No cinema de Hollywood, 1976 deixou marcas gloriosas. Foi, afinal, o ano de Taxi Driver, de Martin Scorsese, mas também de Os Homens do Presidente, a brilhante desmontagem do escândalo Watergate com assinatura de Alan J. Pakula, e de Network, de Sidney Lumet, uma parábola sobre os poderes inquietantes que a televisão pode assumir. E foi ainda o ano da despedida do cinema de Alfred Hitchcock: o seu derradeiro filme, Intriga em Família, estreou-se nos EUA no dia 9 de abril, faz agora 50 anos (o lançamento português ocorreu no ano seguinte, a 10 de novembro). Ao revisitarmos estas últimas memórias do “mestre do suspense”, talvez seja inevitável sublinhar que, sobretudo a partir de Cortina Rasgada (1966), os seus filmes não foram muito acarinhados por diversos sectores da crítica e do jornalismo cinematográfico — recorde-se que, pelo meio, assinou Topázio (1969) e Frenzy (1972). Até final, Hitchcock foi um autor que não se deixou encerrar na imagem mitológica de criador de cenas de “suspense”, ainda que tal imagem nunca deixasse de estar associada às campanhas promocionais dos seus filmes. Estes títulos finais refletem um desencanto moral que muitos não aceitaram como expressão do ceticismo de alguém que, afinal, assistia à decomposição das estruturas clássicas de produção em que se tinha afirmado de modo fulgurante e, como agora dizemos, global. Sem esquecer que, nos casos de Cortina Rasgada e Topázio, estamos também perante uma gélida visão dos bastidores da política: no primeiro, expondo a desumanização da sociedade da Alemanha de Leste (a “cortina” do título é, obviamente, a Cortina de Ferro); no segundo, ecoando os bastidores internacionais da crise dos mísseis de Cuba, em 1962. .Frenzy terá sido a prova de fogo deste período, já que a sua lógica clássica de enigma policial, centrado na investigação dos crimes de um serial killer, corresponde também a um regresso à sua cidade natal, Londres — a nostalgia dá lugar a uma amargura tanto mais forte quanto se apresenta tingida por um humor muito negro. Intriga em Família pode ser visto como um prolongamento desse humor, num tom sarcástico capaz de decompor muitas formas de hipocrisia social. O filme começa com uma vidente (Barbara Harris) que, com a cumplicidade do marido (Bruce Dern), tenta ludibriar uma velha senhora (Cathleen Nesbitt), disponibilizando-se para uma “tarefa” que será paga por uma soma avultada. A estrutura narrativa do filme reflete um arrojo invulgar, já que, depois da sequência de abertura em que conhecemos aquelas personagens, passamos, sem motivação aparente, para a imagem de Karen Black, envolvida num rapto cujo resgate será um valioso diamante... A subtileza do “suspense” dispensa os efeitos simplistas de “choque” a que tantas vezes é reduzido (noção que Hitchcock recusava de forma muito clara). Primeiro, porque se trata de saber quando (e como!) as duas histórias paralelas do início se vão cruzar; depois, porque há um cadáver misteriosamente desaparecido que justifica a ambiguidade do título original, Family Plot — recorde-se que “plot” tanto pode designar uma construção narrativa como um... jazigo. O projeto final Hitchcock viria a falecer quatro anos mais tarde, em Los Angeles, a 29 de abril de 1980 — contava 80 anos. A desconcertante ironia com que Intriga em Família lida com alguns sinais da morte fez com que o filme passasse a ser classificado como um “testamento”. Assim será, se colocarmos a questão num plano estritamente simbólico. O certo é que Hitchcock ainda trabalhou no projeto de The Short Night — uma história de espionagem que chegou a ter Clint Eastwood e Catherine Deneuve como possíveis protagonistas —, mas os seus crescentes problemas de saúde fizeram com que a rodagem nunca se iniciasse. Baseado num romance do canadiano Ronald Kirkbride, o argumento de The Short Night envolveu várias contribuições, tendo sido concluído pelo americano David Freeman. O texto do argumento está publicado num livro do próprio Freeman — The Last Days of Alfred Hitchcock (The Overlook Press, Nova Iorque, 1984) — que é também um belo testemunho sobre os tempos finais do autor de Family Plot. .Hitchcock. As aventuras do Bem e do Mal