Charlize Theron gosta de violentar a sua imagem de marca, distanciando-se da iconografia dourada dos seus anúncios para uma marca de perfume. Trata-se de um gesto perverso, mas esclarecedor, do seu multifacetado talento: não ficar refém daquela imagem, eis a questão. Afinal de contas, ganhou um Óscar com a extraordinária composição no filme Monstro (2003), de Patty Jenkins, dispensando (de forma monstruosa, apetece dizer) qualquer traço de sedução ou “glamour”. No filme Apex, disponível na Netflix, vemo-la, com indelével charme, a arriscar um modelo de personagem que as rotinas industriais associam a heróis masculinos - não falta sequer o equilíbrio instável num monumental penhasco, desafiando uma pose de Tom Cruise em Missão Impossível.Sasha, a personagem de Theron, vive através de uma relação visceral com os elementos naturais. A sua viagem solitária pelos esplendores das Blue Mountains, na Austrália, envolve uma dupla redenção: por um lado, trata-se de recuperar do trauma que alterou toda a sua existência; por outro lado, as exuberantes paisagens, por vezes misteriosamente silenciosas, parecem ser o cenário ideal para a reconstrução do seu equilíbrio interior... Assim não acontecerá, já que Sasha encontra o sinistro Ben (Taron Egerton), um possível guia para conhecer a região que será, neste caso, a personagem monstruosa.Há alguns curiosos momentos de suspense, indissociáveis do tratamento dramático das paisagens e do contributo do diretor de fotografia Lawrence Sher (que trabalhou com Todd Phillips em Joker e Joker: Loucura a Dois). Além do mais, a tensão de Apex evocará a qualquer cinéfilo o memorável Deliverance/Fim de Semana Alucinante (1972), de John Boorman, também uma ilusória aventura em espaços paradisíacos. Em matéria de citações, talvez possamos até dizer que o mal que emana da figura de Ben resulta de um “cruzamento” bizarro de Psico (1960), de Alfred Hitchcock, com O Silênco dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme.Enfim, importa relativizar. Parece claro que o realizador de Apex, o islandês Baltasar Kormákur, conhece muito bem os antepassados que faz sentido citar - na sua filmografia encontramos títulos de igual ambição espetacular como Everest (2015) e Perdidos no Ártico (2022) -, ainda que o seu trabalho seja uma variação simpática, mas menor, a partir das heranças dos seus mestres. E se é verdade que, num thriller deste género, a inquietante densidade do “mau da fita” deve comandar todas as emoções, não é menos verdade que a caracterização psicológica de Ben será o elo mas fraco de todo o filme. . Esse problema torna-se especialmente sensível no próprio marketing do filme, com um trailer que omite a personagem decisiva de Tommy (Eric Bana), companheiro de Sasha, ao mesmo tempo que torna explícita a ameaça de Ben que, afinal, só será evidente depois de uma boa meia hora de ação... Isto sem esquecer que a tradução do título, Predador Dominante, é completamente estranha à ambivalência de Apex (cume, apogeu).Que espetadores?As questões específicas da apresentação e difusão de Apex suscitam, aliás, uma oportuna reflexão sobre o estado das coisas cinematográficas e, em particular, sobre os valores de produção da Netflix - estamos mesmo perante um verdadeiro case study.Que sentido faz investir mais de 50 milhões de dólares (segundo fontes da imprensa especializada dos EUA) num espetáculo com uma monumental, por vezes fascinante, componente visual para depois o “enclausurar” nos nossos ecrãs caseiros? Por mais que possa haver equipamentos privados cada vez mais sofisticados, este é mesmo um filme que existe “apenas na Netflix” (palavras do trailer), assim, privado de fazer valer a sua riqueza visual e sonora na grandeza clássica de uma verdadeira sala de cinema. Muito para lá do exemplo de Apex (apenas um sintoma), resta saber se estamos a perder espetadores de cinema ou a fabricar espetadores que ignoram o prazer do cinema? .'Linguagem Universal'. Histórias iranianas em tom canadiano