Alessandro Barbero: “Além da pobreza, o trabalho manual era muito importante para São Francisco”
Francisco morreu a 3 de outubro de 1226, faz agora 800 anos. Historiador italiano Alessandro Barbero, autor de 'São Francisco', esteve em Lisboa para o lançamento da tradução portuguesa da sua biografia do santo.
São Francisco, batizado Giovanni, era chamado de Francesco pelo pai. Quando terá nascido o primeiro Francisco, assim batizado em homenagem ao santo? Logo após a morte, em 1226?
Quase imediatamente. O estudo dos nomes é algo que os historiadores da era medieval começaram recentemente, mas de que agora sabemos muito. No século XIII, tornou-se mais comum dar nomes de santos cristãos. Antes, existiam nomes germânicos, muitos nomes estranhos. Nos anos 1200, tornou-se comum dar nomes de santos cristãos. Geralmente, eram santos antigos, mas o primeiro santo moderno cujo nome se difundiu de imediato foi Francisco.
E o significado de Francesco é mesmo “francês”?
No italiano da época, sim, mas penso que isso se perdeu rapidamente. Ou seja, se alguém falasse de franceses, continuaria a dizer “i franceschi”. Isto aconteceu até ao Renascimento, mas quando se dá este nome a uma criança, pensa-se no santo.
Ao ler o seu livro, percebe-se que, em todas as biografias que vai analisando, Francisco sublinha sempre a sua preocupação em garantir que os outros frades respeitassem o ideal de pobreza. Não só durante a sua vida, mas também preocupado com o que iria acontecer após a sua morte. É esse o grande desafio?
Sim, é definitivamente um desafio que ele sente cada vez mais ao longo da vida. No início, pensou que seria fácil. Inicialmente, viveu sozinho como eremita, praticando a pobreza total. Quando alguém começou a viver com ele, compreendeu que isso significava viver em completa pobreza, andar descalço, dormir no chão, não possuir nada. Os primeiros perceberam isso muito bem. Mas depois os frades crescem em número, e Francisco fica contente por serem cada vez mais numerosos porque isso significa que Deus aprova o seu plano. Francisco investe a sua enorme energia em fazer crescer a sua Irmandade. Nunca a chama Ordem, prefere chamar-lhe Irmandade. À data da morte de Francisco, existiam milhares de frades por toda a Europa. O que ele não imaginava era que, com tantos frades, nem todos compreendiam a sua ideia de pobreza. Chegaram pessoas muito diversas: pessoas cultas, clérigos e eruditos que talvez aceitassem a pobreza, mas queriam livros, e ter livros não era bom, pois eram muito caros. O trabalho manual era também muito importante para Francisco. E sabemos como era difícil para os frades conceberem o trabalho manual como parte fundamental das suas vidas. Mesmo os biógrafos que enfatizam a pobreza raramente falam sobre o trabalho, e, no entanto, Francisco diz no seu testamento: “Sempre trabalhei com as minhas mãos e quero que os meus frades trabalhem.” Quem não sabe trabalhar deve aprender; todos devem trabalhar, dizia. A maioria dos frades, na verdade, não aceita tudo isto. Pobreza absoluta, como exige o Evangelho, como diz Cristo, “não levarás nada contigo, nem um cajado, nem um saco”. Ele gostaria de incluir isso na Regra, mas os frades não querem, e há líderes, ministros da Ordem que ele teve de nomear, com quem teve dificuldade em entender-se. Francisco tem de as repetir várias vezes ao longo da vida, e no seu testamento repete as ideias pela última vez, dizendo: “Esta é uma recordação que deixo para que, após a minha morte, os frades saibam o que eu quero deles.”
A vida de Francisco está claramente dividida em duas. Até aos 24 ou 25 anos, era um burguês, comerciante, mas não da nobreza. Fazia parte da elite de Assis?
Na época, a elite eram os nobres cavaleiros. A burguesia, os comerciantes, não eram vistos como uma elite porque ainda eram trabalhadores. Mas ganhavam dinheiro. Francisco era o exemplo típico de um fenómeno muito comum na época: o filho do comerciante, que não era socialmente igual aos filhos dos cavaleiros, mas tinha mais dinheiro do que eles, e por isso era aceite na sua companhia. Era muito bom a ganhar dinheiro como o pai, e também muito bom a gastá-lo. Gastava porque estava sempre na companhia de homens mais nobres, mas era ele o rico; era ele que pagava as contas, era ele que pagava os músicos, era ele que tinha sempre as roupas mais recentes, as últimas tendências de moda. Mas isso não bastava para ser igual aos filhos dos cavaleiros; era também necessário ter cavalos, armas e a capacidade de guerrear. Eis algo que Francisco teve em comum na primeira e na segunda metade da sua vida: a certa altura, convenceu-se de que estava destinado a algo grandioso, que seria conhecido e admirado em todo o mundo. Mas, no início, estava enganado sobre como alcançaria a grandeza; pensava que viria através da guerra.
Sem o seu protetor, o cardeal Ugolino, futuro papa Gregório IX, Francisco teria alcançado o mesmo sucesso?
Francisco possui características únicas, porque já existiam movimentos de pessoas que compreendiam a pobreza evangélica, que queriam viver na pobreza, mesmo antes dele. Os valdenses, por exemplo. Os valdenses pediram autorização ao papa 30 anos antes de Francisco, e nessa altura a Igreja ainda não tinha compreendido a ideia, e disseram não aos valdenses, porque eram ignorantes, não podiam falar com as pessoas, pregar. Os valdenses continuaram a fazê-lo clandestinamente, tornando-se um movimento herético. Francisco é muito claro na sua vontade de permanecer dentro da Igreja, porque o risco de fazer o que ele queria era acabar marginalizado, por isso o momento em que se dirige ao papa é crucial. É ele que deixa bem claro que quer a permissão porque não quer acabar como um herege. Mas ir a Roma não é assim tão simples. Assis fica perto, chega-se lá a pé em poucos dias, mas ser recebido pelo papa não é fácil. E embora os biógrafos pensem obviamente que Francisco é Francisco e, por isso, quando chega a Roma, vai diretamente ter com o Papa, na realidade admitem que não era assim tão fácil ser recebido pelo Papa. E aí, evidentemente, Francisco compreendeu que precisava de alguma proteção; não se trata apenas do cardeal Ugolino. No início, havia outros cardeais. Ele sabia quais os cardeais que se interessavam por esta questão da pobreza. Havia cardeais que não se importavam com isso, enquanto outros simpatizavam com esses movimentos populares que defendiam a prática da pobreza, e assim ele encontrava aqueles que partilhavam dessa visão. Ugolino foi, certamente, um dos que compreendeu que a Igreja precisava destes movimentos, destas pessoas, para reconquistar os fiéis, para os fazer compreender que, mesmo que o papa e os bispos vivam em palácios e estejam cobertos de jóias, a Igreja não se esqueceu da pobreza e que, dentro da Igreja, havia quem praticasse a pobreza extrema. Ugolino certamente compreendeu isso, e compreendeu também que estas pessoas precisavam de ser orientadas. Isto é muito claro, em particular, com Clara, com o movimento feminino, porque no início os franciscanos e as franciscanas tinham uma ligação muito forte. Os primeiros testemunhos externos que temos sobre eles incluem aquela carta de Jacques de Vitry, que era francês e não conhecia os franciscanos. Chega a Perúgia, encontra-os e descreve-os como um movimento de irmãos e irmãs, um movimento de homens e mulheres. Quando Jacques de Vitry os descreve, não estão sempre juntos; os homens vão pregando, as mulheres ficam em casa, mas é um movimento único. O cardeal Ugolino é muito claro: para evitar problemas, escândalos e críticas, a presença de mulheres é aceitável, mas estas devem permanecer no claustro. E é isso que ele impõe: impõe o claustro a Clara. Também quis impor-lhe que não fosse demasiado pobre, porque a vida enclausurada é boa, mas depois é preciso viver, e Clara lutou toda a vida para obter o direito de ser totalmente pobre. Ugolino teve enorme papel na gestão e normalização deste movimento.
Um momento da vida de Francisco que está presente no imaginário popular, é a ida ao Egito e o encontro com o sultão. Em última análise, ele procuraria o martírio, mas depois tenta sim a conversão do sultão. A ideia de diálogo entre religiões, que pode estar presente nesta história, é uma interpretação posterior?
Sim, o que o Francisco faz é excecional. Temos também testemunhos independentes, não só nas biografias de Francisco, mas também noutros textos, como a carta de alguém que estava no acampamento dos cruzados e que diz: “Eis este movimento de pessoas pobres, o seu mestre foi falar com o sultão.” Diz também que serviu pouco propósito, mas mesmo assim foi visto como algo excecional, sem dúvida. Não há dúvida histórica, precisamente porque temos provas independentes de que ele foi. Sejamos claros, é excecional que um clérigo católico do campo dos cruzados tenha ido ter com o sultão. Estávamos durante uma Cruzada. O sultão do Egito, aliás, tinha súbditos cristãos. O Egito estava cheio de cristãos, e ainda hoje há muitos. Nessa época, o sultão do Egito conversava provavelmente diariamente com bispos cristãos do seu reino. Mas alguém que vem do campo dos invasores, dos que chegam da Europa, isso é realmente singular. Quanto ao martírio, é uma das coisas que também me intrigam, porque os biógrafos de Francisco, ao relatarem a sua visita ao sultão, repetem que ele procurava o martírio desde o início e que até as suas anteriores tentativas de viajar visavam o martírio.
Procurava-o mesmo?
Não sei se ele realmente tinha isso em mente, e talvez tivesse, porque faz parte da cultura cristã da sua época, ou se não são os biógrafos que têm de o situar dessa forma, porque o facto é que, quando ele se apresenta ao sultão, o martírio já não é mencionado, e ninguém nos diz que Francisco está desapontado porque o sultão não o martirizou. A conversa muda; quando aparece perante o sultão, o martírio desaparece da cena, e em vez disso quer falar com o sultão, quer convertê-lo. Ora, este é um daqueles casos em que Francisco faz algo tão grandioso que todas as épocas podem encontrar algo de familiar nisso. Hoje estamos a forçar a interpretação, se falarmos de um precursor do diálogo, porque não vai dialogar com o sultão, vai convertê-lo. Não se trata de se colocar no mesmo patamar, ele vai dizer “nós temos razão”, mas isso não funciona.
Outra coisa que vemos hoje neste encontro é o pacifismo?
Sim. Isso está inegavelmente presente. Mas seria errado pensar que ele queria criticar os Cruzados, porque outros episódios nos mostram que ele admira os cruzados, por eles enfrentarem o martírio lutando. Ele chora os seus mortos, eles fazem-no pensar em Carlos Magno, Rolando, os Paladinos, Roncesvales, estas coisas que ele leu na sua outra vida, quando era jovem, estas coisas que ele ouviu os jograis cantarem enquanto jantava fora, estas são as canções de gesta. Ele lembra-se disso, por isso não critica os cruzados. Por outro lado, Francisco fez muitas coisas por iniciativa própria sem criticar os outros. Nunca criticou os ricos. Aliás, disse que devemos honrar os ricos. Mas ele estava a fazer outra coisa, e, na minha opinião, é o mesmo com a Cruzada. Não critica os cruzados, mas está a fazer outra coisa, a ser diferente.
No seu livro, também fala sobre milagres. Francisco ficou famoso por ter realizado muitos, e é verdade que tinha uma relação especial com os animais, mesmo que o famoso episódio do lobo de Gúbio seja apócrifo.
Nem sempre é fácil discernir o que é verdade e o que não é naquilo que nos contam. É impossível saber se a cigarra estava realmente na sua mão, ou se a lebre se refugiou realmente no seu colo. É difícil saber se cada episódio individual é verdadeiro. No entanto, os biógrafos que escreveram logo após a sua morte e que o conheceram recordam muitos desses encontros com animais. Parece improvável que se trate apenas de uma invenção. E há quem estude estas coisas - há uma série de académicos que estudam as hagiografias cristãs - e afirmam que sim, domesticar animais, ser capaz de conviver com animais selvagens que não lhe fazem mal, é típico de muitos santos. Portanto, este é um recurso hagiográfico. Mas, na realidade, antes do episódio do lobo, Francisco não se relacionava com animais selvagens. Os milagres são que os animais não têm medo dele, os pássaros, a pequena lebre não tem medo dele, os pássaros vêm cantar no telhado da sua casa - são coisas aqui e ali, ele tinha certamente um amor especial pelos animais. Há quem diga que especialmente pelos cordeiros, pois o cordeiro é o símbolo místico de Jesus. Muitos dizem que foi pelos pássaros, pela cotovia que sobe aos céus a cantar. Isso é certamente verdade; enquadra-se numa discussão mais vasta, a saber, um dos aspetos importantes da espiritualidade de Francisco é o amor declarado, deliberado e desejado por tudo o que Deus criou. E aqui, mais uma vez, nós, modernos, com um pouco de exagero, falamos de ambientalismo. Não é o nosso ambientalismo, porque ele não vive numa época em que a natureza está em perigo, mas é o amor por tudo o que existe, porque ele vê a marca de Deus em tudo. Não sabemos se é verdade o que dizem, que quando caminhava não só afastava os insetos, evitando pisá-los, como também tentava não danificar as pedras pisando-as. Não sabemos se é verdade, mas pode ser. No meio de tudo isto, que durante mais de 50 anos nunca ninguém ouviu falar do lobo de Gúbio, é estranho. Décadas durante as quais foram enviadas circulares de Assis dizendo: “Se souberes de milagres de Francisco, envia-nos, escreve-nos tudo o que sabes sobre Francisco, especialmente os milagres”. E durante mais de 50 anos, ninguém soube nada sobre o lobo de Gúbio. É um claro caso apócrifo.
A canonização de Francisco estabelece-se muito rapidamente, mas não só a de Francisco, mas também a de Clara, ou de António, o franciscano português. Há alguma explicação?
Sim, penso que é porque estamos a lidar com figuras que usufruíram de uma enorme fama em vida, com muitos seguidores. E o papa nem sempre foi quem decidia quem era santo e quem não era. De facto, durante os primeiros mil anos do cristianismo, quando não existia um governo central em Roma, foram os fiéis que decidiram quem era santo. Quando um grande bispo, fundador de um mosteiro ou pessoa notável pela sua caridade falecia, os fiéis afirmavam imediatamente que ele realizava milagres, iam ao seu túmulo pedir graças e, assim, os santos nasciam sem qualquer necessidade de autorização. Na época de Francisco, o papa, assim como assumiu muitas outras prerrogativas na governação da Igreja, representava uma novidade, nomear os bispos. Antes, não era o papa que nomeava os bispos; eram eleitos no local. Ele decide quem é santo. Mas perante figuras como Francisco, Clara, António, não se pode dar ao luxo de esperar, e nem sequer de realizar um julgamento que, no final, poderia dizer: “Mas não temos a certeza”. Não, ele já o sabe de antemão: “Estes são santos sem qualquer dúvida e, por isso, devem ser proclamados imediatamente”.
Sabe-se que houve em 1221 uma grande reunião em Assis onde estiveram os futuros São Francisco e Santo António. Chegou Francisco a conhecer António?
Foi transmitido o texto de uma carta escrita por Francisco a “irmão António, meu bispo”, e todos os historiadores se interrogam sobre o que significa “meu bispo”, porque é que ele lhe chama assim? Talvez porque o bispo é quem prega, e por isso Francisco está a aludir às grandes capacidades de pregação de António. Ora, porém, é preciso dizer que esta carta, que já não existe, foi transcrita e sempre considerada autêntica, mas não podemos ter a certeza absoluta da veracidade. Em todo o caso, seria normal que se conhecessem, pois durante muito tempo, qualquer frade que entrasse para a Ordem tinha de se apresentar pessoalmente a Francisco. Com o tempo, isso deixou de ser possível, mas Francisco participava de facto nesses grandes encontros, pelo que, mesmo sem provas, é provável que se conhecessem.
António era um grande pregador. Como via Francisco isso?
É interessante, neste sentido, que Francisco tenha uma relação contraditória com os seus frades pregadores, e Santo António seja, por assim dizer, o expoente máximo da pregação franciscana. Francisco é um homem cheio de contradições. É contraditório por esta razão, porque, por um lado, deseja que os frades preguem, falem às pessoas, e isso é ótimo, mas também insiste que é mais importante dar um bom exemplo, e que se um frade não prega, mas dá um bom exemplo de uma vida verdadeiramente religiosa, de uma relação mística com Deus, esse é o melhor frade. Mas, ao mesmo tempo, também diz que é preciso pregar, é preciso falar às pessoas. Nesta altura, os frades dizem que, “se tiver de pregar, terei de ler livros, terei de me preparar”, e Francisco não quer. Não quer, tanto porque os livros são muito caros e eles têm de ser pobres, como porque Francisco está convencido de que aqueles que estudaram não podem realmente sentir-se iguais aos mendigos e aos leprosos. Aqueles que estudaram tornam-se muito presumidos, e muitos recordam-se de Francisco dizer: “Sim, devem falar com as pessoas, mas não há necessidade de ler mil tratados.” Vá e fale como quiser. Agora, porém, António é professor de teologia, e nesta célebre nota, Francisco diz-lhe: “Fico contente por ensinares teologia aos meus frades, mas tem cuidado para não te esqueceres da pobreza, da humildade e assim por diante.” Assim, vemos um Francisco que compreendeu que não se pode dizer não ao ensino, mas a teologia ainda o incomoda. Neste sentido, Francisco e António não estão totalmente de acordo.

