Bruno Nogueira pôs o Campo Pequeno a cantar "Mãe Querida"

Mesmo com máscara, na segunda-feira duas mil pessoas cantaram os êxitos da música pimba com Bruno Nogueira e Manuela Azevedo. Este foi o primeiro espetáculo no Campo Pequeno após dois meses e meio de encerramento devido à covid-19.

José Jorge Pereira tem 80 anos, uma máscara azul no rosto e uma bengala que lhe serve de amparo enquanto conversa com dois amigos junto às grades, à porta do Campo Pequeno em Lisboa. Há pelo menos dois meses e meio que não se via tanta agitação neste sítio. José, antigo forcado, está com o grupo de manifestantes que desde cedo exigem o regresso da atividade tauromáquica mas que aos poucos se vão misturando com os espetadores que chegam para ver Deixem o Pimba em Paz. É que esta segunda-feira reabriram as salas de espetáculo após o confinamento exigido pela pandemia de covid-19. E que melhor maneira de celebrar este recomeço do que cantando com Bruno Nogueira e Manuela Azevedo o tema imortalizado por Mónica Sintra, Na Minha Cama Com Ela, ou esse clássico de Ágata que é Comunhão de Bens?

À entrada da praça de touros há um certo nervosismo no ar. Aquele nervoso miudinho que sentimos nas primeiras vezes. Afinal, nunca fizemos isto de ir a um concerto a meio de uma pandemia. Verificamos, mais uma vez, se temos o gel desinfetante dentro da mala. Respiramos fundo como quem vai dar um mergulho, pomos a máscara na cara e lá vamos.

Há que manter a distância na fila para entrar. Mostrar o bilhete, de preferência no telemóvel. Imaginar o sorriso do segurança que nos indica à porta. Avançar cautelosamente pelos corredores divididos por uma grade, como se fossem autoestradas, de um lado é só para ir, no outro só dá para vir.

Lembrarmo-nos de não tocar em nada.

Seguir as setas e os braços que nos apontam o caminho. Sentarmo-nos no nosso lugar trocando olhares cúmplices com quem se senta duas cadeiras ao lado, em lugares alternados como mandam as regras. Permanecer sentado e resistir à tentação de tirar a máscara - ou então ir comprar uma cerveja (e depois outra e mais outra, houve quem o fizesse) porque está calor e porque assim poderia justificar aqueles minutos de cara ao leu. "Olha a água fresquinha", anuncia um vendedor. Também há pipocas, queijadas e gelados e por momentos isto é quase como um concerto de antigamente.

O burburinho aumenta à medida que a sala vai ficando cheia - não chega a ficar realmente cheia, é verdade, mas a sensação que temos é de que somos muitos e de que os metros que nos separam não são aqueles que deveriam ser, mas não vamos agora pensar nisso.

Há um certo nervosismo no ar, dizia. Por isso, quando as luzes se apagam, e uma voz nos diz "bem-vindos de volta ao Campo Pequeno", o público não se contém. A voz diz: "Obrigado pela confiança que vos levou a estar connosco esta noite". E só por isso o primeiro aplauso é para a voz e para nós todos que estamos aqui, nervosos mas confiantes.

É então que, às 21.45, entram os artistas. Bruno Nogueira, o anfitrião da noite, Manuela Azevedo, a voz que nos habituámos a ouvir nos Clã, os músicos Filipe Melo (piano), Nelson Cascais (contrabaixo) e Nuno Rafael (guitarra e não só).

O pimba está vivo e recomenda-se

O projeto Deixem o Pimba em Paz nasceu há sete anos da cabeça de Bruno Nogueira, que foi sempre um daqueles fãs envergonhados de música pimba. Aquela música que se ouve nos bailes e que toda a gente conhece, mas que geralmente tendemos a classificar como má, sem sequer lhe dar muita atenção. "Quando ouvia estas músicas, tinha pena que quase todas as pessoas soubessem cantar o refrão, mas depois ninguém conhecia o resto da letra. E pensava que, se as canções tivessem uma outra roupagem, talvez fizéssemos passar a mensagem", dizia Bruno Nogueira, em setembro de 2013, pouco antes do primeiro concerto do Pimba no Teatro São Luiz.

Este não é um espetáculo de humor, é um concerto. E o que é de facto extraordinário é o modo como aqueles músicos - todos eles muito bons - pegam em canções que geralmente são tocadas de maneira muito simples, só com um teclado ou um acordeão, e as transformam em temas cheios de nuances, ora ao jeito do jazz, ora ao jeito do hip hop, ora ao jeito de outra coisa qualquer.

Nestes sete anos, o Deixem o Pimba em Paz foi apresentado de norte a sul do país, e até no estrangeiro, encheu os coliseus, ganhou uma versão com orquestra e foi gravado e editado em disco. Houve temas que saíram do alinhamento, outros que entraram de novo, mas há um grupo de canções que se mantém. Como aquele que terá sido o primeiro tema escolhido para o espetáculo, A Garagem da Vizinha, de Quim Barreiros, interpretado por Nogueira e Nuno Rafael, em ritmo lento e tom dorido. Ou 24 Rosas, de José Malhoa, que é a música de abertura. Ou Não és Homem Para mim, de Romana, cantado com uma alegria divertida por Manuela Azevedo. Ou o incontornável Taras e Manias, de Marco Paulo.

Sempre que possível, os concertos contaram com convidados. Desta vez, foram Salvador Sobral, com uma versão quase irreconhecível de Som de Cristal, de Marante, e Samuel Úria que além de alinhar no tão conhecido Mãe Querida também declamou o poema da canção Deixem o Pimba em Paz, de Graciano Saga, na qual o cantor dizia que ouvia música pimba desde que nasceu e ia citando algumas das canções mais populares - desde o Zumba na caneca ao Apita o comboio, do Zé aperta o laço ao Nós pimba.

O bicho ainda mexe

Esta noite também houve um tema novo no alinhamento de Deixem o Pimba em Paz que, como explicou Bruno Nogueira, talvez não tenha muito a ver com o género mas tem a ver com o momento: Vendaval, de Toni de Matos, a música que o humorista interpretou com Filipe Melo e Nuno Rafael no palco do Coliseu dos Recreios no último Como é que o Bicho Mexe?, no passado dia 15 de maio.

Aliás, apesar de nunca mencionado, o Bicho, essa grande aventura de Bruno Nogueira no Instagram, durante a quarentena, esteve presente ao longo de todo o espetáculo. Em primeiro lugar, porque, falando com algumas pessoas aleatoriamente, deu para perceber que muitos do que estiveram a clicar furiosamente no computador para conseguir comprar bilhetes para o Pimba (dois mil bilhetes vendidos em 11 minutos) eram fãs do Bicho e quiseram prolongar essa euforia comunitária participando no regresso de Bruno Nogueira aos palcos. Houve até quem trouxesse luzes de natal.

E, depois, porque, para além do humorista, o segundo maior aplauso da noite foi para Filipe Melo - o músico que, até aqui, era só o pianista tímido num canto do palco, é agora conhecido de todos como o "Pipão" e tem fãs a gritarem o seu nome.

Bruno Nogueira não fez a vontade aos que já têm saudades do Bicho e manteve as águas bem separadas, apesar dos momentos de humor com que, obviamente, foi pontuando a atuação, com piadas a propósito das máscaras, da necessidade de manter a distância em palco ou de desinfetar microfones, e outras que nada tinham a ver com a pandemia.

"És o maior"

"Para nós poder voltar a um palco e ter pessoas desse lado é uma das coisas mais alegres que nos podia acontecer", disse Nogueira na primeira vez que se dirigiu ao público. E percebemos que estava a ser sincero. Apesar das máscaras e de ninguém se levantar para dançar, o público cantou os refrões, bateu palminhas ritmadas, acendeu os telemóveis nas músicas mais lamechas e até assobiou (sem máscara, imagina-se). Houve menos calor humano, não há como negá-lo, nada de corpos que se roçam uns nos outros, mas acho que estávamos todos um pouco emocionados por estarmos ali.

"Está a saber a liberdade", dizia a enfermeira Hegnar, que depois de passar um dia inteiro com máscara, luvas e fato protetor, não se importou de pôr uma outra máscara para vir ver o espetáculo com os amigos Letícia e Jorge. "Acho que nunca tinha estado num concerto com tanta tranquilidade, não houve aquelas multidões que costuma haver, correu tudo muito bem", concluía Adriana, ao final da noite. "Ri tanto que até me esqueci que tinha a máscara", concordava a amiga Catarina.

"És o maior", gritaram-lhe várias vezes. E é bem capaz de ser verdade. Não porque é grande, que é, mas porque, depois de conseguir o feito inédito de encher a Altice Arena com um espetáculo de stand-up comedy e de numa noite ter 170 mil pessoas a ver um live no Instagram, Bruno Nogueira pôs o Campo Pequeno a cantar "Eu gosto de mamar nos peitos da cabritinha" (frase de Quim Barreiros, pois claro) no primeiro dia do desconfinamento das salas de espetáculos.

No final, quando as luzes se acenderam, ficámos sentados nos nossos lugares, como se estivéssemos num avião - ou melhor ainda, porque nos aviões há sempre quem se levante antes do tempo e aqui toda a gente cumpriu as regras. Saímos ordeiramente, fila a fila, enquanto Rui Maria Pêgo, da Rádio Comercial (que transmitiu o concerto), ia dizendo umas graçolas para entreter.

A essa hora a ministra da Cultura, Graça Fonseca, que tinha ido ao Campo Pequeno marcar presença, já estava no programa Prós e Contras da RTP. Sentado na plateia, o primeiro-ministro António Costa assistiu ao espetáculo até ao fim, de máscara, e aguardava pacientemente a sua vez para sair.

Esta terça-feira, o Deixem o Pimba em Paz está de novo no palco do Campo Pequeno e, desta vez, com a presença o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

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