Ao décimo minuto do discurso de António Costa que encerrou o primeiro dia do 24.º Congresso do PS, primeiro em que já não é o secretário-geral e se prepara para também deixar de ser primeiro-ministro, houve referências a um ser maléfico na Feira Internacional de Lisboa (FIL). “O diabo não veio, não veio e não veio”, repetiu quem governou Portugal mais de oito anos e liderou durante nove “um partido da esquerda democrática que só tem representação aqui”, fazendo uma pausa dramática e calculada antes de “revelar um segredo” aos congressistas: “O diabo não veio porque o diabo é a direita.”.Muito aplaudido pelo auditório, o ataque a Passos Coelho, seu antecessor na governação, esteve longe de ser a única menção ao que Costa disse ser o risco de uma mudança de governação de Portugal, pois logo de seguida antecipou que as creches gratuitas só serão alargadas a 140 mil crianças “se a direita não vier desfazer o que está a ser feito”..Num discurso de entusiástico apoio a Pedro Nuno Santos, que apresentou como “o primeiro secretário-geral que nasceu depois da fundação do PS e que vai ser o primeiro primeiro-ministro que nasceu depois da Revolução de Abril”, Costa defendeu o seu legado político, como seria de esperar, mas sobretudo fez por apresentar o sucessor como alguém que garante “soluções para os problemas”. E que demonstrou, com a lista única aos órgãos nacionais do partido e todo o esforço de união com os rivais na disputa da liderança, que manterá o “partido da mãozinha” como o partido da concórdia..Também não esqueceu o aval a uma nova geringonça que possa surgir das legislativas de 10 de março, pois sem esquecer que o PS “se bateu nas ruas em 1975 para combater a deriva totalitária da Revolução”, também instou a que nunca mais possa haver limites a entendimentos com os parceiros que, de 2015 a 2019, o ajudaram a cumprir a única legislatura que conseguiu levar até ao fim. “Nunca mais os muros voltarão a existir dentro da esquerda portuguesa”, garantiu..Apresentando o PS como “um partido com causas do seu tempo”, o primeiro-ministro disse que contrariar as alterações climáticas foi a maior dessas causas e uma daquelas em que a sua governação tem um balanço mais positivo. Foi “com um brilhozinho nos olhos”, tal como na canção de Sérgio Godinho que encerrou o vídeo de homenagem visto pelos congressistas, que referiu que Portugal foi o primeiro país do mundo a assumir 2050 como ano em que teria neutralidade carbónica, antecipando de seguida tal meta para 2045. E defendeu o contributo das políticas de mobilidade para esse objetivo, a par da aposta nas energias renováveis, que já tornaram Portugal autossuficiente por seis dias consecutivos, das alterações feitas nos passes sociais e no investimento nas redes de metro de Lisboa e do Porto. .Mais efusivo no momento em que defendeu contas certas que sublinhou fundarem-se na simultaneidade de diminuição do défice e da dívida pública com um aumento de rendimentos das famílias e de investimento público, Costa defendeu o alargamento da sustentabilidade da Segurança Social em 40 anos, a redução do abandono escolar para 6,7% e alterações legislativas “para garantir que há mais liberdade e mais democracia no final destes oito anos”. As mexidas na Lei da Paridade para aumentar a participação de mulheres na política, a possibilidade de adoção por casais do mesmo sexo e a possibilidade de morrer com dignidade foram apresentadas como exemplos. .“Podem ter-me derrubado, mas não me derrotaram”.Mesmo nos piores pontos dos oito anos em governou o país, o ainda primeiro-ministro procurou demonstrar que sem o PS tudo teria sido ainda pior. Admitindo os “muitos problemas do Serviço Nacional de Saúde, lançou um novo desafio à sala: “Imaginem os que teria se não tivéssemos aumentado em 72% o seu orçamento.” De igual modo, sem esquecer a marca deixada pelos incêndios florestais de 2017, elogiou o ex e o atual ministros do Ambiente, Matos Fernandes e Duarte Cordeiro, pela “melhor prevenção”, e o ex e o atual ministros da Administração Interna, Eduardo Cabrita e José Luís Carneiro, pelo “melhor combate” que se conjugaram para evitar novas tragédias. Quanto aos jovens, que “vivem angustiados com a enorme injustiça” de terem qualificações acima da média europeia sem terem em Portugal os salários que encontram noutros países, referiu que “ao contrário de outros, que lhes disseram par emigrar, lutamos para que fiquem em Portugal e construam o seu futuro”, enumerando medidas como o IRS Jovem, o Porta 65 Jovem e a devolução de um ano de propinas para quem complete licenciaturas e mestrados. .Quanto à Operação Influencer, que levou à demissão do primeiro-ministro, António Costa, deixou para o final do discurso a prova de que não ficou convencido com o que lhe aconteceu. “Podem ter derrubado o nosso Governo , mas não derrotaram o PS”, garantiu quem chegou ao som de Puccini, ovacionado por todos, e teve direito, depois de terminado o seu discurso, a ser levado de mão dada pelo novo secretário-geral, Pedro Nuno Santos, de volta ao púlpito, em jeito de passagem de testemunho para a corrida de obstáculos que se aproxima.