A filha de Marx ao som do punk

Os últimos 15 anos da vida de Eleanor Marx, entre a ideologia e o amor. Miss Marx desarruma o modelo do biopic com música anacrónica e monólogos para a câmara.

Mais de uma década depois de Sofia Coppola ter entranhado a New Wave dos Bow Wow Wow na banda sonora de um suposto filme de época, Marie Antoinette (com os míticos ténis All Star nos aposentos da rainha), Susanna Nicchiarelli põe a sonoridade punk rock dos Downtown Boys ao serviço do ativismo socialista da filha mais nova do autor de O Capital. Em Miss Marx as convenções existem para ser quebradas. Ou, pelo menos, é isso que indiciam os créditos de abertura, com letras garrafais em efeito caleidoscópio ao som efervescente do tema Wave of History. Essa energia de arranque interrompe-se quando surge dentro do enquadramento a figura de Eleanor Marx (Romola Garai) no funeral do pai, Karl, a falar do legado dele e da sua relação com Jenny von Westphalen (mãe de Eleanor), concluindo o discurso com a ideia da transcendência do amor perante a infelicidade - sem saber, naquele dia de março de 1883, quando tinha 28 anos, já estava a falar do seu próprio destino.

O punk voltará a infundir alguns momentos do filme, em particular uma das últimas cenas, que liberta esse destino. Mas no fim de contas Miss Marx, baseado na correspondência da família, não quer deixar de ser um filme de época, porque é da beleza estranha dos contrastes e, sobretudo, das contradições, que Nicchiarelli nos quer falar, pela voz de Eleanor. Mulher com uma espécie de intelecto roqueiro, e predisposição feminina para o amor que comprometeu a sua marca revolucionária, apesar de tudo o que defendia estar projetado no futuro.

Ativista pelos direitos dos trabalhadores e contra a mão-de-obra infantil, feminista que lutou pela educação igualitária para homens e mulheres, sufragista e tradutora de obras como Madame Bovary, de Flaubert, e Casa de Bonecas, de Ibsen (esta que vale uma das melhores cenas do filme), irmã de Jenny e Laura, Eleanor Marx nasceu e morreu em Londres, onde se dedicou à causa socialista e passou os últimos 15 anos da sua vida ofuscada - não cega - por uma relação amorosa que em pouco a distinguiu de outras mulheres da época. É essencialmente sobre esse capítulo privado que Miss Marx se debruça, mostrando como o dramaturgo Edward Aveling, com as suas interpretações acerca do socialismo do poeta Shelley, seduziu Eleanor pela audácia do pensamento e a manteve cativa pelo coração.

Tussy, como era chamada carinhosamente pela família, terá encontrado em Aveling uma afinidade no campo das ideias que se traduziu numa acomodação romântica - mesmo que se tenha revelado cedo a irresponsabilidade financeira dele, e mais tarde as infidelidades. Embora não fossem casados (ela considerava o casamento uma instituição obsoleta), viviam como tal. E o facto de Eleanor ter olhado para as mulheres como um grupo tão oprimido quanto a classe trabalhadora é o que torna a sua vida conjugal um quebra-cabeças, só atenuado por uma certa independência interior e empenho na ação política.

Através da inglesa Romola Garai, atriz seguríssima na pele da mulher inteligente, idealista e focada no futuro (que por vezes dirige o seu discurso para a câmara), acedemos a um corpo interventivo dividido entre os sentimentos profundos e a reflexão social. No entanto, Miss Marx não é um filme ideológico. Configura, sim, uma visão sobre o conflito entre a teoria e a prática da ideologia, o modo como a realidade íntima quase sempre não se coaduna com os ideais cientificamente estudados - e basta usar como exemplo o próprio Karl Marx, que vivia às custas do amigo endinheirado Friedrich Engels, com quem partilhou a autoria do Manifesto Comunista, para além de segredos sobre filhos ilegítimos... Por sinal, Engels, com a sua barba farta, tem no filme uma presença meiga mas patriarcal que respeita cada partícula da atmosfera vitoriana. Essa que se sente na justeza dos décors domésticos onde acontecem as conversas, os flashbacks da infância, a escrita e o trabalho intelectual. Mas também onde se fuma ópio e, eventualmente, se dança de uma forma anárquica.

Esta alma roqueira tem muito que ver com Susanna Nicchiarelli, cujo filme anterior não difere da lógica do biopic desarrumado: Nico, 1988 retrata o derradeiro e atribulado ano da vida da icónica cantora alemã. Agora, à realizadora italiana que assume sem embaraço uma produção de língua inglesa interessa a grandeza de Eleanor Marx e o sentido de controlo que tinha sobre a própria vida, acabando por lhe pôr fim em 1898, aos 43 anos. Porém, não é exatamente uma figura trágica que aqui se evoca. Antes um espírito emancipado que talvez não tenha sido capaz de desconstruir as leis do coração na sua vida privada, mantendo o pacto amoroso com um homem que a colocou numa condição de dependência "igual às outras" mulheres. O amor será, de resto, uma bengala ótima para arrumar o caso, mas Nicchiarelli deixa margem para o espectador construir a sua perceção.

Sem pretensões morais, o filme oferece-nos uma certeza: não somos modelos perfeitos daquilo que defendemos. Miss Marx é a fragilidade humana de uma mulher forte, entre a melancolia teórica do papá e a batida punk do amanhã. Uma pequena maravilha para sacudir o pó ao século XIX.

dnot@dn.pt

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