Ao lançar a sua reflexão sobre alguns aspectos da escrita de Anton Tchékhov (1860-1904), o filósofo e ensaísta francês Jacques Rancière escreve: “Trata-se de um conto de 1886 intitulado ‘Sonhos’, um daqueles que, nesse ano, levam o jovem Anton Tchékhov, com a ajuda de alguns leitores privilegiados, a compreender que não é um simples contista para pequenos jornais, mas um verdadeiro escritor”. Dir-se-ia um daqueles parágrafos em que se concretiza uma determinada estratégia de análise, depois de uma apresentação do escritor, por certo biográfica, envolvendo a diversidade da sua produção e, nessa medida, o lugar cronológico, talvez estético ou simbólico, do conto que vai ser analisado. Mas não: estas são mesmo as primeiras linhas de um novo livro de Rancière, tão breve quanto sedutor. Chama-se Ao Longe, a Liberdade (com o subtítulo “Ensaio sobre Tchékhov”), original de 2024, agora lançado entre nós pela editora Orfeu Negro, com tradução de Pedro Elói Duarte. Rancière escreve, não exatamente sobre a escrita do escritor (passe a redundância), mas sobre a metódica consolidação dessa escrita naquilo a que, de forma mais ou menos convencional, reconhecemos a marca de uma “personalidade” ou damos o nome de uma “obra”. Daí que ele não procure uma banal confirmação da escrita como “ilustração” de uma identidade previamente definida, esperando antes encontrar um leitor disponível para as aventuras da própria escrita como trabalho. O mesmo se poderá dizer, aliás, de várias abordagens do mundo do cinema por Rancière, também editadas pela Orfeu Negro (A Fábula Cinematográfica, Béla Tarr – O Tempo do Depois, etc.), ou ainda de Pedro Costa – Os Quartos do Cineasta (ed. Relógio D’Água). .Rancière identifica um dado fundamental, não apenas da escrita de Tchékhov, mas da relação do escritor com o mundo — ou, talvez melhor, do lugar que a escrita ocupa no movimento do mundo a que, para todos os efeitos, pertence. A saber: o conto deixa as personagens “a meio do caminho”. A história não se encerra num “balanço”, antes abre a possibilidade de uma continuação sem fim à vista. “A história”, escreve Rancière, “tem um fim porque pára”. No plano da comunicação (palavra tão mal tratada nestes dias de medíocre exuberância televisiva), Tchékhov não nos quer convencer que possui, ou as suas personagens possuem, o segredo de uma “mensagem” redentora: “Tchékhov não tem porta-voz". O autor de textos de teatro tão universais como Três Irmãs ou A Gaivota escrevia, afinal, numa sociedade em que circulava, como um vírus, a utopia de uma “vida nova”: “Esta expressão ressoa com força na Rússia desse tempo, onde traduz a aspiração a um futuro em que a servidão terá realmente desaparecido.” A pergunta política de Lenine — “Que fazer?” — pontua também o labor de Tchékhov, mas de forma diferente, já que, na belíssima expressão de Rancière, ele “vê as palavras encarnadas em corpos.” Daí a amarga ambivalência da expressão, podendo envolver a mudança da “ordem presente das coisas”, ou a sensação de que “não há nada a fazer, as coisas não mudarão.” Embora Rancière não o diga assim, podemos arriscar dizer que a descrença de Tchékhov (cuja atualidade não me atrevo a sublinhar) é também necessariamente política, no sentido em que se enraíza num silencioso desencanto face às formas correntes de politizar o mundo. Ou citando de novo Rancière: “Para quebrar o círculo, para formar homens capazes de transformar em realidade o apelo de uma vida nova, é preciso antes do mais mudar as maneiras de sentir. É a esta revolução dos afectos que o escritor se dedica.” Daí a pedagogia de Rancière, ajudando-nos a contornar o infantilismo crítico que quer obrigar-nos a definir a literatura (ou o cinema!) pelo modo como cada obra “exprime” ou “defende” uma determinada política. O que Tchékhov consagra e, mais do que isso, pratica é “uma política da literatura”.