NOS Alive: A noite dos homens maduros

Arctic Monkeys, Nine Inch Nails e Bryan Ferry foram os grandes vencedores do primeiro dia de festival, num encontro de diferentes gerações que à primeira vista parecia estranho, mas afinal acabou por fazer todo o sentido

Tal como aconteceu com o último álbum Tranquility Base Hotel and Casino, também o concerto dos Arctic Monkeys, que ontem encerraram o palco principal do Nos Alive, dividiu as opiniões do público. Não é que o grupo inglês tenha, de forma alguma, desiludido a enorme multidão que se acotovelava à sua frente, mas para quem esperava a explosão rock de outros tempos talvez tenha ficado a saber a pouco. "Mais parece o filho do Bryan Ferry", comentava um rapaz nas filas da frente, logo mandado calar pela namorada, totalmente embevecida pelo novo look retro do vocalista Alex Turner, à crooner dos anos 70. A verdade é que a banda composta Alex Turner, Matt Helders, Jamie Cook e Nick O'Malley cresceu, acontece a toda a gente.

Os miúdos de Sheffield são hoje uns homens trintões e isso não é bom nem mau, é a vida. E no caso dos Arctic Monkeys o que se perdeu em energia ganhou-se em sofisticação, como se percebeu, especialmente, na interpretação dos temas mais antigos, como 505, Cornerstone, Pretty Visitors, Do I Wanna Know? Ou R U Mine?, o tema com que encerraram o espetáculo e trouxe, mesmo no fim, um lampejo da tal energia pela qual todos suspiravam. Talvez por isso, a opinião de muitos apenas se limitou a constatar o óbvio, como assinalou o tal rapaz no final, perante mais um revirar de olhos da namorada - "está tudo mais lento".

Do mesmo não se poderia queixar durante o concerto dos americanos Nine Inch Nails. Apesar de já ser um respeitável cinquentão, Trent Reznor continua a ter muito rock nas veias e energia para dar e vender, ao contrário do público algo apático que o recebeu inicialmente. Há pessoas assim, que se podem dar ao luxo de não crescer sem tornarem caricaturas de si próprios - e Trent é uma delas. Tudo aqui faz sentido, o rock industrial, a atitude punk e a forma visceral de cantar, que aos poucos foi entusiasmando também o público, finalmente acordado com temas como Closer, March Of The Pigs ou a versão de I'm Afraid Of Americans, um original de David Bowie que os NIN também já tornaram seu.

Bryan Ferry esbanjou classe e charme ao som de clássicos

À medida que a noite avançava (o concerto começou ainda de dia), a negritude dos NIN ganhou outra dimensão e quando se despediram ao som do clássico Hurt, popularizado pela voz do mestre Johnny Cash, ficou a sensação de ter sabido a pouco. Antes, já tinha passado pelo palco principal Bryan Ferry, que se a princípio parecia ser a proposta mais deslocada do alinhamento deste primeiro dia, depressa provou o contrário, esbanjando classe e charme ao som de clássicos como Don´t Stop the Dance, Slave to Love, Avalon ou Love Is the Drug (estes dois últimos dos Roxy Music). Acompanhado de uma numerosa banda, que incluía quatro mulheres e na qual se destacava a saxofonista (elemento fundamental na música de mr. Ferry), o músico e cantor inglês, de 72 anos, foi a banda sonora perfeita para um por-do-sol á beira Tejo.

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