Há uma herança perversa de algumas formas de experimentalismo cinematográfico, directa ou indirectamente enraizadas na modernidade que eclodiu na década de 1960, que, ainda hoje, tende a lançar suspeitas sobre qualquer filme que se apresente como um estudo “psicológico”. Enfim, tendo em conta os efeitos desastrosos de um cinema politicamente correto que vai reduzindo as suas personagens, sobretudo as femininas, a símbolos de “causas” mais ou menos militantes e indiscutíveis, talvez este seja um bom momento para revalorizarmos a palavra proibida — psicologia. Quer eu dizer: abrindo o espírito para os filmes que arriscam lidar com os elementos mais enigmáticos, por vezes mais intratáveis, dos comportamentos humanos — o filme As Correntes, da cineasta argentina Milagros Mumenthaler (nascida em La Falda, em 1977), aí está como um brilhante exemplo. Estamos perante o retrato de uma mulher, precisamente, de seu nome Lina, numa notável interpretação de Isabel Aimé González Sola. Ela é uma estilista argentina que, ainda antes do genérico do filme, descobrimos numa situação, no mínimo, inquietante. Assim, depois de ter recebido um prémio na Suíça (o país em que a realizadora cresceu), regressa à Argentina e, durante aquilo que parece ser uma banal deambulação pelas ruas da sua cidade, atravessa uma ponte e... lança-se à água. É verdade que o espectador é levado a pensar num gesto suicida, mas não é menos verdade que o próprio salto (entenda-se: a maneira como é filmado) parece corresponder a um gesto quase automático, dir-se-ia tocado por uma indecifrável naturalidade. O título do filme condensa de modo exemplar aquilo que nos vai ser dado ver — e também ouvir, já que a água é também tratada como um importante elemento sonoro. As correntes e ziguezagues da trajetória de Lina, incluindo a inabalável proximidade da filha, o distanciamento em relação ao marido e a estranheza da sua relação com a mãe, tudo contamina uma existência que a faz viver tão “colada” ao seu mistério interior que, no limite, parece existir fora do seu próprio corpo. Milagros Mumenthaler coloca em cena um universo de inequívoca estabilidade material que, afinal, perdeu o mapa que lhe garantia a coerência dos seus espaços, gestos e relações. Podemos pensar, por exemplo, nos dramas (psicológicos?) que o italiano Michelangelo Antonioni filmou há cerca de seis décadas, incluindo o emblemático Deserto Vermelho (1964). Em qualquer caso, Mumenthaler não precisa de cauções para reconhecermos o contido génio de As Correntes. .'O Diabo Veste de Prada 2'. Meryl Streep entre o céu e o inferno .Jessica Chastain desafia os valores românticos