Quando evocamos os filmes através dos quais nasceu a Nova Vaga francesa, quase sempre citamos uma lendária trilogia de 1959/60: Os 400 Golpes, de François Truffaut, Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais, e O Acossado, de Jean-Luc Godard. São referências artísticas incontornáveis, com um valor simbólico universal e insubstituível. Seja como for, faz sentido alargar um pouco as coordenadas da memória e nomear também, por exemplo, Duas Horas na Vida de uma Mulher (1961), título cuja fusão de poesia e realismo pode servir de cartão de visita da obra imensa da sua realizadora, Agnès Varda (1928-2019). É essa obra que vai estar em foco num ciclo retrospectivo que começa quinta-feira, em Lisboa, no Cinema Nimas, decorrendo até 9 de setembro — a partir de sábado, 1 de agosto, estará também no Porto, na programação do Cinema Trindade; outras salas acolherão o evento, nomeadamente o Teatro Campo Alegre (Porto), o Theatro Circo (Braga), o Cinema Charlot (Setúbal), o CAE/Sala João César Monteiro (Figueira da Foz), e o TAGV (Coimbra). .Dois aspectos poderão ajudar a inscrever Duas Horas na Vida de uma Mulher no “espírito” da Nouvelle Vague. O primeiro é, obviamente, a rua como cenário de eleição, refazendo o mapa das cidades que habitamos (a começar por Paris, claro), as imagens que delas guardamos ou, de alguma maneira, inventamos — vale a pena recordar que o filme se pode definir como uma viagem íntima em que a personagem central, Cléo (Corinne Marchand), aguarda o resultado de um exame médico, deambulando pela cidade durante duas horas... O segundo aspecto é a musicalidade de tudo isso, através de uma câmara capaz de se envolver, com pudica sensualidade, com os corpos dos intérpretes — sem esquecer que a música propriamente dita tem assinatura de Michel Legrand, compositor cujo trabalho é também matéria vital do cinema de Jacques Demy que foi casado com Varda, de 1962 até à sua morte, em 1990. Ficção e documentário A estreia de Varda nas longas-metragens ocorrera alguns anos antes. Em 1955, antes de ter dirigido qualquer curta-metragem, lançara La Pointe Courte, um drama rodado no bairro dos pescadores da cidade de Sète, no sul de França, com Silvia Monfort e Philippe Noiret nos papéis principais. Por vezes secundarizado face ao duradouro impacto de Duas Horas na Vida de uma Mulher, distingue-se por um misto de perturbação e encanto que resulta do cruzamento de uma genuína vibração melodramática com os pormenores de uma visão documental. Tais elementos não seriam estranhos à posterior produção francesa, a ponto de o historiador Georges Sadoul ter baptizado La Pointe Courte como “o primeiro verdadeiro filme da Nova Vaga”. Em 2008, num ensaio sobre o seu lançamento num DVD da Criterion Collection, Ginette Vincendeau lembrava que a sua peculiar posição histórica tem justificado que, com sugestiva ironia, Varda seja apelidada de “mãe”, ou até “avó”, da Nova Vaga. .O documentarismo será, talvez, o domínio através do qual Varda se tornou conhecida dos espectadores mais jovens da atualidade. Afinal de contas, com Olhares Lugares obteria mesmo uma nomeação para os Óscares de 2018 (na categoria, precisamente, de melhor documentário). Co-realizado com o fotógrafo francês Jean-René, que assina como JR, nele seguimos uma viagem dos autores pelo mundo rural francês; o resultado é um documentário ambíguo, já que o seu objecto fulcral será menos a realidade contemporânea desse mundo e mais a memória dispersa nos lugares e nos rostos — como contraponto, surgem as fotografias de JR em formato gigante, “sobrepondo-se” às fachadas das casas como um comentário insólito em que hiper-realismo rima com nostalgia. .O filme não ganhou o Óscar, mas Varda foi distinguida no mesmo ano com uma estatueta honorária. Ao entregar-lhe o prémio, Angelina Jolie celebrou o cinema de Varda como um universo capaz de exaltar “a beleza e a nobreza da vida quotidiana”, nunca deixando de ser um testemunho singular, porque enraizado em experiências eminentemente pessoais. Aliás, pode dizer-se que, com As Praias de Agnès (2008), exercício introspectivo marcado também pelo seu gosto pela fotografia, Varda se apresentara como narradora de uma história plural, pública e privada, que tivera um momento fulcral em Os Respigadores e a Respigadora (2000): o labor daqueles que, nos campos, apanham as espigas que ficaram por colher nas searas leva-a a sugerir que, à sua maneira, os filmes são também a fixação de imagens (e sons) que importa não deixar desaparecer na vertigem contemporânea da informação. A paixão de Varda pelas paixões humanas (não há redundância nesta “repetição”) acabou por funcionar como dupla força criativa. Em última instância, não existe fronteira estável, nem sequer obrigatória, entre “ficção” e “documentário” — fazer um filme é auscultar, ver e ouvir a pulsação das pessoas que a câmara escolhe, observa e, de alguma maneira, eterniza. Recordemos que ela tanto fez filmes sobre uma rua em que viveu (Daguerreótipos, 1975), como sobre os murais das ruas de Los Angeles (Mur Murs, 1980). Na qualidade de metódica e muito terna biógrafa de Jacques Demy, realizou Jacquot de Nantes (1991) e As Donzelas Fizeram 25 Anos (1992) — este, como o título indica, uma revisitação dos espaços em que Demy filmou As Donzelas de Rochefort (1967), com as irmãs Françoise Dorléac e Catherine Deneuve..Felicidade e solidão Nada disto pode ser separado de um infinito amor pelo trabalho dos intérpretes, em particular das atrizes de Varda. Foi ela que, em 1965, reuniu Marie-France Boyer, Claire Drouot e Jean-Claude Drouot, em A Felicidade, um conto moral que, embora naturalmente ligado às convulsões de valores da época em que surgiu, continua a ser um dos filmes mais belos (e também mais misteriosos) que já se fizeram sobre a entrega amorosa e o território conjugal. Foi também Varda que, em 1985, filmou Sandrine Bonnaire em Sem Eira nem Beira, retrato pungente de uma jovem à deriva, longe de qualquer esquematismo “sociológico”, expondo formas de solidão que ecoam no nosso presente. .O ciclo dedicado a Varda apresenta um total de 35 títulos (15 curtas e 20 longas-metragens), em cópias restauradas, num panorama excepcional para conhecer a pluralidade interior, e também a unidade conceptual, do seu universo. Nessa medida, nele ecoam as convulsões temáticas e estéticas de um contexto de produção para sempre marcado pelas transformações práticas e teóricas das décadas de 1950/60. O Cinema Nimas apresenta um ciclo paralelo (“Agnès Varda em contexto”), em que, além de alguns títulos dos “pais” da geração da Nova Vaga (Renoir, Rossellini, etc.), será possível ver ou rever obras emblemáticas daquelas décadas. Entre as mais raras, destaquemos Pedido de Divórcio (Claude Chabrol, 1959), Dois Homens em Manhattan (Jean-Pierre Melville, 1959) e Paris Nous Appartient (Jacques Rivette, 1961) — não falta, claro, a devida evocação de Demy com Lola (1961) e Os Chapéus de Chuva de Cherburgo (1964). .'Nouvelle Vague'. Godard, aqui e agora