De Roberto Bolaño já se disse tudo o que era possível, no entanto, duas novas edições da sua obra permitem acrescentar mais umas histórias. Afinal, esse tudo sobre a vida não muito longa do escritor tem-se prestado para elaborar mitos sobre a verdade dos acontecimentos: como o de ter regressado ao Chile pouco antes do golpe que depôs Salvador Allende, de ter sido detido durante oito dias e dessa “experiência” ter escrito um conto e usado também pormenores numa parte do romance Os Detetives Selvagens. Histórias [verdadeiras] não faltam na vida de um escritor que não pactuava com o realismo mágico e que morreu antes do tempo e por pouco, pois estava em terceiro lugar na lista para receber um transplante de fígado, sendo aclamado pouco depois da morte como um dos maiores autores da América Latina, ou mesmo o mais importante da sua geração. Não há razões para duvidar da opinião de amigos e admiradores pois a comunidade literária considera-o enorme e, aquando da publicação de Um Pequeno Romance Lúmpen, houve uma revista da especialidade (Kirkus) que definiu o texto como “uma concisa mas bem-vinda novela à obra, ao cânone de um escritor maior”.Para os admiradores portugueses do escritor chileno chega hoje às livrarias mais setecentas páginas de leitura através de Contos Completos e da novela inédita Um Pequeno Romance Lúmpen. Espólio recuperado e que ainda poderá fazer renascer das cinzas mais inéditos, afinal a viúva encontrou entre a muito grande produção de um poeta que se declarou obrigado a ser ficcionista, para aumentar os proventos – e ainda bem –, milhares de páginas manuscritas e não publicadas.Nesta novela, Bolaño não se afasta de alguns dos seus temas preferidos: esquemas, más companhias e sexo, entre outros. A história parte de uma tragédia, a morte dos pais de dois irmãos, a que se seguem todas as desventuras possíveis. Há quem resuma esta centena de páginas a “uma narrativa fulgurante e inesquecível sobre a adolescência” e outros a “Bianca viveu primeiro uma vida no meio do crime, em segundo lugar fazia questão de negar que se tinha prostituído”. Ou seja, o autor criou uma atmosfera própria para mostrar como é difícil à mulher sobreviver num mundo masculino. A par e lá para o fim, cria um tom melodramático para terminar a novela e mete na boca da mulher essa mesma sensação, a de que se deve evitar o melodramático. Mas já é tarde porque a ilusão que percorria a dupla de irmãos está condenada ao fracasso. A novela decorre como é habitual no universo de Bolaño, até com a possibilidade de um meteorito escurecer o céu…Quanto ao espesso volume que reúne todos os contos do escritor, eles surgem alinhados de forma cronológica e em nova tradução (Vasco Gato, a novela é de Rita Graña). Além dos que já tinham sido publicados em português, há um trio de inéditos: O Gaúcho Insuportável, O Segredo do Mal e O Contorno do Olho - também se reencontra Cartão de Dança, inspirado na vivência golpista de Pinochet. No caso dos dois últimos agrupamentos de contos, há algumas páginas com notas a explicar como encontrar o lugar destas histórias na complicada cronologia que é a do escritor, enquanto a introdução de O Contorno do Olho se ocupa com a particularidade de esta ter sido a primeira publicação de Roberto Bolaño. .CONTOS COMPLETOSRoberto BolañoCavalo de Ferro624 páginasOutra particularidade que se pode encontrar neste conjunto de textos é a presença frequente do alter ego de Bolaño, o personagem/narrador Arturo Belano, ou só B., que faz questão de deixar presente a marca de uma espécie de autobiografia obscurecida. Também de alguma saudade pela ausência do continente sul americano na sua vida, como se lê repetidamente, por exemplo: “Em que consiste a poesia, perguntavam-lhe as crianças mendigas do México” (p.379); “Não era Rimbaud, era só um menino índio” (p.332); “Sou agora um escritor reconhecido em toda a América Latina” (p.398). Há sempre esse eterno regresso a casa, como se nunca se tivesse esquecido do período libertador de Allende em 1973. Aliás, esta (re)leitura dos contos respingará constantemente para as temáticas sul americanas e quando não derrapam nesse sentido é porque têm a ver com os acontecimentos e surpresas próprias dos exilados, convivências que apesar de se estranharem umas às outras, acabam por gerar uma cola literária que em Bolaño se aceita como um ato literário revolucionário, quanto mais não seja próprio de um tempo em que os escritores se deixavam fotografar a fumar um cigarro.Essa cola literária continua a levantar perguntas ao leitor, como aconteceu a alguém que queria apreciar muito a obra de Roberto Bolaño e disse uma vez que lê-lo de uma ponta à outra era como andar numa montanha-russa; com subidas inesperadas e a alturas impensáveis, descidas a velocidade que desconcertam, e etapas sem emoção ou repletas dela. Muitos destes contos e a própria novela representam um género que sugava Bolaño e, ao mesmo tempo, serão para o leitor iniciante como que um abrir de portas para as narrativas mais extensas e eternas. Para o habitual leitor do mito, será uma agradável revisitação. .UM PEQUENO ROMANCE LÚMPENRoberto BolañoCavalo de Ferro96 páginas DECIFRAR OS PERSONAGENSPor muito bem que sejam traduzidos em palavras os contornos físicos dos personagens dos romances de Haruki Murakami, ao ler-se este Haruki Murakami – O Sétimo Homem e outros contos é que o leitor irá visualizar como são realmente. Ou, pelo menos, como pretendeu o desenhador! Na realidade, o admirador e leitor de Murakami amacia mentalmente as feições angulosas japonesas devido ao modo como o escritor as descreve e nunca as olha tão agrestes como o ilustrador PMGL as desenha; designadamente as jovens apaixonadas e os jovens imberbes, além dos de meia-idade e os poucos idosos que atravessam preferencialmente as páginas dos seus livros. Esse é um primeiro choque, que é levado ao máximo – até exacerbado - no conto Xerazade. Quando se lê A Menina dos Anos não se estranha tanto e o mesmo acontece em Onde Poderei Encontrá-lo?, este, talvez, por ser a preto e branco. O Sétimo Homem será a adaptação mais difícil de lidar para o leitor, porque as impressões orientais alternam com a ocidentais ao nível do rosto, bem como o que e quem partilha alguns fundos dos cenários. No fim do volume, os autores relatam a odisseia para se “apoderarem” dos nove contos e os adaptarem; parecem adolescentes patéticos ou poetas barrocos a explicarem como obtiveram licença do escritor. Diga-se que o autor está nas páginas, sim, e há um vislumbre das suas histórias também, no entanto, existe qualquer coisa que afasta o leitor habitual de Murakami deste panorama visual que se apropriou de um universo mágico sem o igualar. .MURAKAMI - O SÉTIMO HOMEMDeveney e PMGLCasa das Letras424 páginas