Agatha Christie foi uma entusiasta da prática de surf .
Agatha Christie foi uma entusiasta da prática de surf .

Agatha Miller revela Agatha Christie

Um autorretrato feito pela mais famosa escritora de policiais de sempre, que conta a sua história pessoal, os maridos, as viagens e explica como se fazem grandes sucessos literários.
Publicado a
Atualizado a

Cinquenta anos após a morte da mais popular autora de romances policiais, Agatha Christie (1890-1976), regressa amanhã às livrarias a sua Autobiografia. 700 páginas que pretendem desfazer a ignorância dos leitores sobre os acontecimentos da sua vida – mesmo que oculte o seu misterioso desaparecimento por onze dias em 1926 – e que expõe uma boa parte da personalidade de quem vendeu dois mil milhões de exemplares (J.K. Rowling atingiu 600 milhões) dos livros que escreveu.
Autobiografia começa com um prólogo sobre a sua estada em Nimrud (Iraque) em 1950 e a descrição da Casa da Agatha, habitação onde vivia com o marido arqueólogo durante as escavações deste na região, na qual escreveu alguns livros e se inspirou para sucessos com Morte no Nilo. Christie controla de imediato a narrativa e diz: “Autobiografia é uma palavra demasiado grandiosa. O que eu quero fazer é mergulhar a mão num caixote de brindes e tirar um punhado de memórias sortidas.” Inicia essas memórias com a “infância muito feliz”, em que havia a presença de um pai sem características especiais e uma mãe “com uma personalidade enigmática e cativante”. Também descreve a sua primeira memória: “Lembro-me bem do meu terceiro aniversário”. Vai entretendo o leitor como se se desenvolvesse um policial e um pouco mais à frente é incapaz de fugir a um dos seus principais traços literários: “Foi pouco antes de fazer cinco anos que conheci pela primeira vez o medo.”

Nascida Agatha Miller, acrescentou o apelido Christie por casamento com Archibald Christie, foi uma das primeiras mulheres surfistas, e deu início à sua carreira em 1916 com O Misterioso Caso de Styles, livro que foi recusado sucessivamente por seis editoras; seguiram-se cinco novos policiais, que desembocaram no seu primeiro grande sucesso dez anos depois: Assassinato de Roger Ackroyd. Diga-se que o famoso detetive Hercule Poirot surge logo no seu primeiro livro, e que o ano em que se tornou definitivamente conhecida do grande público não foi o melhor da sua vida, devido à morte da mãe e à infidelidade do marido e, em função dessas tragédias, teve o seu primeiro bloqueio da página em branco.

Agatha Christie era comedida na sua relação com a imprensa, mas a Rádio BBC conseguiu uma rara entrevista em 1955, que voltou a tornar pública no passado dia 12, quando passaram 50 anos sobre a sua morte. Entre as novidades que proferiu então estava a que foi escolhida para título: “O tédio é o melhor para nos pormos a escrever”. Sobre a escrita, define três meses como o tempo correto para escrever um livro (contra as seis semanas de Ian Fleming), que o seu profundo conhecimento sobre os múltiplos envenenamentos que inclui nos livros (41 mortes por essa razão) se deve a ter sido enfermeira voluntária em França durante a I Guerra Mundial e ter acesso à farmácia do hospital e que nunca termina as suas histórias sem uma grande final na presença dos suspeitos. Uma das revelações da entrevista à BBC é a sua recusa em se deixar catalogar: “Pode ser uma grande deceção, mas não tenho um método único para escrever.” Na introdução à entrevista fica registado que meio século após a sua morte ainda permanece um “enigma” e uma pessoa tão complexa como os argumentos dos seus livros.

Não será por acaso que Agatha Christie começa a Autobiografia no cenário de Nimrud, afinal é o campo arqueológico que lhe traz das melhores recordações: o segundo casamento, as viagens e a satisfação no interesse sobre a cultura do Médio Oriente. A entrevista à BBC e a Autobiografia confirmam esse período de felicidade de Agatha Christie, contabilizando a escrita de 17 romances policiais nesse período. A escritora recorda nestas memórias com detalhe o seu segundo casamento com Max Mallowan como se fosse uma jovem deslumbrada: “Max planeara a lua de mel completamente sozinho; ia ser uma surpresa para mim”.  

Também revê a adaptação dos seus romances ao teatro, situação que nem sempre corria pelo melhor no que respeita aos encenadores: “[Michael Morton] tinha muita experiência mas a sua primeira sugestão desagradou-me muito: retirar uns 20 anos à idade de Poirot, chamar-lhe Beau Poirot e ter muitas raparigas apaixonadas por ele. Nessa altura, eu estava tão presa a Poirot que já sabia que o teria comigo para o resto da vida, pelo que me opus violentamente”.

Não ignora o seu pseudónimo Mary Westmacott e o prazer de ter escrito sob esse nome Ausente na Primavera: “Foi um livro que me deixou completamente satisfeita. Era tecnicamente difícil e com uma crescente sensação de intranquilidade. Escrevi-o em apenas três dias, não era muito grande, porque estava dentro de mim há uns sete anos.” Também não esquece de relatar os bastidores da sua peça de maior sucesso, A Ratoeira, que ao fim de várias décadas em exibição só foi interrompida devido à pandemia de covid-19.

O epílogo desta Autobiografia retoma o prólogo: a Casa de Agatha em Nimrud. Agatha Christie tem 75 anos e diz que “está pronta para aceitar a morte”. Ainda viverá mais uma década, jantará com a Rainha de Inglaterra e comprará um carro Morris Cowley… e venderá mais uns milhões de livros.

AUTOBIOGRAFIA

Agatha Christie

ASA

Elsa T.S. Vieira (tradução)

704 páginas

Outras novidades literárias

OS GATOS DE ITÁLIA

É no Japão que proliferam os romances com gatos (e livrarias), com todo o género de histórias inimagináveis. Piergiorgio Pulixi decidiu fazer policiais com esses animais (e estabelecimentos) e torná-los personagens em cenários de crimes a que assistem, se bem que são seres humanos os verdadeiros protagonistas. A história é escorreita, sempre a querer-se saber o que vai acontecer no capítulo seguinte, e as soluções que o autor cria fazem com que se leia com velocidade e sem enfado. O autor escolhe um lote de personagens do mundo editorial bem caricaturados e um escritor de policiais que está em fim de carreira e quer-se despedir em grande. Diga-se que se estranha de início a antipatia (e estupidez) constante do livreiro protagonista, portanto é preciso que o leitor não se irrite e vá continuando a leitura.     

SE OS GATOS FALASSEM

Piergiorgio Pulixi

Clube do Autor

310 páginas


UMA FAMÍLIA INDIANA

A autora de A Herança apresenta assim o seu livro: “O meu terceiro romance é um thriller psicológico sobre umas férias em família que terminam num assassinato”. Estamos perante o terceiro livro de Trisha Sakhlecha, uma jovem (esconde a idade a todo o custo) que se apresenta como “apaixonada e por moda e escrita” e que em vez de escolher Nova Deli para reunir os Agarwals coloca-os na Escócia. A intriga é simples: o patriarca vai dividir a sua fortuna. A partir daí acontece tudo o que é possível entre pais, filhos, maridos e mulheres, sendo que, como o leitor já vai avisado pela capa, termina com o assassinato de um dos personagens. A história está bem montada, mas não se destaca no que respeita à originalidade de dramas familiares. 

A HERANÇA

Trisha Sakhlecha

Singular

318 páginas

Agatha Christie foi uma entusiasta da prática de surf .
Patrícia Reis: “Todos têm razão e não há espaço para a dúvida. É como se a incerteza fosse uma fragilidade”

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt