Barco tradicional de madeira navegando os canais da antiga vila de Zhouzhuang.
Barco tradicional de madeira navegando os canais da antiga vila de Zhouzhuang.

As Antigas Vilas Aquáticas de Suzhou

Na província de Jiangsu, situada na costa oriental da China, as pessoas vivem há milhares de anos junto aos rios e canais, onde foram surgindo numerosas vilas aquáticas desde a antiguidade.
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Suzhou, cidade de Jiangsu célebre pelos seus jardins clássicos, encontra-se rodeada por várias destas povoações tradicionais, entre as quais se destacam Zhouzhuang, Tongli e Luzhi.

Nos povoados, os canais entrecruzam-se e pontes de pedra ligam as duas margens. As habitações erguem-se junto à água. As ruas e vielas são estreitas, permitindo apenas a passagem de peões e bicicletas. O barco é o meio de transporte mais característico. Esta paisagem de “pequenas pontes, água em movimento e casas habitadas” faz lembrar os canais e os barcos coloridos de Aveiro, sendo um retrato típico da vida nas regiões aquáticas. Aqui, o tempo parece correr mais devagar do que noutros lugares.

Zhouzhuang: A História das Pontes e da Pintura

A antiga vila de Zhouzhuang foi fundada em 1086. No interior da povoação, há quatro canais principais onde se conservam catorze pontes antigas, entre as quais a mais célebre é a “Ponte Dupla”. As duas pontes encontram-se ligadas, apresentando um arco redondo e outro quadrado, lembrando a forma de uma chave antiga. Por esse motivo, é também conhecida como “Ponte da Chave”, refletindo a conceção cosmológica tradicional chinesa de que “o céu é redondo e a terra é quadrada”.

Inspirado nesta paisagem, em 1984, o pintor chinês residente nos Estados Unidos Chen Yifei criou uma pintura a óleo intitulada “Memórias da Terra Natal — Ponte Dupla”. Chen Yifei é considerado um dos pintores chineses contemporâneos de maior projeção internacional, sendo as suas obras conhecidas pela fusão entre a sensibilidade artística oriental e as técnicas ocidentais da pintura a óleo.

A obra foi posteriormente exibida na galeria de Armand Hammer, presidente da companhia petrolífera norte-americana Occidental Petroleum, que a adquiriu por um elevado valor. Em novembro do mesmo ano, durante a sua visita à China, Hammer ofereceu a pintura ao líder chinês Deng Xiaoping, simbolizando uma ponte de amizade entre a China e os Estados Unidos. Desde então, Zhouzhuang ganhou grande notoriedade, e a paisagem da Ponte Dupla continua até hoje a atrair numerosos amantes das artes para sessões de pintura ao ar livre.

Atualmente, Zhouzhuang continua a ser habitada por mais de oitocentas famílias locais, e mais de 60% das residências preservam ainda o estilo arquitetónico das dinastias Ming e Qing (do século XIV ao início do século XX). Entre as mansões mais famosas destacam-se a Residência Shen, construída no século XVIII e composta por mais de cem divisões, e a Residência Zhang, edificada no século XV, em que um pequeno canal atravessa o pátio interior, permitindo a entrada de barcos na própria casa.

Sobre as águas ecoam as canções populares entoadas pelas barqueiras no dialeto local, transmitindo a serenidade e a beleza próprias da região aquática. São precisamente estas paisagens singulares e esta atmosfera de vida tradicional que fazem de Zhouzhuang aclamada como a “Primeira Vila Aquática da China”.

Tongli: Jardins Sobre a Água

A antiga vila aquática de Tongli, rodeada por cinco lagos, possui igualmente mais de mil anos de história. A povoação reparte-se por sete pequenas ilhas, separadas por quinze rios e unidas por quarenta e nove pontes, razão pela qual Tongli é também conhecida como a “Pequena Veneza do Oriente”.

As pontes ocupam um lugar muito importante no imaginário e na vida dos habitantes locais. Durante os casamentos, os recém-casados atravessam pontes e, quando um bebé completa o primeiro mês de vida, é igualmente levado ao colo a atravessar uma ponte, numa tradição associada à saúde e à felicidade.

O edifício mais famoso da vila é o Jardim Tuisi, construído em 1885 e inscrito, em 2000, na Lista do Património Mundial da UNESCO. Este encontra-se junto à água e, visto ao longe, parece flutuar sobre a sua superfície, refletindo a ideia tradicional chinesa de que “o jardim ganha vida graças à água”.

Luzhi: A Vila Antiga Vestida de Traje Tradicional

Luzhi é conhecida como o “Museu das Pontes”. Numa área histórica de apenas um quilómetro quadrado, chegaram a existir setenta e duas pontes, uma densidade comparável à de Veneza, conservando-se ainda hoje dezenas de pontes antigas.

Destaca-se o facto de muitas mulheres locais continuarem a usar os trajes tradicionais das vilas aquáticas, usando lenços triangulares na cabeça, blusas de tecidos combinados, aventais bordados à cintura e sapatos também bordados. Estas roupas, coloridas e práticas, foram concebidas pelas mulheres da região para melhor se adaptarem ao trabalho junto da água. Em 2006, o vestuário tradicional das vilas aquáticas foi inscrito na Lista Nacional do Património Cultural Imaterial da China.

Mulheres da antiga vila de Luzhi com os trajes tradicionais das vilas
aquáticas.
Mulheres da antiga vila de Luzhi com os trajes tradicionais das vilas aquáticas.

A Vida Lenta das Vilas Aquáticas

Na antiguidade, estas pequenas vilas eram terras abundantes em peixe e arroz. Hoje, apesar de se situarem numa das zonas económicas mais desenvolvidas da China, nelas não se ouvem buzinas nem trânsito intenso, mas apenas o som suave dos remos a deslizar sobre a água.

O encanto destas vilas antigas não reside apenas na beleza da paisagem, mas também no facto de continuarem a ser espaços de vida autêntica: de manhã abre-se a janela e vê-se a água; ao entardecer, as pessoas apoiam-se nas bordas das pontes enquanto conversam. A vida decorre de forma lenta e serena.

As três vilas encontram-se relativamente próximas umas das outras, a cerca de uma hora de automóvel do centro de Suzhou. Os visitantes podem percorrer os canais em barcos tradicionais a remos, passear pelas ruas empedradas e provar as especialidades locais.

Se o tempo for limitado, é possível visitar uma vila num só dia; mas, dispondo de dois ou três dias, vale a pena apreciá-las com calma, alojando-se numa estalagem junto à água para sentir a serenidade das vilas aquáticas, quando os visitantes saem e apenas permanecem o silêncio da manhã e a calma do crepúsculo.

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