial (1914-18) — lembremos apenas o recente 1917 (2019), de Sam Mendes — cuja importância histórica está longe de ser desprezível. Daí o interesse que envolve a descoberta de Campo de Batalha, do italiano Gianni Amelio, revelado no Festival de Veneza de 2024. Estamos perante um filme enraizado nas memórias de uma catástrofe civilizacional em que, como recorda uma legenda final, morreram mais de 16 milhões de pessoas (incluindo 650 mil soldados italianos). Livremente inspirado no romance La Sfida, de Carlo Patriarca, Amelio concentra a acção num hospital que acolhe os feridos em combate. Um dos médicos, Stefano Zorzi (Gabriel Montesi), tem por principal missão avaliar o estado de cada soldado, procurando desmascarar os que fingem uma doença, ou chegam mesmo ao ponto de se auto-mutilarem, para não serem reenviados para o campo de batalha. O papel fulcral pertencerá a outro médico, amigo de infância de Stefano, Giulio Faradi, interpretado pelo excelente Alessandro Borghi (que vimos, por exemplo, em As Oito Montanhas, 2022). Por um misto de torpor e desespero, Giulio assume a “missão” de salvar alguns soldados, violando toda a deontologia médica: através de drogas, ou mesmo de intervenções cirúrgicas, consegue que esses soldados aparentem um estado de saúde cuja gravidade possa levar os superiores a devolvê-los a casa... Há uma perturbação que se adensa, uma vez que as ações de Giulio possuem tanto de concreto, no plano físico, como de empreendimento tocado por inevitáveis contradições morais — nesta perspectiva, a enfermeira Anna (Federica Rosellini) terá um papel determinante, ao confrontar Giulio com as perguntas que ele parece querer ignorar. O filme desenvolve-se como uma tragédia de ambígua serenidade, duplamente assombrada, se assim se pode dizer, pelo facto de começarem a surgir os sinais inquietantes da “gripe espanhola” (as legendas finais recordam também os 50 milhões de vítimas dessa pandemia). Com o rigor de um verdadeiro humanista, Amelio consegue, assim, uma tocante variação sobre os modelos tradicionais do “filme de guerra”.