A homenagem de Júlio Isidro: "Juliette Greco era e continuará a ser uma paixão minha"

A homenagem de Júlio Isidro a Juliette Greco, a "diva de negro", um ícone da música francesa que morreu aos 93 anos.

"MA JOLIE MÔME , DEIXOU-ME.

Desculpem-me mas vou falar na primeira pessoa. Juliette Greco era e continuará a ser uma paixão minha, sempre presente nos sonhos irrealizáveis de Paris nos anos 40, 50 por onde não andei porque as crianças não se podem perder nas ruas misteriosas e encantatórias da cidade -luz.

Aos 18 anos, sozinho em Paris, procurei os lugares da Diva de Negro na margem esquerda, à procura do Tabou ou do L'oeil de Boeuf espaços de cultura, amor e pecado onde a voz dos poetas cantava "Je suis comme je suis" e convivia com Camus, Boris Vian, Jean Cocteau ou Sartre que dela disse: - A voz da Greco tem milhões de poemas que ainda não foram escritos.

O menino tímido, ficou à porta do calor húmido de Chez Barbara, porque aqueles abraços e beijos de paixões aquecidas a Calvados ou Créme de Cassis, me inibiram. Maldita educação/ domesticação trazida do país dos "bons costumes".

Tantas vezes adormeci a ouvir Juliette a cantar Déshabillez-moi e sonhei que cruzava os dedos naquela mão branca de mármore desta mulher de tantas canções e quase tantos amores.

Finalmente, a Greco veio a Portugal e eu ali estive, à frente do palco de joelhos a ouvir e de pé a aplaudir. Caso raro, esta atracção de um admirador que sabe de cor tantos dos poemas que Juliette cantou.

No final do concerto fui convidado para cear num restaurante francês. Fiquei ao seu lado, soltei a língua, o francês da minha cultura de origem, e em certo momento não resisti e disse-lhe como ela era bela e elegante. Retribuiu com um merci Júliô. Num acto de idiota masoquismo, fui mais longe: - Je vous dis ça, sincerement, moi que se suis moche (feio).

A Greco olhou para mim abrindo aqueles olhos negros de longas pestanas a exalar sensualidade, e respondeu: - Ne dites ça parce que tu est un homme très beau. Engasguei....

Durante uma ceia de duas horas, "namorei" com a senhora que em menina foi presa pela Gestapo, juntamente com a mãe e a irmã pelas suas actividades na Resistência contra a ocupação nazi da França. E dei-lhe a mão, aquela mão branca mas quente de tant d'amours. Só para a fotografia...

Tenho ciúmes de Brel, Brassens, Ferré, Gainsbourgh ou Aznavour que cantaram com ela em noites de uma Paris que perde a luz em cada dia. Apagou-se mais uma, mas a paixão juvenil mantém-se.

A esta hora não digo Bonjour tristesse mas sinto-me a caminhar sozinho Sous le ciel de Paris".

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG