A voz de Aretha Franklin num filme que demorou 46 anos a concluir

Em 1972, Sydney Pollack filmou as gravações do álbum "Amazing Grace", de Aretha Franklin. O filme homónimo só ficou concluído em 2018 graças à ação do produtor e compositor Alan Elliott que partilhou algumas memórias com o DN.

Para a história, Amazing Grace ficará como um filme que demorou 46 anos a concluir (chegando agora ao mercado português, cerca de dez meses passados sobre a sua revelação num festival de cinema documental, em Nova Iorque). Foi em 1972 que Sydney Pollack filmou a gravação de um dos mais lendários álbuns de Aretha Franklin (1942-2018): Amazing Grace, precisamente, uma celebração da música gospel cujo registo ocorreu numa igreja de Los Angeles, sob a égide do reverendo, compositor e cantor James Cleveland, com a participação do grupo coral (Southern California Community Choir) por ele fundado.

Na altura, o projeto ficou bloqueado por uma razão eminentemente técnica. Talvez para evitar qualquer perturbação da performance, Pollack decidiu filmar com as suas quatro câmaras de 16 mm sem recorrer às clássicas claquetes que sinalizam o começo (ou o fim) de cada fragmento de película registado em continuidade. Consequência prática: não foi possível fazer a sincronização de imagens e sons, ficando o material "esquecido" nos cofres da Warner Bros.

De tal modo que a possibilidade de concluir o filme só voltou a ser encarada quando, em 2007 (cerca de um ano antes da morte de Pollack), esse material foi adquirido pelo produtor e compositor Alan Elliott. Na prática, as dificuldades originais já estavam superadas. É o próprio Elliott que o confirma num breve diálogo com o DN (através de e-mail): "Em boa verdade, não tive quaisquer problemas técnicos. Quando comecei a montagem, o grande problema de sincronização já estava resolvido. Depois, tratou-se de enfrentar os desafios habituais de qualquer filme: como contar a história, que estrutura estabelecer, como criar um fluxo narrativo..."

As filmagens são um pequeno prodígio de agilidade, participando por inteiro do espírito de celebração que marcou as gravações. Dito de outro modo: a performance musical é, aqui, indissociável de uma vivência eminentemente religiosa. Ou como sublinha o próprio Elliott: "Sinto que a relação de cumplicidade entre Aretha, a banda e o coro é maior que a soma das suas partes - é como se fosse: 2+2=5... As canções, os arranjos, as harmonias... é tudo inexplicável."

Através da música, vivia-se, afinal, uma conjuntura em que o cinema desempenhava também um fundamental papel de divulgação e envolvimento. "O sucesso de filmes como Woodstock ou Monterey Pop", recorda Elliott, "abriu caminho para a conjugação de cinema e música moderna - mais do que isso, terá ajudado a preencher um vazio gerado pelo desaparecimento dos musicais clássicos." Isto sem esquecer, claro, que Pollack era já um cineasta com um lugar consolidado no sistema de produção de Hollywood, tendo assinado títulos brilhantes como A Flor à Beira do Pântano (1966), Os Cavalos Também se Abatem (1969) ou As Brancas Montanhas da Morte (1972).

Para Elliott, que agora co-assina o filme com Pollack, a questão de saber se as gerações mais jovens mantêm, ou não, uma relação especial com o legado de Aretha Franklin não se coloca. Na sua perspetiva, importa colocar essa mesma questão de modo mais abrangente: "Creio que a sua herança decorre da sua força e do seu génio... e qualquer um pode relacionar-se com tal intensidade."

Enfim, estamos perante a genuína revelação de um documento precioso, mesmo se já não podemos a ele aceder nos moldes em que, em 1972, foi pensada a sua difusão. Porquê? Porque, como Elliott recorda, Amazing Grace chegou a ter um lançamento previsto com Super Fly (1972), uma realização de Gordon Parks Jr. que ficou como símbolo exemplar do fenómeno da "blaxploitation", quer dizer, um sub-género da década de 70 que, de forma mais ou menos irónica ou caricatural, em particular no género policial, promoveu a proliferação de personagens afro-americanas em narrativas tradicionalmente dominadas por figuras brancas. Foi um fenómeno visceralmente "made in USA" que, em todo o caso, agora, nos faz sentir saudades das chamadas "sessões duplas"...

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