"Sem jornalismo livre não há escrutínio de poder, não há debate de qualidade".
"Sem jornalismo livre não há escrutínio de poder, não há debate de qualidade".Foto: Gerardo Santos

António José Seguro: "Num mundo de desinformação, o jornalismo de qualidade é um pilar crítico da democracia"

Presidente da República encerrou a Grande Conferência DN com uma reflexão sobre os desafios que se colocam à comunicação social. E em que instou a União Europeia a não ter uma atitude passiva.
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O Presidente da República, António José Seguro, encerrou a Grande Conferência do Diário de Notícias, com o aviso de que, "num mundo de desinformação à escala industrial, o jornalismo de qualidade é um pilar crítico da democracia". Mas também se ouviram no Grande Auditório da Fundação Champalimaud, em Lisboa, referências aos riscos da Inteligência Artificial, e mesmo uma citação à encíclica em que o Papa Leão XIV disse que poderá pôr em causa a dignidade humana.

"Sem jornalismo livre não há escrutínio de poder, não há debate de qualidade, não há cidadãos com a informação de que precisam para decidir bem. A qualidade da nossa democracia depende, também, da qualidade do jornalismo que se faz. E o país tem de aferir, com seriedade, o que quer fazer, os valores que deseja garantir para ter um jornalismo livre e plural", disse o Chefe de Estado, no final da sua intervenção.

Precisamente um ano após ter apresentado oficialmente a candidatura à Presidência da República, nas Caldas da Rainha, quando não tinha sequer garantido apoio do PS, partido de que foi secretário-geral, António José Seguro homenageou o DN, dizendo que "um jornal com mais de um século e meio de história não é apenas uma empresa de comunicação, sendo uma parte da memória coletiva do país".

Mas também aproveitou para deixar alertas quanto "às respostas quase sempre atrasadas" dadas à revolução digital que está em curso. "O alcance desta permanente inovação tecnológica remete-nos também para a constatação de que os países que souberam integrar estas tecnologias nas suas empresas e sociedades saíram mais fortes. Os outros ficam na fila do supermercado, com o estatuto de um vulgar consumidor", advertiu, acrescentando que esse é "um dos motivos pelos quais Portugal e a União Europeia não podem ter uma atitude passiva", esperando anos por um plano "que visa recuperar anos de atraso".

"A ausência de regras e de convénios pode ser um contexto fértil para a proliferação de novos instrumentos e redes tecnológicas com estratégias ofernsivas, cujo efeito final é ampliar o poder dos mais fortes e anular qualquer veleidade de regulação", disse António José Seguro. De igual modo, chamou a atenção para que "vivemos numa era em que algoritmos influenciam as nossas escolhas", "a desinformação é produzida em escala industrial e personalizada à medida de cada cidadão" e "a cibersegurança deixou de ser um tema técnico, para se tornar uma dimensão central da soberania dos Estados".

Outra reflexão feita pelo Presidente da República teve a ver com "o que resta" da ordem internacional, na senda de intervenções anteriores. Referindo-se à "agressão russa à Ucrânia", aos "ciclos de violências que esmagam populações civis e desafiam a consciência da humanidade" no Médio Oriente, enquanto no continente africano "nem temos informação real da quase permanente violação da dignidade humana", e a "rivalidade entre os Estados Unidos e a China estrutura, cada vez mais, todas as outras relações internacionais", Seguro identificou como denominador comum a erosão do princípio, "que julgávamos adquirido", de que as relações entre Estados se regem por regras e não apenas pela força.

Saudando o acordo alcançado horas antes entre os Estados Unidos e o Irão para desbloquear a navegação marítima no estreito de Ormuz, Seguro disse que tal entendimento "representa um sinal claro de que a negociação, o compromisso e o respeito mútuo continuam a ser os caminhos mais eficazes para promover a estabilidade, a segurança e a paz entre os povos". E reiterou que Portugal "vai continuar empenhado na defesa do multilateralismo e de uma ordem internacional assente no diálogo, na paz e na resolução pacífica das divergências entre Estados".

No início e no final da intervenção ouviu-se a história do jornal A Verdade, que o agora Chefe de Estado fez há 50 anos, numa máquina de escrever, com mais três amigos quando era um adolescente de Penamacor. "Olhando para o mundo que descrevi, onde muitos apostam na desinformação, na força contra o direito e na tecnologia sem escrutínio, percebo que aquele título de juventude era, afinal, um programa para a vida". Isto porque, em sua opinião, todas as transformações em curso impactam na verdade dos factos, "sem a qual não há debate democrático"; na verdade das regras, "sem a qual não há ordem internacional"; na verdade da dignidade humana, "sem a qual nenhuma tecnologia merece o nome de progresso".

"Sem jornalismo livre não há escrutínio de poder, não há debate de qualidade".
António José Seguro encerra a Grande Conferência DN. O DN "é uma parte da memória coletiva do país"
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