Quando, a partir de 19 de fevereiro, o público se sentar nos 71 lugares disponíveis no Teatro Ibérico, em Xabregas, Lisboa, para assistir à criação de Pedro Sousa Loureiro intitulada Avó Magnética, estará rodeado de zamioculcas, a planta preferida da avó Margarida Oliveira do ator e encenador, cuja aceitação da orientação sexual do neto, tal como tinha feito com o tio Joaquim, nos anos 60 e 70 do século passado, inspirou a peça. É a segunda parte duma trilogia que só tem um denominador comum: o amor.O espetáculo contém um percurso definido, quase iniciático e garantidamente comovente, que mostra histórias de avós, para além da inspiradora da peça. No início, antes de entrar na sala do Teatro Ibérico, durante 20 minutos, o público é convidado a ver um vídeo onde três avós são descritas pelos netos - Marta Barahona Abreu, Alex Azevedo e Gilvânio Souza Gigi. Surge, depois, um relato duma avó - Ana Noronha Andrade - a falar da forma como o amor que nutre pelo neto é diferente do que sente pelos filhos. “Ter o meu neto é como se me tivessem dado um presente”, relata, assumindo-o como “o melhor presente” que teve. É tudo uma descrição do amor que é possível sentir, que neste tipo de relação só “tem a parte boa”, vinca Ana Noronha Andrade. Dois dos relatos são oferecidos por pessoas queer e dois são partilhados por “aliados”, explicou ao DN Pedro Sousa Loureiro, referindo-se às pessoas que, não sendo queer, abraçam a mesma causa. . Definido o que se pode sentir entre avós e netos, o público é arrastado pelo elenco - Pedro Sousa Loureiro, Ana Graça, Margarida Cardeal, Margarida Bento e Violeta Luz - para os tais 71 lugares disponíveis. E surge aqui um símbolo: o Teatro Ibérico tem mais de 160 lugares, mas os restantes estarão ocupados pelas tais zamioculcas que a avó Margarida Oliveira tanto adorava.Depois, segue-se o mergulho no espetáculo. A proposta é quase um jogo de videomapping onde o público é convidado a participar, porque isto é em simultâneo um filme que está a ser feito em tempo real, com ajustes e indicações de cena, e uma instalação. E tudo é uma viagem a vários tempos da vida do criador e de cada um dos artistas em palco. Há várias fotografias das avós, momentos embalsamados, relatos, histórias e tudo misturado num turbilhão de animação - que até inclui música das Spice Girls - e o medo que está por trás de tudo isto. . “Como é que nós colocamos em diálogo a nossa jornada queer, a nossa jornada enquanto aliados”, questiona Pedro Sousa Loureiro, deixando a resposta a esta e outras perguntas para o espetáculo. A premissa foi, desde o início, questionar a forma de “como podemos falar sobre o assunto, refletir sobre o assunto”, explica o criador.Sendo também um manifesto, as histórias reais contadas confundem-se com a pouca ficção que este espetáculo propõe. “99% é praticamente tudo realidade. Por mim falo, porque me sinto numa zona protegida para poder fazê-lo, ao longo deste processo de trabalho”, assume Pedro Sousa Loureiro, acrescentando que foi dada a cada artista “liberdade” e “espaço de criação dentro da criação”. É por isso que há também um poema lido por Violeta Luz, que, em determinada altura do espetáculo tem coragem de manifestar o que sente, assumindo ao DN que vive “muito à base de coragem”.“Não há nada nesta peça que seja inventado. Não há datas inventadas, não há histórias de avós inventadas. É uma peça, uma coisa ficcional, mas há uma realidade dentro dessa peça e há outra realidade de cada ator e atriz dentro dessa própria peça. Tipo Inception, mas sem o DiCaprio”, explica Violeta Luz. .Mas, para além do amor, há também medo, que também não surge como antagonista do amor.Para explicar uma parte especifica do texto, Pedro Sousa Loureiro, que durante a peça explica como o pai, em determinada altura, assumiu preferir “ter um filho morto a um filho gay”, para além de votar no segundo partido com maior representação parlamentar (cujo nome nunca é dito), descreve ao DN o medo que sentiu quando, certa vez, foi ao lançamento dum livro, numa biblioteca, onde também estava representada a Amplos - Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género, e estava fechada.“Há um movimento com pessoas a não deixarem que a apresentação do livro aconteça. Há um destilar de ódio por parte daquelas pessoas. E isso é uma sensação de medo”, relata, longe do que este peça pretende ser.“Escolhi não estar em guerra, mas também tenho a liberdade de poder falar deste assunto. Não posso é deixar que esse medo, de repente, me impeça de poder falar, de poder estar com pessoas em zonas seguras”, conclui. .Diogo Infante e Alexandra Lencastre em versão do clássico ‘A Gaivota’ que fala para o público de hoje.Casa da Música propõe a versão mais “íntima” de ‘Il Trovatore’