Portugal tem um sério problema de literacia financeira que está a condicionar o investimento e o crescimento da economia. A premissa é defendida por Sérgio Monteiro, CEO da Horizon Equity Partners, que considera que o país é conservador no que respeita ao investimento de capital.“Quando Maria Luís Albuquerque [atual comissária europeia responsável Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos e antiga ministra das Finanças ]- que agora tem uma responsabilidade europeia extraordinária porque está a mobilizar poupança para investimento - disse que os depósitos a prazo estavam a desvalorizar todos os dias, ninguém compreendeu e alguns até a insultaram. Isto significa que começamos a ter um problema de literacia financeira (...) É preciso educação financeira para toda a gente”, disse esta quarta-feira, 22.O antigo secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações de Passos Coelho, que falava na conferência M&A - Consolidar para Crescer, promovida pelo DN e pela PwC, com apoio do Banco Português de Fomento, argumentou que existe “uma tradição cultural em Portugal de conservadorismo pela história” que leva a uma ausência de literacia nesta matéria.“Ninguém percebe o efeito da erosão da inflação face à remuneração dos depósitos. Temos uma poupança pequena no país, mas a pull de capital que está disponível para investir ainda é mais reduzida, porque toda a gente diz: “bom, pelo menos aqui eu estou seguro”. Preferem perder dinheiro porque não percepcionam perder dinheiro”, ilustrou.“É um bocadinho como as grandes empresas. No passado, as grandes empresas existiam quando eram abençoadas pelo Estado Novo. Na prática, em Portugal, muita da geração que hoje tem algum palco - porque depois a geração mais nova também ou emigrou ou está distante destes temas - vive debaixo ainda dessa perceção relativamente antiga”, acrescentou ainda.O CEO da gestora de fundos independente, criada em conjunto com o ex-ministro da Economia, Pires de Lima, lamentou que Portugal não adote mecanismos de incentivo ao investimento, à semelhança das congéneres europeias.“Era preciso canalizar a poupança dos portugueses para investir na economia. Maria Luís Albuquerque, que tem estado a catequizar a Europa sobre isso, depara-se com inúmeras dificuldades até de literacia financeira”, reiterou.Sérgio Monteiro lamentou ainda que os investidores sejam maltratados no país. “Nós não tratamos bem, nas regras do mercado de capital, os nossos pequenos investidores. Estamos sempre a controlar regras da OPA [oferta pública de aquisição], entra um novo investidor estratégico, mas nunca há uma OPA. Os investidores pequenos sentem-se sempre maltratados relativamente ao investidor dominante que faz um acordo por trás. Os reguladores, se calhar, têm uma tendência para se protegerem a si mesmos e criam regulação através da regulação que depois não chega aos pequenos investidores”, justificou.Já no que respeita à fiscalidade, apontou o dedo ao Estado na excessiva tributação das mais-valias. “No caso de operações de grande dimensão, há uma limitação na dedução de juros para efeitos de matéria fiscal. Ora, em operações de grande dimensão, onde podemos ir buscar recursos do Banco de Fomento, temos depois a barreira fiscal a impedir esses movimentos”, alegou.Sérgio Monteiro defendeu também que o Estado deveria “investir no país e no seu crescimento”. “Hoje, com o país estabilizado do ponto de vista financeiro, é incompreensível como é que o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) não investe em capital, em alguns dos grandes projetos de infraestrutura. É dinheiro das pensões e uma parte do capital que deveria ser alocado. É incompreensível como é que o FEFSS não investe em capital”, reforçou..Brandão de Brito, das Finanças: Portugal vive numa "armadilha de PMEs"