7 dias, 7 propostas pelo escritor João Pinto Coelho

1. Exposição
Museu Lenbachhaus, Munique
Visita via Zoom
Domingo, 28 de fevereiro

Munique, 1902 - O convite que Kandinsky fez a Gabriele Münter chegou no verão. Ela aceitou. Munidos de câmaras fotográficas, cavaletes, tintas e cadernos de esboços, partiram de bicicleta e exploraram as paisagens no sopé dos Alpes da Baviera. No verão seguinte, o convite repetiu-se. Ela aceitou novamente e voltaram a partir, desta vez como casal. Nos anos que se seguiram, Wassily e Gabriele pouco saíram da estrada. Na Alemanha ou na Holanda, na Itália ou na Tunísia, fotografaram, desenharam e pintaram. Com a espátula, as tintas por misturar deixavam esboços a óleo, pequenos e íntimos, o modelo impressionista que usaram para contar o que viam, rejeitando a convenção académica e abrindo caminho para o Der Blaue Reiter, movimento de rutura face à rigidez e tradicionalismo artístico. Mais de cem anos depois, este road movie alucinante é tema da exposição Sob o Céu Aberto - Viajando com Wassily Kandinsky e Gabriele Münter, patente no Lenbachhaus até 6 de junho. Se este museu de Munique é mais um a fechar portas ao vírus, propõe visitas virtuais na plataforma Zoom - com direito a perguntas aos guias que as acompanham -, ilustrando a simbiose criativa do casal entre 1902 e 1908.

2. Filme
O Cavalo de Turim
Filmin
Segundo, 1 de março

"Turim, 3 de janeiro de 1889. Friedrich Nietzsche sai do número 6 da Via Carlo Alberto, talvez para um passeio, talvez para ir ao correio. Não muito longe, um carroceiro enfrenta o seu cavalo teimoso. Apesar da insistência, o cavalo não se move, e o carroceiro - Giuseppe? Carlo? Ettore? - perde a paciência e chicoteia-o. Nietzsche aproxima-se e trava o carroceiro, que espuma de raiva. Nietzsche, de constituição sólida e farto bigode, lança os braços à volta do pescoço do cavalo, soluçando. Um vizinho leva-o para casa, onde ele ficará imóvel e silencioso por dois dias, até murmurar as obrigatórias e derradeiras palavras: "Mãe, eu sou louco". Viverá dez anos mais, gentil e demente, aos cuidados da sua mãe e irmãs.
Do cavalo... nada sabemos."

Este é o texto que Béla Tarr, o realizador húngaro, escolhe para abrir o filme. Dali até ao fim, duas horas e meia e trinta planos depois, veremos o carroceiro, a filha, o cavalo e a casa numa paisagem de morte. Há um bando de ciganos que surge e desaparece, um vizinho que monologa durante cinco minutos; o vento e o silêncio são as outras personagens. A linguagem de Tarr eleva as redundâncias ao estado bruto da arte - a filha que veste o pai, que o despe e volta a vestir, as batatas sempre inteiras e sempre comidas à mão - ou a desconstrução narrada por um grande cineasta.

3. BD
A Marca Amarela
Edgar P. Jacobs
Reli.pt
Terça, 2 de março

Nenhuma rua deserta do East End se libertará alguma vez do som terrífico. Os passos imaginados de Jack, o estripador que assombrou Londres no século XIX, também se podem ouvir neste álbum de banda desenhada. Desta vez o vilão é outro e assina a sua passagem sinistra com um M amarelo riscado a giz. Uma das mais vibrantes aventuras de Blake e Mortimer, num clássico que consagrou Edgar Pierre Jacobs como um dos mais talentosos representantes da Escola de Bruxelas e da ligne claire - como Hergé, com quem colaborou. A Marca Amarela tem a marca do autor: a sobriedade, o poder narrativo do detalhe, as extensas manchas de texto numa história tremenda de sombras e pesadelos. Fernando Savater disse um dia lamentar ter lido em criança A Ilha do Tesouro ou Moby Dick pois privara-se para sempre do prazer insubstituível de os ler virginalmente. Não me lembro da primeira vez que peguei neste livro, mas sei para onde me levou e porque regresso sempre.

4. Série
After Life
Ricky Gervais
Netflix
Quarta, 3 de março

Epifanias de Scrooge-na-manhã-de-Natal é como, nas páginas do The New York Times, James Poniewozik trata os humores de Gervais - uma desilusão que não foi caso único entre a crítica nova-iorquina ao pronunciar-se sobre After Life, a série da Netflix de que se aguarda a terceira temporada. Americanices, pensei; e depois, nada como uma prosa ácida para me erguer o sobrolho. Em boa hora, porque é delirante.
Ricky Gervais escolhe o lado negro do humor para nos mostrar Tony Johnson, um jornalista cioso do superpoder de dizer tudo o que quer, mas rendido ao luto pela mulher que morre de cancro. E há Tambury, a cidade ficcional que é também a de Pat, o carteiro que vasculha a correspondência, de Roxy, a prostituta que se amanceba com o primeiro, ou de Earl (quem é que seja Earl). Um rol hilariante de personagens, contradições e perplexidades de que Tony se vale para postergar a morte. Do melhor que subsiste nos nossos canais de streaming.

5. Livro
Escrever depois de Auschwitz
Gunter Grass
Reli.pt
Quinta, 4 de março

Numa altura em que falta coragem política para reconhecer a excecionalidade do livro enquanto bem essencial - é só disso que se trata -, insisto em propor mais leitura. De volta à sentença de Adorno, segundo a qual seria bárbaro escrever poesia depois de Auschwitz - e que o próprio rebateria mais tarde ao afirmar que "a perpetuação do sofrimento tem tanto direito a expressar-se como o torturado que grita. Daí ser falso afirmar que não se pode escrever poemas depois de Auschwitz." -, lembro-me deste minúsculo livro de Gunter Grass. Uma das maiores vítimas do nacional-socialismo foi a língua alemã. Ao longo da sua carreira literária, Grass procurou lavá-la da nódoa nazi, essa linguagem eufemística, ambígua e manipulativa que encontramos no discurso coloquial, oficial ou literário durante o Terceiro Reich, um tempo de fogueiras onde se queimam livros e se inventa o lager. Escrever depois de Auschwitz - uma edição D. Quixote, com tradução de Helena Topa - é, afinal, a comunicação que Grass dirigiu nas Conferências de Poética da Universidade Johann W. Goethe, em 1999. A legitimidade do prazer estético da arte após o extermínio ou, como o próprio afirma, o género humano que desiste de si mesmo se desistir de escrever depois da tragédia.

6. Gastronomia
Fumeiro Transmontano
www.boticastem.pt
Sexta, 5 de março

No pico do inverno, as mulheres saem em grupo e levam as tripas nos sacos. Chegadas ao rio, parece que o frio da água lhes pode partir os dedos enquanto lavam as tripas. Já em casa, esfregam-nas com aguardente e cozem as carnes com os temperos de família. Depois de ensacadas, as alheiras secarão ao fumo. É assim em Trás-os-Montes, é assim desde sempre. A diferença é que neste ano não as vendem como antes. Para ajudar os produtores locais, a Câmara de Boticas juntou-se à Associação Empresarial Botiquense numa iniciativa que permite aos produtores locais vender online os seus enchidos, mel, licores, azeite, etc. Esperei dois dias pelo fumeiro que encomendei. Chegou perfeito, embalado em vácuo, faltava levá-lo ao lume, cozer e espremer os grelos e alagá-los de azeite. No mesmo dia, a gentileza: telefonaram-me a explicar como se cozinham os chouriços de cabaça. Cozidos, não se esqueçam.

7. Revista
Ficções
Instituto Camões
Sábado, 6 de março

Para dar graça a estes dias, ainda há tesouros escondidos. Luísa Costa Gomes dirigiu a revista Ficções, publicada pela Tinta Permanente entre 2000 e 2005 e, daí a 2007, pela Editorial Caminho. Com edições semestrais, esta revista de contos incluiu ainda alguns números temáticos - ficções de férias, filmes, comer, guerra e humor. É felicíssima a seleção proposta por Costa Gomes, exemplos preciosos - alguns inéditos - da contística portuguesa e internacional, como os textos de Machado de Assis, Tchekhov, Kafka, Hélia Correia, Camus, Beckett, Ishiguro, Dostoievski, Hemingway, Borges ou Alexandre O'Neill. A experiência de leitura de uma coletânea de contos é também irresistível, pois, se lidos de fio a pavio, dispõem-se lado a lado e tornam mais distinguíveis as vozes dos seus autores, os sotaques narrativos ou o lugar da palavra nas frases de cada um. Imagino que num bom alfarrabista ainda seja possível descobri-los. Entretanto, qualquer confinado poderá aceder à página do Instituto Camões, onde, sem custos ou incómodos, todas as edições estão disponíveis para descarregamento.


Escolhas do escritor João Pinto Coelho, autor Perguntem a Sarah Gross e Um Tempo a Fingir, publicados pela editora Leya.

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