O jurista e antigo governante Guilherme d'Oliveira Martins aproveitou a sua intervenção no painel "Portugal na Era da Incerteza", na Grande Conferência do Diário de Notícias, para contrariar a ideia de que devemos apostar no improviso. "Fomos sempre bons quando não improvisávemos", defendeu, no evento que está a decorrer nesta segunda-feira, na Fundação Champalimaud, em Lisboa, realçando a importância de existir planeamento em Portugal.Debatendo com o professor universitário e ex-deputado do CDS-PP, Diogo Feio, e com a antiga comissária europeia para a Coesão e Reformas, Elisa Ferreira, moderados pelo diretor do DN, Filipe Alves, Guilherme d'Oliveira Martins, apontou o exemplo do infante D. Henrique, "que chegou onde chegou porque se fez rodear dos melhores do seu tempo", e dos avanços na educação que permitiram combater o elevado analfabetismo em Portugal.De igual modo, o ex-governante, que assumiu diversas pastas em governos socialistas, chegando a coincidir com Elisa Ferreira no Conselho de Ministros, preconizou uma "reforma das mentalidades", recusando o "fatalismo do atraso", na qual o Estado "deverá ser um catalisador de iniciativas"."Não acredito nas reformas estruturais como sendo milagrosas", disse Guilherme d'Oliveira Martins, contrapondo-lhes "reformas concretas, com meios para cumprir objetivos", apontando como prioridade a ideia de descentralização.O painel começara com a antiga comissária europeia Elisa Ferreira a advertir que a baixa produtividade de Portugal "tem de ser resolvidos com estratégias muito bem pensadas, a médio e a longo-prazo". Até pelas transformações em curso no país e no mundo, por entre uma sucessão de crises que foram desde o ataque às Torres Gémeas à crise financeira global, e desde a pandemia de Covid à invasão da Ucrânia.Sobre os problemas de Portugal, Elisa Ferreira mencionou a "sensação de que o sistema não tem espaço para todos" para refletir sobre a necessidade de todo o país "dar um contributo para a riqueza nacional", permitindo que Lisboa se concentre em "oferecer o que de melhor oferecer", nomeadamente em áreas como a ciência, a investigação e a inovação.Nesse sentido, deu o exemplo da Dinamarca, onde as verbas do Programa de Recuperação e Resiliência foram utilizadas no desenvolvimento de 15 zonas do seu território, reforçando a aposta nas cidades médias que tende a suceder mais no Norte da Europa. E rematou falando na "reforma das mentalidades", sobrepondo-o às reformas na Administração Pública, "a quem se pede o impossível, sempre a mudar de tema".Por seu lado, Diogo Feio falou dos fenómenos da polarização e da tendência para reduzir o debate de questões complexas a poucas centenas de caracteres nas redes sociais. Uma dessas questões é a demografia, abordada pelo antigo deputado centrista ao falar sobre uma "população cada vez mais envelhecida", o que o levou a prever que entre os presentes no auditório da Fundação Champalimaud muitos chegarão a ser centenários.Assumindo arriscar-se nesse tema, Diogo Feio disse que "temos de defender os políticos", realçando que o primeiro-ministro de Portugal é o oitavo com pior remuneração na União Europeia. E, quando o diretor do DN lhe perguntou se colocar essa questão não poderá alimentar o populismo, o antigo deputado centrista respondeu que "se tivermos medo do populismo é melhor dedicarmo-nos a outras coisas".