30 anos depois, esta série volta a fazer justiça pelos Cinco de Central Park

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30 anos depois, esta série volta a fazer justiça pelos Cinco de Central Park

Jovens, inocentes, condenados. "Aos Olhos da Justiça" conta como cinco rapazes foram acusados de terem violado e agredido uma corredora em Nova Iorque. 30 anos depois, provocou demissões e quebras de contrato.

Os acontecimentos daquela noite, 19 de abril de 1989, são a pedra no charco. O que depois aconteceu são os círculos que se vão formando ao seu redor e que, 30 anos depois, continuam a produzir efeitos. Começam na violação e agressão de uma mulher de 28 anos, em Central Park, passam pela condenação, revisão do caso e a estreia da série Aos Olhos da Justiça, na Netflix.

Os cinco de Central Park - nome pelo qual ficaram conhecidos - tinham entre 14 e 16 anos, viviam no Harlem e, naquela noite, foram para Central Park "bravejar" (o verbo em inglês é to wild). Na versão dos jovens, incomodar ciclistas incautos e, no pior dos cenários, envolver-se em brigas.

Na mesma noite, a financeira Trisha Meili sai para fazer uma corrida e é atacada. Violada e brutalmente espancada, fica em coma durante 12 dias. As sequelas incluem perda de memória. A vítima não recorda quem a atacou. Os rapazes eram cerca de 30, cinco chegam à esquadra para interrogatório.

O primeiro episódio da série realizada por Ava DuVernay, a mesma de Selma - A Marcha pela Liberdade (2014) conta-se no equilíbrio entre a vida calma de Kevin Richardson, Tron MCray, Korey Wise, Yusef Salaam e Raymond Santana Jr. - os namoros, os jogos de futebol, as aulas de trompete... - e os acontecimentos daquela noite.

Linda Farstein, chefe da unidade de crimes sexuais da polícia de Manhattan, lidera o caso. Interpretada pela atriz Felicity Huffman, é retratada como um mulher rápida e pragmática, e também pouco escrupulosa na maneira como conduz a investigação.

Nova Iorque vive um período de aumento do número de violações, a investigadora quer resultados. Criada a tese de que só podem ser os adolescentes os autores do crime, apesar de se dizerem inocentes, não terem versões coincidentes e afirmarem que estão a muitos metros do local do crime, tudo é feito para os "colocar" no local. Aos polícias de serviço resta "arrancar" a confissão.

Sem perder de vista que se trata de uma obra de ficção, DuVernay procura deixar claro factos que foram entretanto confirmados por anos de investigações ao caso - as oficiais e as da imprensa. Como os menores - quatro negros e um hispânico do Harlem - foram submetidos a interrogatórios sem a presença de adultos, condicionados a dizer factos que não correspondiam à verdade, sem comer, beber ou descansar, durante 42 horas. Como a tensão entre polícia, negros e hispânicos molda a relação entre todos.

Quatro dos rapazes acabam por assinar confissões e gravar depoimentos em que admitem ter sido testemunhas do crime. Todos menos um, Yusef Salaam, que à vigésima quinta hora não assina qualquer depoimento nem é filmado.

Elizabeth Lederer (Vera Farmiga) é a procuradora que fica com o caso. A primeira impressão é de que se trata de uma pessoa cautelosa que se quer basear em provas materiais quando chegar à sala do tribunal. Na prática, tão pressionada pela opinião pública como Linda Farstein para apresentar resultados, ela converte um caso judicial num assunto político, e nunca recua mesmo perante evidências fracas.

Antron, Yussef e Ray são julgados num momento; Kevin e Korey do outro. Desconhecidos uns dos outros (só Yusef e Korey eram amigos), eles vão tornar-se mais próximos à medida que vão conhecendo melhor o sistema judicial norte-americano. Recusam um acordo extrajudicial para reafirmarem que são inocentes.

O processo, kafkiano, afeta as famílias dos jovens - mais um círculo provocado pela pedra no charco. As associações de direitos humanos vão para a rua. O argumento racial é invocado em tribunal. Até Donald Trump se envolve, e Ava DuVernay inclui essas imagens reais no filme. "Talvez seja ódio que precisamos para resolver este assunto", diz, numa entrevista a Larry King.

Apenas um milionário com interesses imobiliários em Nova Iorque na época, o agora presidente dos EUA publica anúncios de página inteira contra os Cinco de Central Park em cinco jornais (terá gastado 85 mil dólares nesta ação), defendendo o regresso da pena de morte ao estado de Nova Iorque.

Julgados em agosto e dezembro de 1990, os cinco de Central Park são condenados a penas entre os 5 e os 10 anos de detenção num centro juvenil, exceto Korey Wise que, pela natureza violenta dos crimes e por já ter 16 anos foi condenado a uma pena entre 5 e 15 anos de prisão. Um revoltado Korey Wise grita aos procuradores: "Vão pagar por isto. Jesus vai apanhar-vos. Vocês inventaram isto."

É sobre o mais velho dos Cinco de Central Park que incide o quarto e último episódio da minissérie. É um recurso narrativo que dá ao espectador a crua dimensão da história real. Korey, que na série é "apanhado" pela polícia porque decide acompanhar o amigo Yusef à esquadra, passou a década seguinte a cumprir a pena. Sempre numa cadeia para adultos - entrou quando os telemóveis eram ainda raros e a internet não era eletrodoméstico e saiu depois do 11 de Setembro de 2001.

Enquanto Kevin, Tron, Yusef e Ray voltam ao Harlem uma vez cumprida a pena, e tentam refazer as suas vidas - relacionar-se com mulheres, encontrar um trabalho, enfrentar a desconfiança dos vizinhos, descobrir o grande número de profissões que lhes estão vedadas por requererem um certificado impossível para alguém com cadastro -, o mais velho dos Cinco de Central Park, salta de prisão em prisão, sofre abusos e está cada vez mais longe da mãe, a última pessoa da família que lhe resta (e esta tem cada vez com menos meios para o visitar).

A confissão, o processo, a indemnização

Mas havia de ser Korey Wise aquele que encontraria a chave para a resolução do caso. Na prisão, conhece Matias Reyes, condenado por violação e homicídio, que confessa ter sido o autor do crime de Central Park fornecendo à polícia detalhes sobre os eventos da noite de 19 de abril de 1989. Dois dias antes tinha praticado um crime de contornos semelhantes. Tinha 17 anos na altura. Nunca foi julgado pelo crime de Central Park, uma vez que o caso já tinha prescrito.

A confissão permite a libertação dos cinco rapazes de Central Park e com ela iniciou-se um processo judicial contra a cidade de Nova Iorque. Foi preciso passar outra década para que fosse acordada uma indemnização para os cinco homens. Michael Bloomberg, mayor de Nova Iorque em 2003, recusou chegar a acordo durante quase mais uma década. Em 2013, após a sua eleição, Bill de Blasio resolveu a questão. Em 2014, receberam um total de 41 milhões de dólares. É a maior indemnização alguma vez paga pelo estado de Nova Iorque.

Os protagonistas, hoje

Korey Wise recebeu 12 milhões de dólares (a maior fatia da indemnização) e é hoje o único que vive em Nova Iorque. É frequentemente convidado para falar sobre o caso e fundou o Innocence Project, um projeto que visa proteger aqueles que são injustamente acusados.

Antron McCray, pai de seis filhos, vive na Georgia, Atlanta. Foi o primeiro a deixar Nova Iorque. Cumpriu seis anos de pena. Em 2012 era operador de empilhadora, segundo a imprensa norte-americana. A relação tensa com o pai retratada na série corresponde à verdade e mantém-se atual. Nunca o perdoou por lhe ter dito para assumir o crime. "É um cobarde", disse a Oprah Winfrey numa entrevista recente.

Yusef Salaam, que esteve na prisão durante sete anos, é hoje casado, tem 10 filhos, faz palestras falando sobre o caso regularmente e foi condecorado por Barack Obama em 2016. Vive no estado da Georgia.

Ray Santana também se mudou para Georgia. Vive com a filha adolescente. Tem uma linha de roupa que evoca a história do Central Park Five. Parte das receitas financiam o Innocence Project.

Kevin Richardson, que cumpriu cinco anos de pena de prisão, vive hoje em New Jersey.

Trisha Meili também faz palestras e ajuda outras vítimas de abusos sexuais.

Linda Farstein deixou a polícia e tornou-se uma autora de policiais reconhecida.

Elizabeth Lederer continuou a servir como procuradora e a dar aulas na universidade.

Procuradora demite-se de universidade, investigadora perde contratos com editora

Para Lederer e Farstein, a estreia da série When They See Us (título original) constitui o mais recente círculo provocado pela pedra no charco.

A investigação começou a ser posta em causa, algo que até agora nunca tinha acontecido - nem quando os jovens processaram o estado de Nova Iorque, nem quando o documentário de Ken Burns sobre o caso estreou, em 2013, e foi pedido o afastamento de ambas.

Esta semana, porém, numa carta enviada aos alunos, Elizabeth Lederer, que se mantém como procuradora de Manhattan, anunciou que não voltaria a dar aulas na faculdade de Direito da universidade de Columbia (outra das suas atividades), pois, como explicou o reitor num e-mail enviado aos alunos, citando a advogada,

When They See Us "reacendeu uma dolorosa - e vital - conversa sobre raça, identidade e justiça criminal". Concluía: "É melhor para mim não continuar a dar aulas".

A decisão de Lederer responde aos pedidos da associação de alunos negros de Columbia (Columbia's Black Law Students Association). Os estudantes tinham criticado a "inação" da direção da escola em relação ao caso.

Linda Farstein recebeu o primeiro impacto da estreia da série com a criação de uma petição online exigindo que seja processada (está quase nas 25 mil assinaturas).

Depois surgiu a hashtag #CancelLindaFarstein. Pressionada, demitiu-se de vários conselhos a que pertencia, incluindo a Vassar College. Mais recentemente perdeu o contrato de publicação com a sua editora, a Penguin Random House.

Em reação à série assinou um artigo de opinião no The Wall Street Journal (acesso pago) dizendo que entre as falsidades da série está dizer que os rapazes não foram alimentados e que existiram comentários racistas durante as investigações. No Twitter, Ava DuVernay respondeu: "Esperado e típico. Sigamos em frente". A opinião pública que há 30 anos estava do lado de Farstein e Lederer está hoje ao lado dos cinco rapazes.

Realizadora quis mudar o título da série

Os cinco rapazes, agora homens, trabalharam de forma estreia forma estreita com Ava DuVernay na produção e realização deste filme em quatro partes (por exemplo, Korey Wise andou pelo Harlem com o jovem ator que o interpreta, Jharrel Jerome).

A realizadora insistiu que a minissérie mudasse de título e se afastasse da ideia de Central Park Five, nome pelo qual ficaram conhecidos e que foi usado no documentário de Kern Burns para a PBS.

"Central Park Five é um nome da polícia, dos procuradores, da imprensa. Tirou-lhes os rostos, as famílias, tirou-lhes o pulso e o coração - desumanizou-os. Precisávamos de um título que fosse mais do que Central Park Five". Explicou-o na semana passada durante um programa em que Oprah Winfrey, que também aparece na ficha técnica como produtora (tal como Robert DeNiro), entrevistou os rapazes.

Sobre a série, Ava DuVernay, 46 anos, resumiu assim o seu propósito, numa entrevista a Trevor Noah: "Quis mostrar como funciona o sistema".

"O primeiro episódio do filme é sobre interrogatórios - sem comida, sem descanso - agressões. O segundo foca-se nos tribunais. Defesa, acusação, procuradores... E fianças. Mostrando que neste país existe uma justiça para ricos. Podemos pagar e sair ou não pagar e ser preso. O terceiro é sobre como continuamos a encarcerar menores neste país. O quarto é pós-condenação, a maneira como tratamos as pessoas condenadas. Quando terminar perceberemos como funciona este sistema, que todos pagamos", explicou.

Em entrevista a Oprah Winfrey, os mais novos dos acusados - Antron, Kevin, Ray e Yusef - explicaram que foi com a série que perceberam a verdadeira dimensão do que se passou com Korey Wise, preso num estabelecimento prisional de adultos aos 16 anos. Mas, por mais doloroso que seja, Kevin Richardson não tem dúvidas: "Estas coisas precisam de ser vistas".

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