Os cinéfilos de Cannes estão preocupados. Não exatamente com os filmes: a 79.ª edição do maior festival de cinema do mundo começa esta terça-feira, dia 12 de maio, e o mínimo que se pode dizer sobre a galeria de autores reunidos na seleção oficial (Pedro Almodóvar, Asghar Farhadi, Hirokazu Kore-eda, etc.) é que suscita muitas especulações positivas. A preocupação é meteorológica: a chuva, por vezes forte, está aí e parece querer marcar os próximos dias, dificultando o ziguezague dos profissionais pelas múltiplas salas do certame. A tradição garante que chove sempre durante o festival, mas não tanto...Enfim, acontece que a tradição também se renova. E se a chuva não passa de um pretexto para fazer algum humor, importa lembrar que Cannes renovou o seu panorama tradicional em 2024, quando criou a chamada Competição Imersiva. A saber: um espaço de programação que transcende as fronteiras tradicionais da produção e exibição do próprio cinema, propondo experiências em acelerada evolução tecnológica, dos vídeos de grande escala até à Realidade Virtual. Este ano com um especial destaque: uma participação portuguesa, Lúcido, com assinatura do artista multidisciplinar Vier e produção da COLA AnimationEm declarações ao DN, Vier explica o processo criativo de Lúcido: “Começou com uma pintura, uma imagem que tanto mostrava um rapaz assombrado por uma mão saindo de um portal como, de outra perspetiva, um rosto em primeiro plano de um twink emocionado. É a imagem do cartaz atual. A essa imagem aliei o meu interesse no potencial narrativo do fenómeno do sonho lúcido. Quando é que queremos estar lúcidos? Em que circunstâncias procuramos controlo? E quando, em vez disso, preferimos entregarmo-nos à fantasia, abraçando o ilógico, habitando mundos nos quais a morte não existe? Destas questões nasceram mais imagens duplas e uma narrativa sobre escapismo, luto e family queer escolhida.”Bruno Caetano, administrador da COLA e um dos produtores do projeto, sublinha o valor da presença em Cannes: “A importância de uma seleção num festival como este é, acima de tudo, a validação do trabalho que o Vier e a incrivelmente talentosa equipa que trabalhou neste projeto fizeram.” Isto porque Cannes é, de facto, uma montra universal: “Sermos um dos nove projetos selecionados, entre centenas, é surpreendente só por si. Mais do que este feito, voltando novamente a Cannes após a premiação do Ice Merchants, de João Gonzalez em 2022, seja o que for que o futuro possa trazer, é só mais um motivo para podermos continuar a celebrar.”O que, inevitavelmente, suscita uma pergunta metódica sobre a difusão destes novíssimos objetos que necessitam algo mais, sobretudo diferente da tradicional sala de cinema. Bruno Caetano lembra a necessidade de planificar o futuro: “Sendo este o primeiro projeto da COLA Animation em Realidade Virtual, já tínhamos produzido vários em realidade aumentada, temos agora que, juntamente com um distribuidor que esperamos encontrar em breve, planear os próximos passos. Felizmente, uma estreia mundial num festival como Cannes ajuda imenso a dar visibilidade a esta obra, destacando-a internacionalmente, e virando muitos e bons olhos na sua direção.” E o que se segue? “Após Cannes, o próximo passo será, sem dúvida, partilhar este belíssimo projeto em Annecy, o maior festival de animação do mundo.”A Realidade Virtual será, então, um prolongamento da linguagem do cinema, ou uma linguagem totalmente distinta, abrindo outras perspetivas artísticas e comerciais? Para Vier, não há contradição, mas abertura de diferentes modos de encenação e comunicação: “As linguagens de meios artísticos sobrepõem-se. A realização para Realidade Virtual combina dinâmicas de realização cinematográfica tradicional com influências de teatro imersivo e de design de experiências interativas. Ao realizar Lúcido, interessou-me pensar como poderia utilizar as particularidades de Realidade Virtual, particularmente a inclusão do olhar e do corpo da pessoa participante, para comunicar de forma original.” .Das curtas à realidade virtual.Cannes à procura dos futuros clássicos