Artur Pizarro toca a integral das sonatas de Mozart num piano de 1780
Artur Pizarro lançou-se ao desafio de tocar todas as sonatas de Mozart para piano, seguindo a mesma ordem com que foram interpretadas pelo pianista Sequeira Costa, em 1956, no Teatro São Carlos, em Lisboa, e também no Porto, no Conservatório de Música e na Faculdade de Letras, no ano em que se comemorava o bicentenário do compositor austríaco.
“Eu gostei da ordem e quis adotá-la, porque tinha para mim um sentido forte a nível de proporção de tempo, de relação entre sonata mais curta, sonata mais longa, entre sonata em tonalidade maior, menor, maior. Em vez de uma integral de sonatas por ordem cronológica, o que eles conseguiram foi estabelecer seis recitais autónomos. Foi isso que me atraiu”.
Artur Pizarro fala em “eles”, porque a sequência foi definida por Sequeira Costa e pelo compositor Cláudio Carneiro, que apresentou os recitais. Nesta nova interpretação de Artur Pizarro, o enquadramento das obras será feito por Paulo Ferreira de Castro.
E quantas sonatas para piano escreveu Mozart? Artur Pizarro vai tocar 19 peças divididas por seis recitais no Convento de São Pedro de Alcântara, em Lisboa, nos dias 19 e 26 de setembro e 3, 10, 17 e 24 de outubro. Mas uma das sonatas é um pouco diferente das restantes, e se Artur Pizarro algum dia as gravar em disco, como diz ser seu desejo, ficará pelas 18.
“Há uma, que é toda Mozart, que é a 19.ª, apesar de não ter sido deixada como sonata em tempo de vida de Mozart. Foi, de certa maneira, construída ou reconstruída por um dos editores de Mozart. Através de andamentos soltos que ele deixou como possível sonata. Portanto, reuniram, do espólio de Mozart, coisas que tinham ficado por acabar, mas cada andamento em si já estava feito”.
Artur Pizarro será o terceiro pianista português a tocar a integral das sonatas de piano de Mozart, depois do já referido Sequeira Costa e também de Maria João Pires, a mais internacional das intérpretes portuguesas que, aos 82 anos, anunciou o afastamento dos palcos. “Os meus dois ídolos portugueses”, revela Artur Pizarro. Pianistas vivos que vi em palco, com quem me dei, com quem tenho amizade, com quem partilhámos professores. Todos os três fomos alunos de Evaristo Campos Coelho. E Sequeira Costa e eu, aluno e professor”.
Pizarro, no entanto, traz uma novidade para estes recitais. Será a primeira vez em Portugal que a integral de Mozart será interpretada num piano do século XVIII. Trata-se de um instrumento Longman & Broderip, construído em Londres por uma das primeiras companhias inglesas a fabricar pianos de mesa, e que foi adquirido pelo pianista num leilão em Suffolk, Inglaterra. “Este piano é de 1780 e eu sou o segundo dono”, diz Pizarro.
Veio de uma família dona de uma propriedade que o pianista descreve como uma “mini Downton Abbey. “Compraram este piano novo em 1780 e puseram-no contra uma parede na sala e ele ali ficou”.
Artur Pizarro estava a gravar um disco ali na zona e viu que havia uma “estate sale” e foi lá espreitar. “De repente vejo isto, e vejo o preço, percebi que a senhora que era a herdeira tinha estado no meu recital no festival de Aldeburgh, que é ali perto de Suffolk, uma das razões por que eu lá estava, tinha ido dar o recital no festival e depois gravar um disco num estúdio perto”.
O leilão estava a ser organizado pela Sotheby’s e o piano estava à venda por um preço inicial de 600 libras. Artur Pizarro disse à proprietária que estava interessado no piano, mas foi honesto e informou-a que o instrumento tinha sido mal avaliado e valia, no mínimo, 16 mil libras. Pizarro acabaria por comprar o piano por 600 libras, porque a senhora achou que o instrumento ia ficar bem entregue.
“Este piano, o que tem de especial é que não é uma reprodução, é original, está a funcionar - tive apenas de fazer algumas reparações por questões normais de uso, e para ele durar mais uns quantos séculos. E vai ser difícil, porque um dia vou ter que pensar quem é que vai ser o próximo guardião do piano. Eu não me sinto dono do piano, eu sou uma das pessoas que vai tomar conta deste piano enquanto ele existir, e vou ter que o deixar para a frente”.
Quando esteve um verão em Paris e compôs a sonata em Lá menor, Mozart terá utilizado um destes pianos, emprestado por um dos filhos de Bach, conta Artur Pizarro.“Era idêntico a este, pelo menos uma das sonatas de Mozart, se não houver mais obras que ele tenha composto nesse verão, foram compostas num piano idêntico a este mesmo modelo”.
Tocar neste piano de mesa de 1780 “é sentir por baixo dos dedos - e o público sentir também - exatamente o que todos aqueles compositores e pianistas da época sentiam. Na altura os recitais eram nos salões dos vários palacetes e nas casas dos nobres onde havia pianos destes. Portanto, muitas pessoas da época que terão ouvido as sonatas de Mozart em primeira mão ouviram nestes pianos”.
Artur Pizarro diz que é a primeira vez em Portugal que se faz uma integral das sonatas de Mozart num piano de mesa ou noutro de época, e a promessa “é uma experiência sonora completamente diferente”.
O pianista não consegue ainda garantir que todos os recitais sejam feitos no Longman & Broderip, pois isso depende da disponibilidade do técnico. “Ele ainda não sabe se me vai poder dar assistência a todos os seis recitais. Se ele puder, serão todos neste. Se ele não puder, o compromisso será três neste, três no moderno, e quem vier aos seis pode comparar. O que também é interessante”.
As 18 sonatas para piano de Mozart foram compostas entre cerca de 1765 e 1789, ao longo de quase 25 anos. “Ele com 12, 13, 14 anos já escrevia obras de uma tal maturidade que a parte da evolução é muito difícil de acompanhar. O que se nota, sobretudo, na evolução das sonatas, é o desenvolvimento do instrumento em si. Em que, com o passar das décadas, ele passa a ter acesso a instrumentos que fazem cada vez mais e em que ele se entusiasma por essas possibilidades. Eu acho que a evolução dele está ligada exatamente ao instrumento”, diz Artur Pizarro.
O pianista já tocava todas as sonatas de Mozart, não teve que ir “aprender” para fazer esta integral, e quando lhe perguntamos se há alguma de que ele goste mais de interpretar, não consegue escolher. “Gosto delas todas, até por uma razão muito simples: eu não posso ter favoritos quando estou no palco”.
Artur Pizarro já fez outras integrais, como, por exemplo, de Beethoven ou de Chopin. “É uma forma fantástica de eu passar a ter um conhecimento muito mais profundo do compositor, porque tudo fica com um contexto muito mais forte”, afirma o pianista.
O convite para fazer estes recitais veio da Égide, uma associação cultural sem fins lucrativos dedicada às artes, e surgiu na sequência de um recital que Artur Pizarro deu no festival de Sintra, a convite do também pianista Adriano Jordão. “Conhecem-me muito mais como o grande pianista romântico, Liszt, Rachmaninoff, Tchaikovsky Prokofiev, Brahms, e não conheciam tanto o programa que eu acabei por fazer, só com obras de Bach e de Mozart. E o Adriano gostou do meu Mozart”, recorda Artur Pizarro. A Ana Proença, fundadora e presidente da Égide, estava presente no recital e desafiou-o para tocar Mozart no Convento de São Pedro de Alcântara. “Era uma coisa que eu já queria fazer há muito tempo. Estava pronto para fazer isto, mas não sabia onde e ainda não tinha falado com ninguém”.
Artur Pizarro pisou o palco para tocar piano pela primeira aos três anos e é um dos pianistas portugueses mais internacionais. Neto de Berta da Nóbrega, pianista que formou um duo de piano com Campos Coelho, cedo começou a estudar o instrumento.
“Do piano gostei sempre, nunca houve um momento de dúvida. Na carreira tem havido algumas tentativas por parte de imensa gente de me fazer passar a odiar a parte de negócio, de business. Mas também ainda não conseguiram, portanto, bem podem continuar a tentar, que eu com a idade vou ficando mais forte”.
Entre 1977 e 1998 viveu nos Estados Unidos e depois em Inglaterra, até 2016. Regressou a Portugal há dez anos, e além de continuar a tocar por esse mundo fora e a gravar discos, também dá aulas e tem neste momento 15 alunos. Há alturas em que tem mais concertos, outras em que tem menos. “O meu ideal, que eu de vez em quando consigo, são 24 recitais por ano, dois por mês. Tenho tempo para preparar tudo com calma, para vir a casa, para vir dar as aulas ao meus alunos - adoro esta parte da minha vida”.
A conversa com o DN decorreu num espaço em Oeiras onde Artur Pizarro dá as suas aulas e onde está a sua coleção de pianos. Além do de mesa de 1780, veem-se outros cinco instrumentos, três deles grandes pianos de cauda, de marcas como Kawai ou Bechstein. Também se veem fotografias, uma da avó com Campos Coelho no Teatro Avenida, em Luanda, Angola, em 1969; outra dele e do professor Campos Coelho no Salão Nobre do Conservatório de Lisboa, em 1972; e outra a receber o primeiro prémio do Concurso Internacional de Piano de Leeds, em 1990, das mãos da Duquesa de Kent e de Fanny Waterman, uma das fundadoras do concurso. Tinha 21 anos e o prémio lançou a sua carreira internacional.
