No sábado, ao princípio da noite, Tilda Swinton reapareceu em Cannes, desta vez não para acompanhar um filme, antes para entregar a Palma de Ouro ao vencedor da 79.ª edição do festival. Assim aconteceu, consagrando o romeno Cristian Mungiu com o brilhante Fjord, não sem antes fazer um breve discurso sobre a importância histórica e social do cinema. O tom dominante das palavras da atriz escocesa talvez se pudesse aplicar às intervenções da maior parte dos profissionais que passaram pelo palco do Grande Auditório Lumière – com uma afirmação concludente: “Vivemos e respiramos política.”Faz sentido dizer que as convulsões do mundo atual se refletiram no ambiente geral do festival, ou melhor, nas componentes políticas que marcaram uma parte significativa dos filmes exibidos. Não que tais filmes, melhores ou piores, fossem um reflexo automático do alinhamento dos noticiários televisivos. O certo é que não será muito frequente podermos descobrir um lote de obras de tão variadas origens culturais que, directa ou indirectamente, nos remetem para o nosso aqui e agora – mérito inegável da seleção proposta pela equipa do delegado geral do festival, Thierry Frémaux.Se o filme de Mungiu arrisca colocar em cena um conflito moral enredado numa clivagem religiosa, enquanto o também admirável Fatherland, de Pawel Pawlikowski, recorda a mágoa do escritor Thomas Mann numa Alemanha já dividida pela Guerra Fria, houve casos em que outros cenários de guerra foram sentidos como espelhos ambíguos das feridas do nosso presente. Penso, por exemplo, no filme de László Nemes, Moulin, sobre o líder da resistência francesa, Jean Moulin, ou ainda em Notre Salut, de Emmanuel Marre, reavaliando as cedências do governo de Vichy ao invasor nazi. Sem esquecer as memórias da Guerra Civil espanhola que atravessam La Bola Negra, da dupla Javier Calvo/Javier Ambrossi, numa evocação com algo de superprodução televisiva, embora devolvendo a personagem de Federico Garcia Lorca a um fundamental lugar de inspiração poética e, justamente, política.A política foi, de facto, a bandeira de Cannes, embora tal afirmação deva ser relativizada. Dito de outro modo: nas salas de projeção da Côte d’Azur, a política emergiu, não como um sistema de discursos militantes, antes como uma defesa da pluralidade artística. Concordaremos muito ou pouco com as escolhas do júri, mas foi o seu presidente, o sul-coreano Park Chan-wook, que na conferência de imprensa de apresentação do júri (logo na abertura do festival), teve o cuidado de separar as águas: “É estranho opor arte e política. Um filme político nunca deve ser considerado como inimigo do cinema. Mas um filme político sem verdadeira dimensão artística torna-se propaganda. Pelo contrário, um grande filme, mesmo não político, nunca deve ser ignorado.”Podemos, talvez, lamentar que o palmarés tenha ignorado filmes como Histórias Paralelas, de Ashghar Farhadi, ou Garance, Jeanne Herry, afinal crónicas de um quotidiano que lançam a primordial interrogação política. A saber: como convivemos uns com os outros? Seja como for, Cannes/2026 termina com a sensação gratificante de que, mesmo através de muitos problemas de produção e consumo, o cinema persiste como uma arte multifacetada, capaz de nos ajudar a olhar o mundo à nossa volta. Os corpos de que se faz o cinemaEis algumas imagens soltas de Cannes que a memória retém, não por razões “temáticas” ou “teóricas”, apenas porque o cinema é também essa máquina misteriosa que suscita a razão instintiva dos nossos olhares. Recordo, por exemplo, essa paródia/ensaio sobre as convenções do cinema de terror que é Teenage Sex and Death at Camp Miasma, da americana Jane Schoenbrun, logo a abrir a secção “Un Certain Regard”. Ou ainda, na competição, os casos de Soudain, do japonês Ryusuke Hamaguchi, e Garance, da francesa Jeanne Herry – o primeiro, convidando-nos a percorrer os espaços íntimos de uma instituição para idosos, muitos deles com sérios problemas de saúde; o segundo acompanhando, ponto por ponto, a saga angustiada e angustiante de uma jovem mulher drasticamente dependente do álcool (espantosa composição de Adèle Exarchopoulos).Que liga estas memórias? Pois bem, a irredutibilidade dos corpos. Não os corpos estereotipados da telenovela, nem os corpos do Big Brother televisivo, prisioneiros da impostura técnica e naturalista que os regista. Antes os corpos como entidades que fazem uma personagem ser aquilo que é, mas também aquilo que não sabe que está a ser. Como uma espécie de remate simbólico de tudo isto, pudemos ver, a concluir a secção de ante-estreias (“Cannes Première”, onde também esteve o Aquí, de Tiago Guedes), o sedutor The End of It, primeira longa-metragem da espanhola Maria Martínez Bayona, com Rebecca Hall no papel central.. O clima é de ironia de ficção científica. Num futuro não identificado, a medicina tornou os humanos virtualmente imortais: Claire (Hall) é uma vedeta das artes que acaba de trocar o derradeiro osso do seu corpo por um osso artificial, ao mesmo tempo que se prepara para a festa dos seus... 250 anos. Acontece que, para ela, se tornou insustentável a ideia de uma felicidade eterna feita de artifícios mecânicos e sociais, íntimos e sexuais. Ou seja: quer morrer.O filme é tanto mais envolvente quanto não reduz a sua figura central a líder de uma “revolta”. Nada disso: Claire perdeu, afinal, a noção de que tem um corpo, aliás, de que o seu corpo faz parte de um mistério que é (ou poderia ser) a razão nuclear do desejo de continuar viver. Nesta perspectiva, escusado será dizer que Bayona não quis fazer um filme de “antecipação”: The End of It ecoa, momento a momento, corpo a corpo, nos silêncios do nosso presente..TOP 5 FATHERLAND(competição).Se faz sentido dizer que pela programação de Cannes perpassou um vento histórico que nos levou a revisitar e reavaliar a herança da Segunda Guerra Mundial, então diremos também que o filme do polaco Pawel Pawlikowski é um contundente reflexo de tal dinâmica. Recordando a viagem de Thomas Mann (1875-1955), em 1949, para receber o Prémio Goethe, o filme desnuda as tensões de uma Alemanha já marcada pelos sinais da Guerra Fria através de um realismo austero, singularmente intimista.MERCI D’ÊTRE VENU(Quinzena).Alain Cavalier é o nome que quase sempre nos esquecemos de citar quando recordamos os tempos heróicos da Nova Vaga francesa. E, no entanto, aos 94 anos, ele continua a fazer pequenos/grandes filmes com a sua minúscula câmara de video. Esta é mais uma das suas deambulações privadas, algo secretas, citando pessoas que marcam ou marcaram a sua existência, questionando o poder das imagens, filmando a morte do seu gato — a provar que filmar é uma arte de refazer o mundo.THE MATCH(ante-estreias). Que bom que é ver, descrever, analisar e pensar o futebol sem estarmos sujeitos aos sermões moralistas que a televisão maioritariamente adoptou. Evocando o lendário Argentina-Inglaterra (quartos de final do Mundial de 1986), a dupla de realizadores argentinos — Juan Cabral/Santiago Franco — consegue a proeza de elaborar um fresco histórico em que se torna possível cruzar o poder das imagens, a paixão do jogo e a teia de componentes políticas que marcam qualquer celebração colectiva.SOUDAIN(competição). Subitamente, como diz o título francês (versão inglesa: All of a Sudden), os destinos das personagens que se cruzam numa instituição para pessoas idosas transfigura-se numa odisseia sobre a linha ténue que desenhamos entre a vida e da morte e, mais do que isso, sobre o que é, ou pode ser, a definição utópica de uma comunidade humana. Esta é a estreia do japonês Ryusuke Hamaguchi a filmar em francês, sem esquecer que as cenas no Japão definem um subtil contraponto emocional.FJORD(competição). O cineasta romeno Cristian Mungiu deslocou-se à Noruega para filmar a saga de um casal (ele romeno, ela norueguesa) que, com os seus cinco filhos, protagoniza um perturbante drama moral, a pouco e pouco transfigurado em epopeia legal. A acusação de que os pais terão agredido o seu filho mais velho gera uma câmara de eco em que a descoberta da verdade surge contaminada por diferentes valores religiosos – no sentido mais radical da expressão, eis um visceral filme político..O cinema não desiste do sagrado.Cinema japonês à conquista de Cannes